Luis Soares
Colunista
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Política 02/Oct/2011 às 13:20
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A assombrosa história de Olderico Barreto, homem que encarou o carrasco Fleury

“Isso é um bicho”, exclamou, espantado, um dos repressores quando costuravam a mão de Olderico Campos Barreto, sem anestesia, e ele não dava um gemido sequer…

Olderico (esq.) no local onde Lamarca e Zequinha foram mortos

Um pouco antes, um grupo de agentes da ditadura do Rio de Janeiro tinha assumido o interrogatório, tachando o pessoal de São Paulo de “bunda-mole” porque não conseguiam arrancar de Olderico a informação sobre onde Lamarca estava escondido. “Vamos ver se ele não fala”, disse um e meteu a boca da pistola no ouvido de Olderico. “Aperta o dedo”, desafiou – ou foi “aperta o gatilho?”, ele se pergunta ao contar o episódio 40 anos depois -, para o espanto dos torturadores, assombrados com tamanho destemor. E um deles soltou o “elogio”: “Isso é um bicho!” 

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Era o dia 28 de agosto de 1971. Olderico, então com 23 anos, tinha sido ferido no ataque do grupo comandado pelo temido delegado Sérgio Paranhos Fleury – chefe de torturadores e de grupo de extermínio da polícia paulista – à casa do seu pai, o velho José Barreto, em Buriti Cristalino, povoado do município de Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina, a cerca de 600 quilômetros de Salvador. Fleury estava à procura do capitão do Exército que virou guerrilheiro, Carlos Lamarca, que estava escondido no mato, a pouca distância do povoado, em companhia do seu irmão mais velho Zequinha (José Campos Barreto), então companheiro de militância no MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro, antes eles militaram na VPR – Vanguarda Popular Revolucionária) e que se tornara também inimigo da ditadura ao liderar, em 1968, a famosa greve dos metalúrgicos de Osasco, em São Paulo.

Lamarca e Zequinha ouviram a fuzilaria no povoado, na casa do velho José Barreto, e fugiram tentando escapar do cerco. Pelo mato, a pé, fragilizados pela desnutrição, isolados dos moradores levados a vê-los como terroristas, foram mortos poucos dias depois, no dia 17 de setembro, após uma marcha heróica por aquela inóspita região do semi-árido. Já sem condições de oferecer resistência, foram metralhados por um comando do Exército, sob a chefia do então major Nilton Cerqueira, nas proximidades de Pintada, povoado do município de Ipupiara, pertinho do limite com Brotas de Macaúbas. Estes episódios estão no livro “Lamarca, o capitão da guerrilha”, de Emiliano José e Oldack Miranda, que virou filme dirigido por Sérgio Rezende, e no documentário “Do Buriti à Pintada – Lamarca e Zequinha na Bahia”, de Reizinho Pereira dos Santos.
Relatou repetidas vezes, com paciência de missionário, estes assombrosos acontecimentos
Olderico, agora com 63 anos, é a principal testemunha da tenebrosa violência que se abateu sobre a família do patriarca José Barreto, então com 65 anos, que sobreviveu a terríveis torturas. Veio a morrer em 1995. Durante o ataque à sua casa morreram outro dos seus filhos, Otoniel (esboçou uma temerária reação, seguida da tentativa desesperada de fuga, ao ouvir os gritos do pai sob tortura), e o militante Luiz Antônio Santa Bárbara, companheiro de Lamarca e Zequinha, que estava morando em sua casa.
Ao amanhecer do dia 28 de agosto de 1971, Olderico estava no centro do furacão. Por um momento no desigual tiroteio, se viu frente a frente com Fleury, mas teve a sorte de, ferido na mão e no rosto, tombar para dentro de um dos cômodos da casa e sair da linha de fogo. Ele conta tentando entender aqueles momentos de extrema aflição: os truculentos agentes de Fleury chutavam e pisavam na sua mão direita, ferida à bala, e até hoje deformada.
Nos atos públicos e celebrações dos últimos dias 17 e 18, realizados em Brotas de Macaúbas, Buriti e Pintada, para marcar os 40 anos do assassinato de Lamarca e Zequinha, Olderico relatou repetidas vezes às dezenas de visitantes, aos repórteres, fotógrafos e documentaristas, com paciência de missionário, estes assombrosos acontecimentos, já bem conhecidos nos contornos gerais, mas mesmo assim com lances emocionantes, especialmente quando relatados por um tal protagonista. (Depois da prisão e uma temporada em São Paulo, ele decidiu retornar à sua terra pensando em fazer alguma coisa em benefício dos seus conterrâneos. Atualmente é gerente da Cooperativa Agro-mineral Sem Fronteiras Ltda (CASEF) – Brotas se destaca na produção de cristais de quartzo – e um cidadão participante da vida social e política da região, como se pode ver no decorrer deste relato).
Guiados por suas indicações, sua memória e seu entendimento, e entretidos pela atração dos detalhes, vimos o local onde os dois patriotas tombaram, perto de Pintada – o destemido Zequinha ainda com forças para correr e gritar “viva a revolução” e o capitão guerrilheiro já, de fato, tombado, deitado no chão, as forças já quase completamente exauridas. Vimos onde os dois corpos foram quebrados para serem conduzidos pendurados em paus, como carne e ossos de animais, nos ombros dos repressores, e onde foram estendidos em forma “de valete” – cabeça de um com pés do outro – e expostos à execração pública.
Visitamos a então casa da família Barreto em Buriti – o imóvel está em reforma, foi doado ao Instituto Zequinha Barreto para virar um centro de memória. Vimos o quarto onde foi colocado, ferido, junto aos corpos do irmão Otoniel e de Santa Bárbara, Olderico fala do sangue dos três escorrendo; vimos a porta de outro quarto, já nos fundos, por onde ele caiu depois de atingido pelas balas, ficando fora da linha de fogo; o quintal de onde partia a cerrada fuzilaria; a marca de uma bala no batente de uma janela. Fala horrores dos agentes da ditadura comandados por Fleury, mas, ao mesmo tempo, menciona com reverência o Exército brasileiro, assinalando que Zequinha serviu nas Forças Armadas.
“Não é possível que esses homens não tenham direito à terra e ao trabalho”
Ele nos mostrou a rota da tentativa de fuga do irmão Otoniel e o ponto onde finalmente tombou, a uma centena de metros do quintal da casa. Reproduzo de memória o sentido de suas palavras: “Aqui, junto desta cerca de arame, ficou o corpo de Otoniel, desde cedinho quando ocorreu o ataque. Já eram umas 10 horas e as aves de rapina começaram a bicar o corpo. Zé de Virgílio (José Pereira de Oliveira, muito amigo de seu pai) viu que estavam comendo o olho de meu irmão e não aguentou ver aquilo. Cobriu o corpo com um couro de boi e foi pedir aos homens da repressão para evitar tamanha desumanidade”. Lembra sempre da necessidade de resgatar a memória e a verdade do difícil período da ditadura, enfatizando essa coisa terrível de serem tachados de terroristas os que lutavam contra o regime militar, o terrorismo de Estado. Contou até uma passagem engraçada: uma vez ele foi convidado por um amigo para um almoço em sua casa e, ao chegar, o amigo o apresentou à esposa, anunciando se tratar do “maior terrorista do Brasil” (o amigo desconhecia o sentido pejorativo do termo, parecendo achar que “terrorista” era uma espécie de elogio). Deu seu testemunho durante a missa celebrada em louvor aos mártires, no coreto de Buriti, convidado pelo principal celebrante, Dom Frei Luiz Cappio, bispo da Diocese de Barra. Ressaltou mais uma vez a luta do irmão Zequinha e a bela pessoa humana que era o capitão Lamarca e aproveitou para pedir, como sempre faz nas mais variadas oportunidades – dirigindo-se desta vez diretamente ao prefeito de Brotas, Litercílio Júnior, do PT, que estava presente –, melhorias para seu querido povo de Buriti Cristalino. 

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No  ato público do dia 17, manhã de sábado, na praça central de Brotas de Macaúbas, Olderico foi chamado a discursar entre as diversas autoridades e políticos que participaram dos eventos em defesa da memória e da verdade. Falou novamente da importância de se resgatar a verdadeira história, lembrou as privações de Lamarca no seu precário esconderijo no mato, a sua vontade impossível de manter contato com os camponeses, da vontade impossível de trabalhar fazendo farinha com os moradores da região, falou da seca, da fome, do rádio através do qual o capitão escutava as notícias dos lutadores brasileiros nas emissoras da China, da União Soviética e da Albânia. E, mais uma vez, deu seu recado em favor dos conterrâneos “para os companheiros do governo que estão aqui”. Pediu a construção de estrada e outros melhoramentos para os mineiros. Bradou no seu jeito humanitário: “Não é possível que esses homens não tenham direito à terra e ao trabalho”. 
“…jamais voltarão esses grupos que assassinam pessoas, que assassinam seus adversários”
Transcrevo agora o breve discurso de Olderico, também na praça principal de Brotas, na noite de 29 de julho deste ano, logo depois de assistir ao lançamento nacional do documentário “Do Buriti à Pintada”, contendo depoimentos de militantes políticos daquela época, moradores e familiares seus, incluindo o pai José Barreto
Em nome da família Barreto, em nome da minha família, eu queria agradecer a Reizinho e toda a equipe do filme na pessoa de Reizinho, pelos momentos que nos propiciou e agradecer também por ter escolhido a praça de Brotas de Macaúbas para lançar o filme. Normalmente as coisas ocorrem no eixo Rio/São Paulo e a gente só fica sabendo depois. Então, queremos agradecer este privilégio e agradecer a todos que contribuíram com o filme e a todos que estão aqui. Queria dizer a vocês sobre o impacto que vi agora, me ocorreram as mais diferentes sensações… o choro, arrepio, tudo… a emoção de ver e rever pessoas como o meu pai, o resgate que foi um trabalho perfeito. Agradecemos a (Litercílio) Júnior, o prefeito, que facilitou como administrador do município todos os dados para esta comissão, esta equipe que produziu esse trabalho. Isso é democracia, e nós acreditamos nela e acreditamos que o mundo será um dia sempre melhor e jamais voltarão esses grupos que assassinam pessoas, que assassinam seus adversários. Vamos trabalhar por um mundo melhor. Obrigado”. Como comentou um amigo que conheci na viagem a Brotas de Macaúbas, Antônio dos Santos Pinho, professor de História em Salvador, “Olderico fala com alma”.

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Jadson Oliveira – Fazendo Media

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