Luis Soares
Colunista
Compartilhar
Política 26/May/2011 às 03:03
0
Comentários

Código Florestal: destruição aprovada. Que fazer?

Acabar com a floresta é acabar com a luta e, aliás, acabar com tudo
Vivemos umeterno retorno quando se trata da proteção aos latifundiários e grandesempresas internacionais. No Brasil contemporâneo, pós-ditadura, nunca houve umgoverno sequer que buscasse, de verdade, uma outra práxis no campo. Todos osdias, nas correntes ideológicas do poder, disseminadas pela mídia comercial –capaz de atingir quase todo o país via televisão – podemos ver, fragmentadas,as notícias sobre a feroz e desigual queda de braço entre os destruidorescapitalistas e as gentes que querem garantir vida boa e plena aos que hojeestão oprimidos e explorados.
Nestes diasde debate sobre o novo Código Florestal, então, foi um festival. As bocasalugadas falavam da votação e dos que são contra o código como se fossempessoas completamente desequilibradas, que buscam impedir o progresso e odesenvolvimento do país. Não contentes com todo o apoio que recebem da usinaideológica midiática, os latifundiários e os capatazes das grandestransnacionais que já dominam boa parte das terras brasileiras, ainda se dão aoluxo de usar velhos expedientes, como o frio assassinato, para fazer valeraquilo que consideram como seu direito: destruir tudo para auferir lucrosprivados.
Assim, nosexatos dias de votação do novo código, jagunços fuzilam Zé Claudio (ver aqui), conhecidodefensor da floresta amazônica. Matam ele e a mulher, porque os doisincomodavam demais com esse papo verde de preservar as árvores. Discursos tolo,dizem, de quem emperra a distribuição da riqueza, deles próprios, é claro. E oassassinato acontece, sem pejo, no mesmo dia em que os deputados discutem comofazer valer – para eles – os seus 30 dinheiros sujos de sangue.
Imagensdiferentes, mas igualmente desoladoras. De um lado, a floresta devastada e asvidas ceifadas à bala, do outro a tal da “casa do povo”, repleta de gente querepresenta, no mais das vezes, os interesses escusos de quem lhes enche obolso. Pátria? País? Desenvolvimento? Progresso? Bobagem! A máxima que impera édo conhecido personagem de Chico Anísio, o deputado Justo Veríssimo: eu quero éme arrumar!
No projetoconstruído pelo agronegócio só o que se contempla é o lucro dos donos dasterras, dos grileiros, dos latifundiários. Menos mata preservada, legalizaçãoda destruição, perdão de todas as dívidas e multas dos grandes fazendeiros.Assim é bom falar de progresso. Progresso de quem, cara pálida? Ao mesmo tempo,os “empresários” do campo, incapazes de mostrar a cara, lotam as galerias com amassa de manobra. Pequenos produtores que acreditam estar defendendo o seuprogresso. De que lhes valerá alguns metros a mais de terra na beira de um riose na primeira grande chuva, o rio, sem a proteção da mata ciliar, transborda edestrói tudo? Que lógica tacanha é essa que impede de ver que o homem não estádescolado da natureza, que o homem é natureza.
Que tamanhadescarga de ideologia os graúdos conseguem produzir que leva os pequenosprodutores a pensar que é possível dominar a natureza, como se ao fazer issonão estivessem colocando grilhões em si mesmo? Desde há muito tempo – e gentecomo Chico Mendes, irmã Doroty e Zé Claudio já sabia – que o ser humano sóconsegue seguir em frente nesta terra se fizer pactos com as outras forças danatureza. E que nestes pactos há que se respeitar o que estas forças precisamsob pena de ele mesmo (o humano) sucumbir.
O novocódigo florestal foi negociado dentro das formas mais rasteiras da política.Por ali, na grande casa de Brasília, muito pouca gente estava interessada emmeio ambiente, floresta, árvore, rio, pátria, desenvolvimento. O negócio eraconseguir cargo, verba, poder. Que se danem no inferno pessoas como Zé Cláudio,que ficam por aí a atrapalhar as negociatas. Para os que ali estavam noplenário da Câmara gente como o Zé e sua esposa Maria não existem. Sãoabsolutamente invisíveis e desnecessárias. Haverão de descobrir seusassassinos, talvez prendê-los por algum tempo, mas, nas internas comemorarão:menos um, menos um.
Assim, por410 x 63, venceram os destruidores. Poderão desmatar a vontade num tempo em queo planeta inteiro clama por cuidado. Furacões, tsunamis, alagamentos, mortes.Quem se importa? Eles estarão protegidos nas mansões. Não moram em beiras derio. Dos 16 deputados federais de Santa Catarina apenas Pedro Uczai votou não.Até a deputada Luci Choinacki, de origem camponesa votou sim, contrariando tudoo que sempre defendeu.
Então, namesma hora em que a floresta chorava por dois de seus filhos abatidos a tiros,os deputados celebravam aos gritos uma “vitória” sobre o governo e sobre osecologistas. Daqui a alguns dias se verá o tipo de vitória que foi. Mas, estes,não se importarão. Não até que lhes toque uma desgraça qualquer.
O caciqueSeatlle, da etnia Suquamish, já compreendera, em 1855, o quanto o capitalismonascente era incapaz de viver sem matar: “Sabemos que o homem branco nãocompreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro.Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quantonecessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la, elevai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra deseus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Suaganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são umtormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homemvermelho um selvagem que nada compreende”.
Zé Claudio eMaria eram assim, vistos como “selvagens que nada compreendem”. Mas, bem cedose verá que não. Eles eram os profetas. Os que conseguiam ver para além daganância. Os que conseguiam estabelecer uma relação amorosa com a terra e comas forças da natureza. Eles caíram à bala. E os deputados vende-pátria, quandocairão?
Já os quegritam e clamam por justiça, não precisam esmorecer. Perdeu-se uma batalha. Aluta vai continuar. Pois, se sabe: quem luta também faz a lei. Mas a luta nãopode ser apenas o grito impotente. Tem de haver ação, organização, informação,rebelião. Não só na proteção do verde, mas na destruição definitiva destesistema capitalista dependente, que superexplora o trabalho e a terra. Échegada a hora de uma nova forma de organizar a vida. Mas ela só virá se asgentes voltarem a trabalhar em cada vereda deste país, denunciando o que nosmata e anunciando a boa nova.
Elaine Tavares

Comentários