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Pressão externa do mar superou a de dentro do submarino e todos morreram, diz Guarda Costeira dos EUA

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Após encontrar destroços, Guarda Costeira dos EUA fala em "implosão catastrófica" e confirma mortes de todos os tripulantes do submarino Titan. Diretor James Cameron se disse "chocado com a semelhança" com o desastre do Titanic: "Eu mesmo desenhei e construí um submersível para ir a um local três vezes mais profundo [...] o que eles estavam fazendo era muito experimental e foram alertados várias vezes"

Buscas pelo Titan foram feitas com submersíveis não tripulados

A Guarda Costeira dos Estados Unidos informou, nesta quinta-feira 22, ter encontrado destroços nas áreas de busca pelo submersível Titan, desaparecido há três dias enquanto fazia uma expedição rumo à carcaça do Titanic.

Horas depois, em coletiva, o comandante John Mauger confirmou que os destroços são “consistentes com uma perda catastrófica da câmara de pressão”. As famílias foram notificadas pela Guarda Costeira.

Nesta manhã, mais dois robôs foram lançados por um navio canadense e chegaram até a profundeza máxima, a 4 mil metros da superfície, para periciar os 20 mil metros quadrados da área de busca.

“Inicialmente, vimos algo que parecia ser a parte externa da cabine de pressão e encontramos a área frontal e traseira da câmara. Foi o primeiro indicativo de que teria havido um evento catastrófico. Depois, encontramos uma segunda área de destroços, onde estava outra parte do casco e da cabine de pressão”, completou o chefe das buscas. “Com isso concluímos que a cabine estava em 3 pedaços. Agora, iremos investigar o que aconteceu a partir dessas informações.”

A guarda costeira ainda não sabe dizer quando a implosão ocorreu, mas afirmou que os ruídos não devem estar relacionados com a tragédia – dado que, durante toda a operação, não foi registrado qualquer som relativo a uma implosão.

Sobre possível recuperação de restos mortais da tripulação do Titan, o Mauger afirmou que não há informações neste momento para que se possa detalhar um plano de trabalho.

O que é uma implosão?

Uma implosão é o processo em que um objeto, estrutura ou edifício é colapsado ou desmoronado em direção ao seu centro. É o oposto da explosão, em que a força é liberada para fora a partir do centro do objeto.

Em 2017, o submarino argentino ARA San Juan, que desapareceu e demorou 1 ano para ser encontrado, também “implodiu” no fundo do mar. À época, a Marinha da Argentina disse que o casco permaneceu bastante intacto, apenas com algumas deformações, e que todas as outras partes se desprenderam. A implosão ocorreu em razão da pressão externa do mar ter superado a de dentro do submarino.

Ainda não se sabe qual o motivo que levou à implosão do submarino Titan, mas é sabido que, quando um submarino mergulha, a pressão da água aumenta progressivamente.

Esses veículos são projetados para suportar a pressão da coluna d’água: são construídos com cascos reforçados e materiais resistentes. No entanto, se ocorrer uma falha estrutural, como uma rachadura ou vazamento, a pressão externa pode exercer uma força extrema sobre a estrutura do submarino.

Se a pressão externa exceder a resistência da estrutura, a água pode começar a invadir o submarino. Isso pode causar um desequilíbrio de pressão dentro e fora do casco, resultando em um colapso súbito da estrutura.

A implosão ocorre quando a pressão da água esmaga o casco do submarino, comprimindo-o para dentro.

“Estou chocado”

O cineasta canadense James Cameron, diretor de “Titanic” (1997), comparou o caso do submarino com o próprio desastre do navio. “Estou chocado com a semelhança com o desastre do Titanic em si, no qual o capitão foi repetidamente avisado sobre o gelo à frente de seu navio, e no entanto continuou a toda velocidade em um campo de gelo”, disse o diretor em entrevista ao canal americano ABC News.

“Como um desenvolvedor de submersíveis, eu mesmo desenhei e construí um submersível, para ir ao local mais profundo do oceano, três vezes mais fundo que o Titanic, então eu entendo os problemas de engenharia associados com a construção desse tipo de veículo”, afirmou Cameron.

Em 2014, ele foi com um submersível e registrou sua visita à Fossa das Marianas, considerado o local mais profundo do oceano, quase 11 mil metros abaixo da superfície.

Já de suas expedições ao Titanic, ele produziu o documentário “Fantasmas do abismo” (2003). Nele, o diretor convidou o amigo Bill Paxton, parte do elenco de “Titanic”, para visitar e narrar as viagens aos destroços, que conseguiram as imagens mais detalhadas da embarcação afundada já registradas.

“Muitas pessoas da comunidade estavam preocupadas com este submarino e até escreveram cartas à empresa dizendo que o que eles estavam fazendo era muito experimental e que precisava de certificação.”

Durante a entrevista, Cameron disse que era próximo de um dos passageiros do Titan. “Paul-Henry Nargeolet, o lendário piloto francês, é um amigo meu”, falou o cineasta. “É uma comunidade muito pequena. Eu o conheço há 25 anos. Que ele tenha morrido dessa forma trágica é quase impossível de processar.”

Quem são as vítimas?

Hamish Harding — O bilionário de 59 anos era presidente da empresa de aviação Action Aviation. Harding visitou o Polo Sul várias vezes e foi ao espaço em 2022 a bordo de um voo da Blue Origin. Ele tinha três registros no Guinness World Records, segundo a BBC, incluindo o recorde de maior tempo gasto em profundidade total do oceano, em mergulho na Fossa das Marianas.

Shahzada e Suleman Dawood — O empresário paquistanês Shahzada Dawood e seu filho, Suleman, também estavam a bordo, informou a família em comunicado. Shahzada Dawood era o vice-presidente de um dos maiores conglomerados do Paquistão, a Engro Corporation, que tem investimentos em fertilizantes, fabricação de veículos, energia e tecnologias digitais. Ele morava na Grã-Bretanha com sua esposa e dois filhos.

Paul-Henry Nargeolet — Nargeolet era o capitão do submersível e considerado um dos maiores especialistas do naufrágio do Titanic, segundo informações do The Guardian. Ele era ex-comandante da Marinha Francesa, piloto de submersível, especialista em mergulho profundo e diretor do programa de pesquisa subaquática para o Grupo E/M e Titanic. Nargeolet seria a principal “autoridade no local do naufrágio” e já liderou ao menos 30 expedições ao local do Titanic e supervisionou a recuperação de cinco mil artefatos.

Stockton Rush — A empresa OceanGate confirmou, em nota, que o presidente da companhia, Stockton Rush, “estava a bordo do submersível como membro da tripulação”. O submersível, de 6,4 metros de comprimento, desapareceu uma hora e 45 minutos após o mergulho.

As vítimas