Mulheres violadas

Professor premiado nacionalmente por combater assédio é denunciado após assediar alunas

Share

Casado, professor de direito enviava fotos seminu para as alunas e fazia propostas indecentes, como trocar notas e trabalhos acadêmicos por sexo. Ex-sargento da reserva da PM, o professor também fazia comentários abusivos nas aulas presenciais. Ele teve o celular apreendido e foi proibido pela Justiça de se aproximar das vítimas; algumas das mulheres desistiram de depor por medo de represálias

Elisandro Lotin de Souza (Imagem: repodução)

Daniela Valenga, Portal Catarinas

Aluna do curso de direito da Associação Catarinense de Ensino (ACE), em Joinville (SC), Larissa*, participava de uma aula online quando seu professor, Elisandro Lotin de Souza, fechou a câmera e lhe mandou uma mensagem privada. “Eu libero você de fazer o trabalho, mas vamos sair comigo”, escreveu. Pouco depois ela soube que outras colegas também eram alvo do assédio, que incluía o envio de fotos dele seminu e comentários constrangedores nas aulas presenciais. “Escutei coisas como ‘delícia’ e ‘você está muito deliciosa com essa roupa'”, diz Paula*.

Ao dividir suas histórias, um grupo de mulheres entre 19 e 43 anos decidiu denunciar Lotin por assédio sexual ao Ministério Público de Santa Catarina (MP-SC). Afastado da faculdade desde julho, o professor, um ex-sargento da reserva da Polícia Militar que já ganhou um prêmio por suas ações contra o assédio na corporação, teve o celular apreendido e está proibido de se aproximar e de fazer qualquer contato com as vítimas e testemunhas da investigação.

A polícia já colheu 18 depoimentos. Segundo uma fonte próxima do caso, dez deles eram de vítimas e os demais de testemunhas. Inicialmente, cerca de 15 estudantes se mobilizaram, mas algumas desistiram temendo represálias. Segundo o delegado à frente do caso, Pedro Alves, as condutas atribuídas ao professor podem ser enquadradas como importunação sexual, assédio sexual, ameaça, perseguição e violência psicológica contra a mulher.

Leia também: Apresentador diz que mulheres só são assediadas porque “dão liberdade”

Procurados, os advogados de defesa de Lotin, Danúbia Medeiros Bächtold e Guilherme Luciano Vieira, negam as acusações e alegam que o professor “não ofereceu vantagem acadêmica, não ameaçou, não intimidou e não coagiu”. “O que se tem contra o investigado é apenas uma narrativa incriminatória”, dizem.

Afirmam ainda que o professor casado chegou a ter um caso extraconjugal com uma aluna e trocou, mútua e consensualmente, algumas mensagens íntimas com outras alunas adultas, mas que esses não são atos criminosos. Dizem que não podem dar mais explicações porque o caso corre em sigilo.

A reportagem conversou com duas das mulheres que o denunciam e teve acesso, com exclusividade, ao documento que reúne relatos de outras cinco mulheres. Leia os depoimentos abaixo.

“Levei um tempo para entender que não era culpa minha”

Segundo os relatos, Lotin tinha acesso a todos os contatos telefônicos de alunas e alunos e, por meio de mensagens em redes sociais, iniciava assuntos de conotação sexual, além de se oferecer para levar materiais até as casas e locais de trabalho das estudantes.

“Gostosa”, “linda”, “ai se eu tivesse 20 anos a menos”, “aqui não sou o professor, sou o homem”, foram algumas mensagens que ele enviou a Juliana* pelas redes sociais. “Recebíamos mensagens particulares na madrugada que nada tinham a ver com os conteúdos. Muitas vezes eram assuntos diversos para chamar a atenção e começar um outro tipo de conversa, mostrando interesse em sair com a gente”, conta.

No caso de Stephanie*, as investidas começaram assim que ela enviou mensagens ao professor para tirar dúvidas sobre a disciplina quando as aulas eram remotas por causa da pandemia. “Dali para frente, qualquer coisa que eu postava era respondida com muitos corações e falas de que estava apaixonado”, conta.

Constrangida, Stephanie* chegou a apagar uma foto que recebeu comentários dele. “Ficava pensando se era eu que tinha provocado, pensava ‘será que eu estou errada?’, ‘será que eu deveria ter falado outra coisa?’, levei um tempo até entender que não era culpa minha”.

Um sentimento similar também afetou Elisa*. Mesmo casada, foi chamada para sair com ele. Temendo ser desacreditada, ela não levou o caso a público. “Tinha certeza de que eu ia ser a culpada. Até hoje às vezes penso: ‘será que foi a roupa que eu usei que chamou a atenção, será que eu dei trela?'”. Receberam comentários similares as alunas Eduarda* e Paula*, que, com a volta das aulas presenciais, se sentiram incomodadas pela situação. “Você ter que olhar para aquela pessoa, ter aula com ela, é uma situação bem constrangedora”, conta Paula, que leu coisas como “delícia” e “você está muito deliciosa com essa roupa”.

“O assédio sexual pode aparecer de várias formas, como olhares insistentes, mensagens indesejadas ou ameaças. Diferentemente da paquera, consensual e recíproca, o assédio e a importunação sexual são invasivos e unilaterais”, disse Isabela Del Monde, advogada, membro do Brasil Mulheres e colaboradora do Me Too Brasil.

“Se eu não o atendesse, ameaçava ferrar comigo”

Em alguns casos relatados, o assédio não ficou só nas mensagens. Eduarda* diz que, ainda durante as aulas remotas, o professor foi até seu trabalho entregar um presente. “Não tinha motivos para trazer um presente, mas ele falou que eu era uma excelente aluna e que selecionou algumas pessoas para presentear. Recebi o presente na frente de todo mundo, justamente para evitar qualquer tipo de insinuação”, descreve. Com Mariana* ocorreu o mesmo: “Ele ia até meu local de trabalho levar livros e puxar assunto. Se eu não atendesse, ameaçava ferrar comigo”, conta.

Stephanie* recebeu uma foto do professor em que ele aparecia seminu, “cobrindo o órgão sexual só com uma toalha ou algo do tipo”. Quando questionado, o professor respondeu que havia enviado à pessoa errada. Após um tempo sem corresponder às tentativas, ela sentiu que era tratada diferente dos colegas. “Vi que ele começou a me tratar mal. Isso não influenciou nas minhas notas, porque sempre fui muito estudiosa”, conta.

“Não conseguia mais estar no mesmo local que ele”

De volta à sala de aula, quando alunas faziam perguntas sobre a matéria, o professor insinuava que havia alguma coisa entre ele e a estudante, descreve Juliana*, que temia ir às aulas por causa dos assédios. “Não conseguia mais estar no mesmo local que ele, isso impactou no desempenho acadêmico e, principalmente, na vida pessoal”, aponta.

Também afetada, Larissa* passou a evitar qualquer diálogo com receio de abrir brechas para que o assédio ocorresse. “Tinha dúvidas, mas não perguntava por medo do que ele pudesse falar, comentar e querer fazer algo”, conta. Elisa* também evitou contato com o professor, mesmo virtualmente, o que a prejudicou por ela acumular faltas.

Mariana* conta que, no final de 2021, precisou realizar a segunda chamada de algumas avaliações. Enquanto outros professores seguiram os trâmites da instituição, Lotin aumentou sua nota, sem ela ter pedido, e passou a pressioná-la para ela retribuir o “favor”. “Fraca, burra, desacreditada e sem força para reagir. Me sentia um lixo, mas precisava fingir e colocar um sorriso na aula. Tive diversas faltas na matéria dele por causa do nojo que sinto.”

Pós-denúncia

As estudantes ouvidas pela reportagem dizem que sofreram represálias e difamações na faculdade após o caso vir a público. Para Mariana*, o afastamento do professor é um alívio, mas tem sido difícil lidar com as críticas e ataques de alunos que defendem o professor e desmerecem a denúncia. “Devido ao estresse emocional, tive um baixo rendimento profissional, que levou à minha demissão”.

Juliana também teme que isso impeça outras de se manifestarem. “Agora que a denúncia foi feita, o sentimento ainda é de impunidade e favorecimento do assediador”, ressalta. Segundo fontes próximas do caso, ao menos três estudantes desistiram de se unir às denunciantes. Para Isabela Del Monde, também colunista de Universa, desacreditar as vítimas não é incomum. “Quando as mulheres ousam se pronunciar, romper com o silêncio dessas violências históricas que sofremos, vai sempre ter alguém defendendo a preservação das coisas como elas são”, aponta.

Em apoio às vítimas, foi organizado, por estudantes, um ato contra o assédio sexual em frente à ACE. Em um comunicado a estudantes e professores enviado em 2 de agosto, a faculdade escreveu que “a ACE pondera que não é investigada, que não há qualquer mácula em relação às suas atividades institucionais”.

A reportagem questionou a faculdade de direito da ACE sobre como a instituição acolhe vítimas de assédio. Até a publicação deste texto, não houve resposta. Para a advogada Isabela Del Monde, a falta destes canais é um problema.

“As vítimas não encontram apoio e amparo nenhum, sofrem retaliações, são revitimizadas e retraumatizadas”, afirma.

Um ativista contra o assédio

Formado em direito e mestre em gestão de políticas públicas, Elisandro Lotin de Souza é um sargento da reserva da Polícia Militar reconhecido nacionalmente por ter desenvolvido ações de combate ao assédio sexual e moral contra policiais mulheres na corporação. Por isso, foi indicado e venceu o Prêmio Viva do Instituto Avon e da Revista Marie Claire, na categoria Ele por Elas, em 2018.

“Temos um problema grave de violência contra a mulher, e homens também precisam se envolver com isso. Estamos vivendo no século 21 e não cabe mais a violência contra a mulher, nem a discriminação”, disse após receber o prêmio.

Em entrevista à revista Marie Claire naquele ano, ele afirmou que o impacto mais significativo do trabalho foi a reação das policiais que, encorajadas, denunciaram PMs e bombeiros. “As mulheres se sentem emparedadas. Os homens precisam se envergonhar, reconhecer o erro e mudar a conduta”, disse Lotin.

A reportagem entrou em contato com a Polícia Militar de Santa Catarina, que respondeu que “o cidadão citado em vosso pedido está na reserva e não pertence mais ao quadro ativo da corporação. Desta forma, em relação à questão apresentada, a PMSC não interfere em processos da esfera civil e respeita as decisões judiciais de acordo com a lei”.

Denúncia coletiva dá força à acusação

Por se tratar de um caso que corre em sigilo, o delegado Pedro Alves não deu detalhes, mas explicou que denúncias coletivas, detalhando o modus operandi do autor, têm mais força. “Uma versão acaba corroborando a outra. Isso acaba gerando uma maior legitimidade das alegações das vítimas”, assinala. As trocas de mensagens colhidas pela perícia no celular do professor serão determinantes para a produção de provas, diz.

O MP-SC também não comentou sobre o caso. O promotor de Justiça Jádel da Silva Júnior afirmou, porém, que são graves as situações que envolvem denúncias coletivas. “Se um grupo de pessoas encaminha uma acusação que revela a prática de um crime, isso tem um peso grande e deve ser recepcionado pelo MP com atenção”, explicou. Segundo o promotor, nos casos em que há padrões identificados, o órgão tem respaldo para conduzir o processo de forma coletiva.

Assédio é naturalizado nas faculdades

Não há dados atualizados sobre a ocorrência de assédios dentro dos ambientes universitários. Não faltam, porém, denúncias de alunas que expõem como essa violência faz parte do cotidiano no ensino superior. A diferença hierárquica na relação entre aluna e professor denota uma relação assimétrica de poder, explica Del Monde. “Infelizmente é comum ver homens abusando dessas posições.”

Em fevereiro deste ano, por exemplo, perto de completar quatro anos das acusações de assédio sexual feitas por oito alunas contra o professor de história Paulino Cardoso, a Universidade Estadual de Santa Catarina (Udesc) concluiu pela demissão do servidor.

Já no início de julho, cartazes espalhados pelo campus da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru denunciavam como o professor Marcelo Magalhães Bulhões assediava estudantes, principalmente as vindas de outras cidades.

Alunas não são os únicos alvos. Em Minas Gerais, oito funcionárias terceirizadas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), denunciaram que sofrerem assédio sexual de dois trabalhadores efetivos.

Conforme uma pesquisa de 2015 realizada pelo Instituto Avon, 67% das alunas já sofreram algum tipo de violência (sexual, psicológica, moral ou física) por um homem no ambiente universitário; 28% delas relataram ter sido vítimas de estupro, tentativa de abuso sob efeito de álcool, terem sido tocadas sem consentimento ou ser forçadas a beijar um veterano.

*Os nomes foram alterados para preservar a identidade das vítimas

→ SE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI… considere ajudar o Pragmatismo a continuar com o trabalho que realiza há 13 anos, alcançando milhões de pessoas. O nosso jornalismo sempre incomodou muita gente, mas as tentativas de silenciamento se tornaram maiores a partir da chegada de Jair Bolsonaro ao poder. Por isso, nunca fez tanto sentido pedir o seu apoio. Qualquer contribuição é importante e ajuda a manter a equipe, a estrutura e a liberdade de expressão. Clique aqui e apoie!