Luis Soares
Colunista
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Política 26/Nov/2010 às 13:47
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Violência no Rio: a farsa e a geopolítica do crime

Nós que sabemos que o “inimigo é outro”, na expressão padilhesca, não podemos acreditar na farsa que a mídia e a estrutura de poder dominante no Rio querem nos empurrar.
Achar que as várias operações criminosas que vem se abatendo sobre a Região Metropolitana nos últimos dias, fazem parte de uma guerra entre o bem, representado pelas forças publicas de segurança, e o mal, personificado pelos traficantes, é ignorar que nem mesmo a ficção do Tropa de Elite 2 consegue sustentar tal versão.
O processo de reconfiguração da geopolítica do crime no Rio de Janeiro vem ocorrendo nos últimos 5 anos.
De um lado Milícias, aliadas a uma das facções criminosas, do outro a facção criminosa que agora reage à perda da hegemonia.
Exemplifico. Em Vigário Geral a polícia sempre atuou matando membros de uma facção criminosa e, assim, favorecendo a invasão da facção rival de Parada de Lucas. Há 4 anos, o mesmo processo se deu. Unificadas, as duas favelas se pacificaram pela ausência de disputas. Posteriormente, o líder da facção hegemônica foi assassinado pela Milícia. Hoje, a Milícia aluga as duas favelas para a facção criminosa hegemônica.
Processos semelhantes a estes foram ocorrendo em várias favelas. Sabemos que as milícias não interromperam o tráfico de drogas, apenas o incluíram na listas dos seus negócios juntamente com gato net, transporte clandestino, distribuição de terras, venda de bujões de gás, venda de voto e venda de “segurança”.
Sabemos igualmente que as UPPs não terminaram com o tráfico e sim com os conflitos. O tráfico passa a ser operado por outros grupos: milicianos, facção hegemônica ou mesmo a facção que agora tenta impedir sua derrocada, dependendo dos acordos.
Estes acordos passam por miríades de variáveis: grupos políticos hegemônicos na comunidade, acordos com associações de moradores, voto, montante de dinheiro destinado ao aparado que ocupa militarmente, etc.
Assim, ao invés de imitarmos a população estadunidense que deu apoio às tropas que invadiram o Iraque contra o inimigo Sadan Husein, e depois, viu a farsa da inexistência de nenhum dos motivos que levaram Bush a fazer tal atrocidade, devemos nos perguntar: qual é a verdadeira guerra que está ocorrendo?
Ela é simplesmente uma guerra pela hegemonia no cenário geopolítico do crime na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
As ações ocorrem no eixo ferroviário Central do Brasil e Leopoldina, expressão da compressão de uma das facções criminosas para fora da Zona Sul, que vem sendo saneada, ao menos na imagem, para as Olimpíadas.
Justificar massacres, como o de 2007, nas vésperas dos Jogos Pan Americanos, no complexo do Alemão, no qual ficou comprovada, pelo laudo da equipe da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, a existência de várias execuções sumárias é apenas uma cortina de fumaça que nos faz sustentar uma guerra ao terror em nome de um terror maior ainda, porque oculto e hegemônico.
Ônibus e carros queimados, com pouquíssimas vítimas, são expressões simbólicas do desagrado da facção que perde sua hegemonia buscando um novo acordo, que permita sua sobrevivência, afinal, eles não querem destruir a relação com o mercado que o sustenta.
A farsa da operação de guerra e seus inevitáveis mortos, muitos dos quais sem qualquer envolvimento com os blocos que disputam a hegemonia do crime no tabuleiro geopolítico do Grande Rio, serve apenas para nos fazer acreditar que ausência de conflitos é igual à paz e ausência de crime, sem perceber que a hegemonização do crime pela aliança de grupos criminosos, muitos diretamente envolvidos com o aparato policial, como a CPI das Milícias provou, perpetua nossa eterna desgraça: a de acreditar que o mal são os outros.
Deixamos de fazer assim as velhas e relevantes perguntas: qual é a atual política de segurança do Rio de Janeiro que convive com milicianos, facções criminosas hegemônicas e área pacificadas que permanecem operando o crime? Quem são os nomes por trás de toda esta cortina de fumaça, que faturam alto com bilhões gerados pelo tráfico, roubo, outras formas de crime, controles milicianos de áreas, venda de votos e pacificações para as Olimpíadas? Quem está por trás da produção midiática, suportando as tropas da execução sumária de pobres em favelas distantes da Zona Sul? Até quando seremos tratados como estadunidenses suportando a tropa do bem na farsa de uma guerra, na qual já estamos há tanto tempo, que nos esquecemos que sua única finalidade é a hegemonia do mercado do crime no Rio de Janeiro?
Mas não se preocupem, quando restar o Iraque arrasado sempre surgirá o mercado financeiro, as empreiteiras e os grupos imobiliários a vender condomínios seguros nos Portos Maravilha da cidade.
Sempre sobrará a massa arrebanhada pela lógica da guerra ao terror, reduzida a baixos níveis de escolaridade e de renda que, somadas à classe média em desespero, elegerão seus algozes e o aplaudirão no desfile de 7 de setembro, quando o caveirão e o Bope passarem.
José Cláudio Souza Alves é sociólogo e autor do livro Dos Barões ao Extermínio: Uma História da Violência na Baixada Fluminense.

Comentários

  1. José Marcio Tavares Postado em 26/Nov/2010 às 14:09

    Durante mais de 30 anos a criminalidade teve a complacência do poder público no Rio de Janeiro. O atual governo pode não ser aquele dos nossos sonhos mas está operando SIM uma política de segurança pública que, até o momento, vem dando certo.
    Não é verade que as últimas ações das polícias tenham sido com o intuito de massacrar a população mais pobre. E é isso que seu post tenta insinuar.
    A discordância é válida, mas eu vejo um certo viés político-eleitoral nas suas colocações.

  2. Jonathan Postado em 26/Nov/2010 às 15:47

    De fato todos tem interesses e a população fica, muitas vezes, como fantoches no meio de tanta (des)informação, mas o seu discurso é o tipo de discurso que só planta a dúvida e não sugere alternativas. Todos sabemos que o ideal era o investimento em educação, saúde, segurança.. a presença do estado nesses locais e tudo mais, mas infelizmente essa é uma opção de longo prazo que não traz resultados imediatos e geralmente ignorada pelos governos. Prefiro acreditar que as upps trazem mais benefícios que malefícios, penso que a partir dessa "pacificação" seja possível a entrada do estado nessas comunidades, com educação, saúde e segurança e que andar com fuzil na mão no meio das pessoas seja coisa do passado.

  3. Luis Soares Postado em 26/Nov/2010 às 20:22

    Só acho curioso o fato de a imprensa repetir à exaustão que a responsabilidade pela instabilidade no Rio de Janeiro se deve às implementações das UPP's. Até agora, as UPPs estão presentes em 13 favelas, de um universo de mais ou menos 1.000 existentes no Rio e região metropolitana.

    Por fim, acho que a UPP é o começo. Um começo necessário. E, cá entre nós, todo mundo está cansado de saber do que precisamos a médio-longo prazo. Policiamento de fronteira, redução da desigualdade, aumentar oportunidade para o morador de favela, etc.

  4. João Marcelo Postado em 27/Nov/2010 às 15:22

    Muito interessante, será que estou ficando louco ou as pessoas que reclamaram a vida toda a presença do Estado nas comunidades desassistidas é que ficaram? Quando pela primeira vez se tem a coragem de enfrentar o problema de frente, aparecem os discursos da utopia, pessoas que nunca viveram submetidas aos mandos e desmandos de marginais, querendo falar pela boca dos que vivem em tal situação, parecem descobridores da roda, apontando falhas do sistema, como se fossem os únicos olhos a enxergar na face da terra, ora, vamos parar com as criticas pelo prazer de criticar, vamos elogiar os avanços e cobrar que se avance mais, essa é a função de um crítico. Tem sim que se combater os marginais do morro, rastabelecer a ordem e depois ir atrás dos facilitadores, dos financiadores e dos grandes beneficiários do crime, que todos sabem que não mora nos morros ou favelas.

  5. jurandyr Postado em 14/Aug/2014 às 12:13

    Acho que o problema UPPs x FAVELAs x milícia, se deve à falta de ressocialização em geral. Se cololocarmos a polícia em xeque, veremos como a polícia tem dificuldades internas que produzem uma série de problemas para os policiais que necessitam do seu trabalho para crescer socialmente. A favela como uma todo, ainda se sente desasistida pelo Estado, que coloca recursos parcos para exercer sua abrangência. Inclusive de assistencia social e cidadania. Os milicianos, que por sua vez, ocupam uma parte de um poder do Estado, viciando-o a seu bel-prazer , sendo aceita com benevolência pelo governante que é omisso com tal prática de crime. Temos nisso tudo, um belo filme como "tropa de elite", onde todos se passam como heróis e tudo acabando com uma bela pizza que a população é obrigada a degustar.