A psicopolítica vai à guerra
Enquanto mísseis caíam em 24 províncias iranianas, Trump gravou um vídeo no Truth Social e se dirigiu ao povo iraniano. Não é só guerra. É a psicopolítica em escala de Estado.

Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político
Em 28 de fevereiro de 2026, às 2h30, Donald Trump postou um vídeo no Truth Social. Oito minutos. Boné branco com “USA”, púlpito, bandeira americana atrás — em Mar-a-Lago, presumivelmente. Enquanto gravava, mísseis caíam em 24 províncias iranianas.
O vídeo não passou por porta-voz nem canal diplomático. Não foi transmitido pela CBS, NBC ou CNN. Foi direto ao celular de quem quisesse assistir. A fala de Trump tinha um destinatário declarado que ninguém esperava: o povo iraniano.
“Quando terminarmos, assuma o controle do seu governo. Ele será seu para tomar. Esta será, provavelmente, a única chance de uma geração.”
Bombas caindo. Vídeo no ar. Os dois ao mesmo tempo.
Trump não escolheu a televisão. Nunca escolhe. Ele é o canal.
Esse gesto tem chão.
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Os Estados Unidos controlam cerca de 800 bases militares em mais de 80 países — a maior rede desse tipo na história. Não são escritórios consulares. São infraestrutura de guerra: logística, armamento, projeção de força. E a lógica disso é perversa: não são as guerras que explicam as bases. São as bases que explicam as guerras! A infraestrutura precede o conflito — e o torna possível.
No entorno do Irã essa arquitetura é bastante densa. Bahrein, Qatar, Kuwait, Emirados… abrigam bases americanas a poucos minutos de voo de Teerã. Quando Trump dirige sua fala ao povo iraniano, ele fala de dentro dessa estrutura. A palavra tem peso porque os mísseis já estão no ar. E tem mais uma camada, menos visível e talvez por isso mais eficiente. As plataformas digitais americanas não são neutras. Elas estão articuladas com o sistema de inteligência e segurança dos Estados Unidos. No arranjo atual, não é exagero apontar que comunicação e dominação são a mesmíssima coisa, com nomes diferentes. De dentro de uma plataforma que ele controla, Trump fala para um povo cujas comunicações foram cortadas pelos ataques. Ele transmite. Eles não respondem.
Mas há algo que as bases e as plataformas não explicam sozinhas. Por que o apelo ao povo e não o ultimato diplomático? Por que a rede social, às 2h30, num registro quase íntimo?
Porque a guerra tem dois teatros simultâneos, nesse caso.
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Byung-Chul Han chamou de psicopolítica o poder que age não sobre o corpo, mas sobre o desejo, o medo, a esperança. Não proíbe. Seduz. Quando existe, a ameaça vem disfarçada de engajamento. E opera melhor quando o sujeito acredita estar reagindo livremente. Para Han, o smartphone é como a jaula que o sujeito carrega no bolso — e entra nela por vontade própria. Trump não precisou ler Han para operar nessa lógica (se é que leria). O discurso psicopolítico — conceito que proponho aqui — não depende da consciência de quem o produz, mas da estrutura. E a estrutura estava toda ali: destinatário fragilizado, canais controlados, emoções como vetor, a esperança como isca.
O siciliano Górgias sabia disso antes de Aristóteles ajeitar e sistematizar qualquer coisa. No Elogio de Helena, escrito no final do século V a.C., Górgias deixou uma formulação que nenhuma teoria da comunicação superou: a palavra é um fármaco. Age sobre a psique antes que a razão se dê conta de que precisa entrar em cena. Pode curar. Pode envenenar. O falante que sabe disso não convence. Intervém.
Desde Górgias, o mecanismo permanece. O que mudou foi a escala e a infraestrutura.
Visionário, em 1979 Jean-François Lyotard já havia percebido que na era da informação computadorizada o poder seria de quem controlasse os dados. Não o poder das armas. O poder de definir o que é real, o que é legítimo e o que merece ser visto.
Quarenta e sete anos depois, essa profecia parece muito bem endereçada: 800 bases, plataformas articuladas à inteligência, e um presidente que se dirige ao povo iraniano pelo celular enquanto os mísseis caem. O discurso psicopolítico não substitui a guerra. Ele a acompanha. Às vezes a precede. Não é propaganda no sentido clássico, que pressupõe um receptor passivo sendo bombardeado de mensagens. É outra coisa: uma operação sobre o estado emocional de uma população inteira, conduzida no mesmo momento em que sua infraestrutura física é destruída. Enquanto os mísseis eliminam a capacidade de resistência material, o vídeo trabalha a capacidade de resistência psíquica.
No artigo anterior, escrevi sobre a privatização do inconsciente — como as plataformas digitais transformaram o desejo em infraestrutura de extração de valor, fabricando uma arquitetura da indignação.
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O que aconteceu em 28 de fevereiro é o desdobramento natural dessa lógica: quando essa infraestrutura é militarizada, quando o mesmo mecanismo que vende tênis e amplifica indignação política é posto a serviço de uma operação de guerra, chegamos a um território que ainda não temos nome adequado para descrever. Proponho aqui um, provisório: a militarização da psicopolítica.
Não se trata de figura de linguagem. É a tentativa de descrição de um processo em curso — documentado, verificável, e por isso mesmo mais perturbador do que qualquer teoria da conspiração.
O que vimos em 28 de fevereiro foi a convergência de camadas que construímos ao longo de décadas sem perceber para onde apontavam: bases militares, plataformas digitais articuladas à inteligência, e um mecanismo de captura emocional que aprendeu a operar antes que a razão entre em cena. Tudo isso num único gesto: um vídeo de oito minutos, de boné de baseball, numa rede social, às 2h30 — trombetas anunciando bombas e fabricando consentimento ao mesmo tempo. Em 28 de fevereiro, enquanto crianças morriam sob os escombros de uma escola primária no sul do Irã, o vídeo continuava circulando.
Para quem quiser ir um pouco mais fundo, vale a leitura: David Vine, The United States of War (2020); Henry Farrell e Abraham Newman, Underground Empire (2023); Byung-Chul Han, Psicopolítica (2014); Jean-François Lyotard, A Condição Pós-Moderna (1979).
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*Lucio Massafferri Salles é Psicólogo/Psicanalista, Jornalista, Professor Adjunto do Departamento de Psicologia da UCAM e Professor da Rede Pública de Ensino/RJ. Doutor e Mestre em Filosofia pela UFRJ, Especialista em Psicanálise pela USU, realizou seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. É o criador e responsável pelo canal Portal Fio do Tempo, no YouTube.
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