Família de adolescente que matou cão Orelha reclama de represálias: "Passaram fezes no interfone da nossa casa"
Família de um dos adolescentes que matou o cãozinho comunitário Orelha está reclamando de represálias. Foram até a delegacia denunciar que dois jovens "passaram fezes" no interfone da sua residência. Diante da situação, os advogados da família ingressaram com pedido para que um processo judicial envolvendo o núcleo familiar fosse colocado em segredo de Justiça

por Felipe Borges
A morte do cão comunitário Orelha, em Florianópolis, segue produzindo desdobramentos que vão além da investigação criminal e expõem o ambiente de tensão criado pela repercussão do caso. Nesta semana, a família de um dos adolescentes suspeitos de envolvimento no crime registrou um boletim de ocorrência após a residência onde mora ser alvo de um ato de vandalismo durante a madrugada, no bairro Itaguaçu, na região continental da capital catarinense.
De acordo com o registro policial e documentos encaminhados à Justiça, por volta das 3h do dia 25 de janeiro, dois rapazes foram até o imóvel e praticaram atos classificados como “perturbação do trabalho ou do sossego alheios”. Segundo o relato, os autores defecaram em frente à casa e espalharam fezes no interfone da residência. Antes da ação, teriam tocado o interfone repetidas vezes.
O sistema de segurança do imóvel registrou imagens dos suspeitos, que foram anexadas ao boletim de ocorrência. Os vídeos mostram dois jovens em frente ao portão da casa, em horários compatíveis com os descritos no registro policial. A família afirma que o endereço passou a circular em publicações nas redes sociais após a ampla divulgação do caso Orelha, o que teria contribuído diretamente para o episódio.
Diante da situação, os advogados ingressaram com pedido de segredo de Justiça em um processo que envolve o núcleo familiar. No documento, a defesa sustenta que o adolescente citado é suspeito de participação na morte do cão comunitário e que, desde que o caso ganhou visibilidade, a família passou a receber ameaças, inclusive de morte. O pedido se apoia em dispositivos da Constituição Federal e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), com o argumento de que a exposição coloca em risco a integridade física e psicológica do menor e de seus familiares.
Enquanto isso, o caso que motivou a comoção pública continua sob investigação. Orelha era conhecido na região como cão comunitário, cuidado por moradores e comerciantes, e sua morte provocou protestos, manifestações virtuais e cobranças por responsabilização. A Polícia Civil já confirmou que os adolescentes suspeitos foram identificados e ouvidos, e que o procedimento tramita conforme previsto na legislação, sob sigilo, por envolver menores de idade.
Entidades de proteção animal e moradores têm pressionado por medidas mais firmes contra a violência a animais e pela ampliação de políticas públicas de proteção, destacando que a brutalidade do caso não pode ser tratada como episódio isolado. Ao mesmo tempo, autoridades têm reforçado que eventuais crimes ou atos de intimidação praticados em reação ao ocorrido também serão apurados.
O caso Orelha, que começou como mais um episódio de violência contra um animal indefeso, agora escancara um cenário mais amplo: o da indignação social legítima convivendo com riscos reais de justiçamento, exposição ilegal e escalada de conflitos, enquanto o sistema de Justiça segue seu ritmo próprio, limitado pela lei e pelo dever de proteção aos envolvidos.



