Redação Pragmatismo
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Exploração Trabalhador 18/Oct/2011 às 18:56
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O desabafo emocionado e cortante de uma bancária

“No governo FHC passamos 8 anos sem aumento nenhum, e a inflação cresceu a cada ano. Nosso salário estagnou”

bancaria William bonner carlos henrique schroder
Em Nova York, William Bonner e Carlos Henrique Schroder. Digam vocês se ele, ou algum global, leu esta carta.

Carta à Direção Globo de Jornalismo

Sr. Carlos Henrique Schroder,

É com grande insatisfação que escrevo aqui em nome de quase 500 mil bancários existentes no Brasil.

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que estamos indignados com o tratamento que os telejornais da Central Globo de Jornalismo, subordinada a sua Direção Geral de Jornalismo e Esportes (DGJE), estão dando a nossa greve.

Todos os dias suas reportagens altamente parciais (sempre do lado dos banqueiros, o capital de vocês) mostram nossa greve prejudicando clientes, idosos, etc. O que vocês não mostram é o quanto nós somos prejudicados o ano inteiro.

Sr. Carlos Henrique Schroder, aos 16 anos, quando entrei para a faculdade de jornalismo, eu achava que poderia mudar o mundo.

Aos 20, quando acabei a faculdade, percebi que o mundo é que havia me mudado.

Decidi ser bancária, que por sinal é uma profissão muito digna, talvez até mais digna do que aquela profissão que me fez passar quatro anos na universidade.

Sr. Carlos, nós, bancários, trabalhamos feito robôs. Em minha agência somos 24 funcionários e temos que atender em média 500 clientes por dia, em seis horas de trabalho, sendo no máximo 15 minutos para atender cada cliente, o que matematicamente torna-se uma conta impossível.

Nesses 15 minutos que temos para atender os clientes, em vez de resolver os problemas deles, temos que oferecer produtos que eles não precisam. Temos que empurrar seguros de vida a universitários; temos que vender (com muita dor no coração) títulos de capitalização e colocar cheque especial na conta de idosos que só ganham um salário mínimo. Fazemos empréstimos com juros absurdos para aposentados do INSS que não sabem nem ler. Fazemos tudo isso porque somos obrigados pela instituição capitalista que paga nosso minguado salário.

Trabalhamos de seis a oito horas contratuais fazendo tudo o que podemos para garantir o lucro da nossa empresa, sem contar as horas extras e também as horas “bestas” (fora do ponto eletrônico).

Em quantos e quantos meses já perdemos boa parte do nosso salário para pagar diferenças de caixa provocadas por dias de pico onde não conseguimos nem almoçar? Isso sem contar que só temos 15 minutos para engolir a comida e escovar os dentes!!! Em quantos e quantos dias deixamos de beber um copo de água sequer, ou mesmo deixamos de ir ao banheiro para necessidades lógicas?

Sr. Carlos, o Banco em que eu trabalho (BB) teve um lucro de mais de 6 bilhões só no primeiro semestre deste ano. O Itaú lucrou mais de 7 bilhões e o Bradesco mais de cinco.

Sr. Carlos, todo esse dinheiro daria para construir dezenas de escolas e hospitais em toda parte do nosso país, e o Sr. Tem que concordar que o Brasil é muito carente nessas áreas.

Quantos milhões de reais os bancos não gastam todos os anos com publicidade e propaganda na sua emissora? O Bom Dia Brasil tem o oferecimento do Banco do Brasil, o Jornal Nacional é patrocinado pelo Bradesco, fora os outros telejornais e os comerciais dos outros bancos que sua emissora veicula todos os dias.

Sr. Carlos, os escriturários do BB recebem R$ 1.400,00 líquidos para sustentar suas famílias. Temos um bom plano de saúde, graças a Deus, e um auxílio alimentação que dá pra abastecer uma casa, mas o Sr. Tem que concordar comigo que R$ 1.400,00 não dá pra manter o padrão que os bancários precisam para trabalhar.

Temos que nos vestir bem e ter uma boa aparência, afinal trabalhamos nas empresas que mais dão lucro no Brasil e precisamos ter uma boa apresentação.

O que nos deixa mais indignados é que seus telejornais nos mostram como vilões da sociedade, exterminadores de benefícios de velhinhos, grevistas baderneiros, como se nós não quiséssemos trabalhar.

Sr. Carlos Henrique Schroder, nós não estamos de férias, nós estamos exercendo um direito constitucional que nos foi dado; passamos em concurso público e nos classificamos entre milhares de pessoas. Acho que merecemos ganhar um pouco mais pelo que passamos todos os dias, o Sr. não acha?

Nossa greve não é só por nós, é principalmente pelos clientes. Os bancos têm estrutura suficiente para contratar mais funcionários, tirando assim o peso da carga que carregamos, pois cada um de nós trabalha por cerca de 10 pessoas que não existem. Com mais funcionários, os clientes ficarão menos tempo nas filas intermináveis e terão uma qualidade de atendimento muito melhor.

O que queremos é que seus telejornais e jornalistas prezem aquilo que de mais importante eu aprendi na universidade: a verdade e a ética jornalística.

Não deixem o capital se sobrepor aos valores éticos e à verdade nua e crua. Mostrem o que realmente acontece, não escondam nenhum dos lados.

Não acho correto mostrar apenas o lado ruim da greve, pois com toda certeza do universo, Sr. Carlos, o lado negro dessa história não é a greve, não é mesmo! A greve é nossa única chance cobrar o que nos é direito.

O Sr. sabe que a economia do país teve uma inflação considerável e nosso aumento real seria de apenas 0,56%, o que é absurdamente injusto se compararmos com o lucro que nós, funcionários, proporcionamos aos bancos de 2010 para 2011.

No governo FHC passamos 8 anos sem aumento nenhum, e a inflação cresceu a cada ano. Nosso salário estagnou.

O salário mínimo cresceu mais de 400% de 2002 a 2011, enquanto nosso salário aumenta a passos miúdos. Se continuar neste ritmo, daqui a uns anos vai valer mais à pena ganhar um salário mínimo do que trabalhar em um Banco.

Bom, Sr. Carlos, acho que já falei demais. Eu não o conheço, mas sei que o Sr. tem um currículo que muito jornalista gostaria de ter e ocupa uma posição respeitável. Quero parabenizá-lo por isso. Sei também que minha indignação não vai resolver nada e sei que seus telejornais continuarão parciais por toda vida, pois isto é política da emissora e não há o que se fazer. Mas desabafei o que estava engasgado na garganta de milhares de bancários de todo o país.

Saiba que vendo o que se passa hoje na televisão brasileira, me orgulho de ter optado por sofrer um pouco sendo bancária do que ter um pouco mais de dinheiro e não dormir à noite sendo jornalista da emissora a qual o Sr. faz parte.

Grata pela atenção,

Teresa Roberta Soares – Bancária, cidadã brasileira e cliente de banco, que apóia a greve, em Sindicato dos Bancários de Divinópolis e Região

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Comentários

  1. GuiCaxias Postado em 18/Oct/2011 às 22:01

    Trabalhei por quase 20 anos no Banrisul e fiquei emocionada com esse depoimento, pois reflete exatamente aquilo que penso. Fiquei doente por causa de muitas das razões expostas no texto e minha vida virou um inferno.
    Parabéns pela iniciativa e esperemos que isso toque o coração não só das pessoas que trabalham na mídia, mas no coração dos banqueiros, uma vez que eles parecem não ter um.

  2. Analyana Postado em 18/Oct/2011 às 22:45

    Estou admirada, contente, satisfeitissima com o relato desta bancária que de fato é um cala a boca de muita gente que falou mal da greve dos bancários. Pena que mesmo com ela pouca coisa mudou e algumas pessoas desacreditam nesta fala.
    Eu também não acreditava que bancário tinha essa vida "trabalhamos feito robôs; só temos 15 minutos para engolir a comida ..." -SÉRIO, ISSO ACONTECE!
    Só agora pude conhecer, já que em junho comecei a estagiar em uma agência BB. Tem mesmo o limite de horario de atendimento,a demanda é grande demais pra pouco funcionário, clientes só podem passar no maximo 30 minutos na fila, eles tem mesmo pena de vender os produtos, mas a agência tem meta pra vencer e ser Ouro. Além disso imaginem o stress, o que é cliente reclamando, banco super lotado, de forma que há momentos que não tem nem onde sentar e o ar condicionado não da conta. É preciso fazer hora extra e as oras "Bestas" EXISTEM MESMO. Nossa, que dó do caixa quando isso acontece, porque eu acho que apesar da comissão pelo cargo, estes não tem tempo nem de ir ao banheiro, e qualquer 'errinho' lá se vai boa parte do salário ou toda sua comissão, já presenciei um caixa percebendo que perdeu R$ 800,00 do seu caixa, porque por um momento ele foi chamado atenção por outra demanda. É de da pena, no momento eu pensei, poderiamos fazer uma cotinha e todo mundo contribuia, afinal, isso pode acontecer com qualquer um naquela situação. Mas, cada um tem suas restrições. Com tudo isso, ainda se submetem a doenças mentais, cardiologicas, fisicas, assim como a LER que é habitual aos bancarios, causa de muitos afastamentos.
    Bem, com isso eu deixo meu total apoio a greve por melhores condições de trabalho e melhor salário, tendo em vista o tamanho lucro proveniente deste.

  3. anonimo Postado em 08/Mar/2014 às 22:11

    Trabalho na CEF e não pude deixar de pensar na situação dos colegas das novas Agências. A colega do BB acima relatou sobre as dificuldades que passa em uma Agência com 24 empregados. Pois bem, a Caixa está abrindo diversas unidades - em áreas carentes de atendimento bancário, aliás - com MENOS DE 10 FUNCIONARIOS!!!!!! Impossível não fazer "horas bestas" ou não deixar de almoçar. E ainda ouvimos por aí que reclamamos de barriga cheia, e que somos funcionários públicos com estabilidade, benefícios e bem remunerados...

  4. Lúcia Magalhães Fagundes Postado em 11/Mar/2016 às 01:42

    Trabalhei no Bradesco por 30 anos, vivi esta realidade, hoje tenho sérios problemas de saúde, me aposentei por tempo de trabalho, minha aposentadoria foi reduzida, culpa do governo do PSDB, o FHC pegou 40% do meu salário com seu fator previdenciário, tivemos tremendo arrocho salarial no governo do PSDB, vivemos dias terríveis. Acho que a colega do B.B. falou tudo o que eu gostaria de falar.