ELEIÇÕES 2022

Brizola e o PDT de hoje

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A inadimplência do PDT com a esquerda brasileira aumenta a cada ataque cirista... Ou o PDT muda e o Ciro adéqua seu discurso de derrota, ou, a próxima vez que visitar o túmulo de Brizola, em São Borja, ele vai se revirar no caixão

(Imagem: PDT)

Delmar Bertuol*, Pragmatismo Político

Dia desses, entediado, me pus a passar pelos meus arquivos de documentos no notibúqui. É uma versão de passar o tempo trocando os canais da tevê. Sintonizei na minha dissertação de conclusão do curso de História. Leonel Brizola. Desconheço, aliás, historiador que não nutra certo fascínio por ele. Se for colega gaúcho, então, a admiração é ainda maior.

Relendo, conclui que não mudaria nada o que escrevi anos atrás. À exceção dalgumas vírgulas mal colocadas. Aliás, o que motivou a minha revisita foi justamente essa inquietação: será que o Brizola que pesquisei em épocas faculdadinas é o mesmo de agora, em que tanto minha vida mudou?

Os personagens, históricos ou ficcionais, mudam. Há quem defenda, inclusive, que não existe história “real”, é tudo literatura e dependente do ponto de vista do pesquisador/observador. A discutir.

Fato é que, como disse, pra mim, o Brizola de outrora é o mesmo de hoje. Digo mais, se pudesse reescrever minha pesquisa, eu lhe seria mais generoso. E, desta vez, com a legitimidade de anos de experiência lecionando sobre ele e me debruçando em outras leituras, pesquisas e discussões a respeito desse figura icônica.

Li livros que falavam desde o seu nascimento, em Carazinho, quando ainda se chamava Itagiba (embora não registrado), passando pela sua entrada na Política, pelo episódio corajoso da Legalidade, o seu exílio e a fundação do PDT (depois de ter perdido o direito de usar a sigla PTB, que, de partido trabalhista, passou a… bem, se transformou no que é hoje).

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Fundado o PDT, as ideias do partido se confundiam com as ideias de Brizola. Brizolismo e pedetismo eram quase que sinônimos. E o partido teve grande importância na democracia e na República, embora, por uma dessas injustiças do destino, o partido, obviamente representado por Brizola, nunca tenha assumido a presidência do país. É o preço da democracia, a qual Brizola sempre lutou e lhe custou anos de exílio, pra dizer o mínimo.

Mas, à morte do seu fundador, em 2004, parece que também morreu em grande parte o PDT. E mesmo no Rio Grande do Sul, terra de Brizola, depois que ele foi debater política com Deus, achegado num discurso que era, o partido teve atitudes e posicionamentos no mínimo “brizolavelmente” questionáveis. A saber, alguns:

Em 2014, o partido deu guarida ao jornalista Lasier Martins, explicitamente de direita e liberal , para concorrer ao Senado. Devido a sua popularidade televisiva, tinha, desde sempre, boas intenções de voto. A esquerda gaúcha, vendo a possibilidade real de retroceder e ter um conservador travestido de trabalhista numa das suas vagas ao Senado, convocou o ex-governador Olívio Dutra, que goza de muita credibilidade inclusive com parte da direita, pra ser candidato pelo PT. Não adiantou. Martins foi eleito. Não demorou muito a trocar de partido e a votar a favor de pautas neoliberais, como a malfadada reforma trabalhista, que retirou históricos direitos e garantias dos trabalhadores. Hoje, depois de passar por nem sei quantos partidos mais (todos de centro-direita), e de ser pouco lembrado, é candidato a deputado federal por nem sei qual partido conservador. Perdeu o trabalhismo gaúcho e brasileiro.

Embora da orientação partidária de votar contra o Golpe, em 2016, o histórico deputado Giovani Cherini não só votou a favor da cassação da Dilma como ficou perto do microfone, como papagaio de pirata, vibrando com cada voto “sim”. E os gaúchos amargaram mais uma vergonha na conta do PDT. Nota: o citado parlamentar, por isso, foi expulso do partido. Mas o estrago já estava feito. Hoje, pasmem, está filiado ao PL do Bolsonaro.

Ainda sobre o fatídico golpe, um grande nome do partido é Pompeo de Mattos. Ele era a favor do golpe. Mas, como ele mesmo se disse, também “era um homem de partido”. Assim, pra não contrariar a orientação partidária de não votar “sim”, se absteve. Na prática, a abstenção contava como “não”, já que não engrossava o número de “sins”. Mas podia um político histórico da esquerda trabalhista deixar de usar a tribuna pra defender justamente os trabalhadores e a democracia, os dois princípios presentes no nome do partido, inclusive?

Ainda na conta do partido, temos Tabata Amaral. Mesmo que carregue consigo ideias progressistas, foi favorável à reforma da previdência. Alegou que votava visando ao bem de quem ganha apenas um salário mínimo por mês. Louvável, se isso não prejudicasse quem ganha um pouco mais e, mesmo assim, passa necessidade.

Não sei quais os critérios para se filiar e concorrer pelo PDT. E, justiça, todos os que não seguiram as diretrizes partidárias aqui citados foram expulsos. Mas a conta vai pro PDT.

E agora, claro, o Ciro Gomes. Ele tem uma inteligência acima da média, é inegável. Entende, se não de política no sentido das relações que se estabelecem, de política no sentido de administrar, de gerir coisas públicas. E acredito que é verdade o que se gaba, de ter uma vida pública reta e honesta, sem nenhum tipo de corrupção em seus mandatos.

Com um currículo assim, seria de empolgar o eleitor.

Mas não empolga.

E acho realmente isso uma lástima.

Porém, falta a Ciro o que eu chamaria de “humildade pragmática”. Ele tem todo o direito de se achar superior ao Lula. Ao Bolsonaro eu até nem preciso falar nada. O problema é ele colocar no mesmo baixo nível os dois. Não, definitivamente, não.

O Lula, o PT e outros nomes ligados podem terem cometidos erros, mas nem de longe se equiparam ao bolsonarismo. Há uma civilidade a separar Lula e Bolsonaro. Na verdade, Bolsonaro de qualquer outro candidato conhecido.

É legítima a candidatura de Ciro. Repito, não é um bom, é um excelente nome. Só que, ao atacar o Lula como ele vem fazendo, definindo-o como um Bolsonaro, só que do outro lado, ele enfraquece a ideologia que ele mesmo a princípio defende.

Essa conta também vai ao PDT, que, desde a morte de Brizola, está em déficit com a esquerda.

A dívida, no entanto, não está compensada no programa de limpa-nomes apresentado pelo Ciro. Antes o contrário, a inadimplência do PDT com a esquerda brasileira aumenta a cada ataque cirista.

Ou o PDT muda e o Ciro adéqua seu discurso de derrota, ou, a próxima vez que visitar o túmulo de Brizola, em São Borja, ele vai se revirar no caixão.

*Delmar Bertuol é professor de história da rede municipal e estadual, escritor, autor de “Transbordo, Reminiscências da tua gestação, filha”

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