Luis Soares
Colunista
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Barbárie 04/Oct/2011 às 22:35
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Impunidade: Gigante da alimentação provoca rastro de sangue em trabalhadores

Um dos trabalhadores sofreu amputação da perna direita, além de um corte nas costas e um enorme ferimento, que o rasgou da virilha até o ânus, expondo suas vísceras. A empresa, que recebeu R$ 10 bi em dinheiro público, silencia

trabalhador friboi mutilado“A JBS TEM como missão ser a melhor em tudo o que se propõe a fazer”, diz a página da “maior empresa em processamento de proteína animal do mundo”. No entanto, será o crime uma missão da JBS Friboi? Esse é o questionamento que se faz a essa empresa que recebeu R$ 10 bilhões de dinheiro público do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). São contundentes relatos de funcionários vitimados pela superexploração, o ritmo intenso de trabalho e as longas e extenuantes jornadas que multiplicam os acidentes de trabalho com lesões e mutilações.

A multiplicação das denúncias e dos protestos vem forçando a Justiça, mesmo que ainda modestamente, a sair da letargia diante do rastro de sangue e dor deixado por essa gigante da alimentação.

Sofrimento em carne e osso

Era o dia 12 de novembro de 2002, Saturnino Vogado tinha 24 anos. Estava no final do expediente, por volta de 15 horas e 45 minutos. Ele havia começado a trabalhar às seis da manhã. A máquina não devia estar ligada; mas estava e começou a puxar. “Levou a minha perna e o meu corpo para o meio das ferragens. Gritei para o meu amigo Jeferson, mas ele estava mais nervoso que eu, paralisado. Os supervisores não estavam acompanhando o nosso trabalho. Nós não sabíamos como fazer aquilo parar. Fraturou meu fêmur, esmagou o joelho, quase me partiu ao meio…”

Para não ter de pagar a indenização pela irresponsável exposição do funcionário e fugir das suas obrigações com a incapacitação permanente, a JBS Friboi fez de tudo, denuncia Saturnino. “Inventaram que eu tinha feito curso, presenciado palestras, que estava plenamente qualificado para operar a máquina. Disseram até que eu era mecânico, embora não passasse de auxiliar de frigorífico”. Além disso, conta, falaram para a imprensa que o acidente havia sido com um caminhão, no embarque, e até tentaram barrar a entrada dos bombeiros que vieram me socorrer. Buscavam encobrir a verdade, não queriam que vissem o que realmente aconteceu”.
Ainda muito novo, desconhecedor do sindicato e dos seus direitos, Saturnino acabou sendo ludibriado pela JBS Friboi e pelo canto da sereia da “responsabilidade social”.

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Baixou a guarda e acabou sendo completamente driblado e goleado na ação judicial que o condenou como culpado. Tudo o que aconteceu passou a ser de sua única responsabilidade. Foi assim que ficou sem um centavo para fazer frente à adversidade da vida de trabalhador pobre e mutilado, morador da periferia. “Não ganhei nenhuma indenização da JBS Friboi, nada, nadinha. Só de Deus: a vida, uma segunda chance de viver. Até para me aposentar tive que entrar na Justiça. Saiu recém agora, no mês de agosto”.

Além da amputação da perna direita, Saturnino sofreu um corte nas costas e um enorme ferimento, que o rasgou da virilha até o ânus, expondo suas vísceras, o que lhe obrigou a fazer uma colostomia. (Por meio de uma bolsa se faz a exteriorização do intestino grosso para a eliminação de gases ou fezes). E o tempo passou. Devido à “enrolação” do SUS (Sistema Único de Saúde) em Campo Grande (MS) e à completa falta de solidariedade da Friboi, a operação de reversão da colostomia não foi feita após os três meses do acidente, conforme inicialmente os médicos haviam apontado, mas somente cinco anos depois. Foram quase sessenta meses, longos e intermináveis.

“O SUS estava sempre cheio e a empresa vivia inventando desculpas, dizendo que não podia pagar pela cirurgia. Para fazer a reversão tive de ir de bicicleta, pedalando cerca de quinze quilômetros com a prótese e a bolsa de colostomia. Foi assim que consegui”, relata.
Pai de dois filhos, “se virando” para sobreviver com o salário mínimo que ganha do auxílio-doença, Saturnino fez adaptação numa moto para sair à busca de trabalho. Ele pinta portas e portões para tentar complementar o macérrimo orçamento.

Fazendo das tripas coração

trabalhadora friboi verônica sofrimentoVerônica Benitez trabalhava na triparia tirando o sebo com a tesoura para cozinhar e embalar. “É questão de segundos e vai caindo tripa e mais tripa, o que deixa muita gente doente pelo ritmo. Lá dizem haver 70 trabalhadores, mas se tem 40 é muito porque muitos acabam pegando atestado por não suportar o ambiente ou estão encostados na Previdência. E aí quem fica ali tem que dar conta do serviço todo e se arrebenta”, explica.

Passados dois anos, adquiriu um edema, além de “bursite subacromial” e “tendinite do supraespinhal e subescapular” que a incapacitam para o trabalho. “Agora, a JBS diz não ter nada com isso. Mas não foi lá que adquiri as lesões? Se a gente chegava com atestado de 15 dias, tiravam dez e só davam cinco, com o médico da empresa remanejando de função, fazendo as pessoas trabalharem doentes. Então, de quem é a culpa?”, questiona a operária. Recebendo do INSS “auxílio-doença”, já que “a JBS tem como norma não reconhecer o acidente de trabalho”, Verônica vem pagando consultas e remédios do próprio bolso. “Não consigo tirar ou vestir a blusa, pentear o cabelo ou erguer o braço”, desabafa.

Elton Ferreira da Silva também tem recordações traumáticas de um período com excesso de pedidos de “mocotó”, “a pata da vaca”, explica. “Cheguei de manhã, normal. Foi tudo muito rápido. Quando vi já estava com o braço travado dentro da máquina, urrando de dor e pedindo socorro”. “O problema é que tinha uma aglomeração de gente na seção para tocar a produção – milhares de pés por dia. Tudo parecia pingue-pongue, com a gente cagando a alma pela pressão. E o meu braço ficou assim, cheio de pinos”, mostra. O braço engessado ainda dói. O operário deveria ter passado pela avaliação de um médico no dia 23 de agosto. Como não havia quem o atendesse no sistema público de Campo Grande e a JBS não deu qualquer apoio para amenizar o sofrimento numa clínica particular – inviável para quem ficou por conta do INSS – a consulta foi remarcada para o dia 20 de setembro.

O ajudante de produção Ronaldo Teixeira sente o estômago embrulhar toda vez que houve o nome da antiga firma, da qual foi demitido por justa causa, estando com a mulher grávida, por meio de uma grosseira armação. Ronaldo foi posto na rua quando retornou ao trabalho no frigorífico da JBS Friboi na capital do MS, depois de ter ganho ação contra a empresa de R$ 50 mil por danos morais e indenização trabalhista após acidente na linha de produção.

Conforme o laudo do Centro de Atendimento Médico e Pericial do Mato Grosso do Sul, o acidente no frigorífico provocou “anquilose de polegar direito, com deformidade importante decorrente de esmagamento de partes moles e ossos”. “As sequelas estão definitivamente instaladas, sem tratamentos que possam revertê- las”, acrescenta o documento, que assinala a “perda da capacidade de pinça” – já que é o dedo polegar o que faz o aperto, o que segura o punho.

Sérgio Alfonso era “serra fita” – como são chamados os funcionários que seguram a serra elétrica para dividir o boi ao meio – numa das unidades da JBS Friboi na cidade.

jbs friboi acidente trabalhadores“O acidente aconteceu na véspera do meu aniversário, no dia 25 de julho de 2005. Quando coloquei a serra na carcaça do boi, a carretilha que fecha as pernas do animal escapou do dente da nória (a correia que transporta o gado pendurado), a fita de aço que garante o corte segurou no osso. Como os dentes da nória estavam gastos, toda aquela carne desengatou e me deu um tirambaço. Foi aí que perdi o movimento de três dedos”.

A tragédia estava anunciada havia tempos. Os operários da seção, assim como Sérgio, já haviam alertado para o desgaste dos equipamentos e a urgência da manutenção. Acontecida a desgraça, recebeu os quinze dias da empresa pelo acidente de trabalho e “tchau e gracias”, nenhuma ajuda nas mais de cem sessões de fisioterapia, o que o obrigou a entrar na Justiça para garantir seus direitos.

Conforme alegou a JBS, a culpa era única e exclusivamente sua: “cortaram meu salário e até o sacolão de alimentos. Um ano e meio aguardando sem que a empresa ajudasse em nada”. Como a firma economiza com o trabalhador, mas não com bons advogados, recebeu uma indenização de apenas R$ 26 mil pela incapacitação permanente. Atualmente recebe R$ 460,00 da Previdência como auxílio-doença, cerca de metade do valor do salário de um serrafita com a sua experiência, que começava às 5h30 e não tinha hora para acabar. Como acontece ainda hoje.

Adulterando o local do crime

“O fato é que quando o Ministério do Trabalho mandou um perito para averiguar a situação no local, eles já haviam mudado os equipamentos. Substituíram bem rapidinho por uns mais sofisticados. A serra elétrica, por exemplo, só funciona agora quando estamos segurando os botões com as duas mãos. Soltou um, ela já desliga automaticamente. Isso dá mais segurança, principalmente numa ação rápida, que corta um boi pela metade em menos de minuto”, explica Sérgio.

Vários operários ouvidos pela reportagem foram unânimes em denunciar que a JBS mascara as irregularidades praticadas em Campo Grande com uma equipe de ação rápida, principalmente em relação a condições de higiene, segurança e saúde. Assim que chega a fiscalização, “como o pátio é enorme e da portaria de entrada o fiscal sempre entra em contato com o departamento de Recursos Humanos (RH) e daí para a lavanderia”, trajeto que consome pelo menos uns 20 minutos, “fica fácil acomodar as coisas”. E da lavanderia são mais cinco minutos até a linha de produção. “Neste meio tempo entra em ação a ‘equipe estratégica’ para jatear o chão, fazer a limpeza rápida, diminuir a velocidade da nória, fazendo parecer que o ritmo de trabalho é outro e que tudo está nos padrões”.

Leonardo Wexell Severo, Brasil de Fato

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Comentários

  1. Lyndy Luca Postado em 11/Aug/2012 às 09:02

    Cada vez mais me enoja esse pútrido capitalismo selvagem, que devora a tudo e a todos em nome do lucro exclusivo! NUNCA MAIS HAVEREI DE COMPRAR UM ÚNICO OSSO COMERCIALIZADO POR ESSA MALDITA EMPRESA! FIXEM BEM ESSE NOME, PESSOAL: JBS FRIBOI! E O PIOR DE TUDO É QUE RECEBEM FORTUNAS DO DINHEIRO PÚBLICO! (Caps utilizadas com todo o respeito, com o intuito de ênfase).

  2. luis paulo Postado em 26/Aug/2012 às 20:46

    O QUE REALMENTE IMPRESSIONA É O DESCASO DAS "AUTORIDADES" NO ASSUNTO, OU SEJA, AQUELES QUE DEVERIAM AJUDAR NA MANUTENÇÃO DOS DIREITOS DO CIDADÃO E TRABALHADOR SÃO OS PRIMEIROS A SEREM COOPTADOS PELOS CORRUPTORES. A PROMOTORIA NESTES CASOS É COMPELTAMENTE INOPERANTE. O SISTEMA JUDICIÁRIO SÓ EXISTE PARA QUESTIONAR A LEGITIMIDADE DAS DENÚNCIAS FEITAS PELOS TRABALHADORES (PORQUE SÃO POBRES). OS ADVOGADOS APROVEITAM A OPORTUNIDADE NÃO PARA DEFENDER OS MAIS FRACOS, MAS PARA GANHAR ALGUM NA CAUSA. OS GOVERNANTES ELEITOS, BEM COMO OS CONGRESSISTAS SÓ FICAM PREOCUPADOS COM O PERCENTUAL DE VOTOS QUE PODE RENDER O ACONTECIMENTO PARA VER SE VALE A PENA INVESTIR, ENFIM, ESSE É O SISTEMA EM QUE VIVEMOS E QUE, DE UMA FORMA OU DE OUTRA JUSTIFICAMOS AO SIMPLESMENTE NOS OMITIRMOS DE DENUNCIAR OS PEQUENOS ACONTECIMENTOS DO COTIDIANO.

  3. Marcks Postado em 26/Apr/2013 às 14:32

    A realidade é que existe um controle Mundial de escravidão há milhares de anos desde época dos Egipcios (Pesquise sobre a verdadeira historia da humanidade que irão entender, não essa ciência/religião Facista fajuta ensinada culturalmente hereditariamente de pai para filho em nossa sociedade) que estão controlando, dominando, explorando e escravizando toda a humanidade. Você acha que temos algum Direito? Você acha que temos alguma liberdade? Você acha que esse sistema de ter que trabalhar 5 meses do ano só para pagar IMPOSTOS é direito de uma verdadeira democracia? Será que não somos cúmplices, omissos e coniventes com essa corrupção da alma?? Reflita e veja que a realidade não é ensinada nas escolas e igrejas, esse controle de escravidão mental existe há muito tempo não ser iluda e quem somos realmente? cidadãos do Bem que só fazem pagar impostos para sustentar a verdadeira ordem criminosa das Gangues? Todas as informações são manipuladas e condicionadas a achar que vivemos numa liberdade democrata, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk, abra os olhos.

  4. Maicira Trevisan Postado em 02/Jun/2013 às 11:28

    VEGANISMO JÁ E URGENTE. PELO BEM DE TODOS, ANIMAIS E HUMANOS. RESPEITANDO AS LEIS NATURAIS.

  5. Nicolle Postado em 27/Jun/2013 às 09:53

    Não podemos achar que esses casos são exceção. Esse tipo de comportamento com os funcionários (descaso, péssimas condições de trabalho, crueldade) São o padrão de todos os grandes abatedouros. Como empresas que exploram e escravizam milhões de animais por ano tratariam diferente seus funcionários humanos? É doloroso saber que mesmo assim muitos que tem consciência dessas situações continuam PAGANDO para que elas aconteçam, comprando os produtos feitos a partir da dor de centenas de humanos e milhões de animais.

  6. Adalberto Postado em 19/Oct/2013 às 11:24

    Essa Friboi não é do filho do Lula, ou melhor do Lula mesmo? Não estaria aí a explicação pra tantos recursos públicos?