ELEIÇÕES 2022

TSE proíbe eleitor de entrar com celular na cabine de votação; decisão frustra milícias

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Por unanimidade, TSE frustra milícias ao proibir celular na cabine de votação. Medida ajuda a aumentar a liberdade do eleitor. Aparelho terá de ficar com o mesário e quem se negar pode ter que se justificar para a polícia

(Imagem: TSE)

Leonardo Sakamoto

A obrigação de deixar o celular com o mesário antes de ir à cabine de votação ajuda a aumentar, e muito, a liberdade do eleitor. Gravar em vídeo o próprio voto na urna eletrônica já era proibido. Agora, o Tribunal Superior Eleitoral dificultou ainda mais isso ao decidir, por unanimidade, nesta quinta (25), que mesários podem reter celulares antes do voto. E quem se negar pode ter que se justificar para a polícia.

Em um lugar dominado por milicianos ou no qual novos e velhos coronéis exercem o voto de cabresto, se um morador for orientado antecipadamente a fazer um vídeo de seu voto para provar que escolheu um candidato apontado pelo crime, qual a chance de ele dizer “prefiro não fazer isso”? Se gostar de sua própria vida, zero.

Garantir que o celular possa ficar com o mesário é impedir que criminosos saibam como votaram os membros de uma determinada comunidade. Estes poderão dizer que não tiveram culpa, até tentaram gravar, mas o maldito mesário não deixou.

Não só isso. Um vídeo gravado na cabine eleitoral pode ser usado como prova para a compra de voto. Sim, ainda há muita gente que vende o seu direito de escolher seus representantes de forma independente em troca de uma onça-pintada, um micro-leão dourado ou, nem isso, uma arara mesmo. A fome é um bicho que devora até a consciência política.

“Ah, mas eu sou rycoh, não moro em lugar onde milicianos e traficantes orientam a votação ou no qual coronéis compram o voto, tenho que ter tratamento diferenciado”, você pode dizer. Para a sua sorte ou azar, estamos em uma democracia, onde uma regra eleitoral precisa servir para todos, indiscriminadamente, a fim de garantir que a vontade popular seja traduzida em voto.

E, como o próprio presidente do TSE, ministro Alexandre de Moraes, alertou existe também o pessoal que vota de propósito em Machado de Assis dizendo que escolheu Monteiro Lobato, e grava em vídeo só o finalzinho para “denunciar” que a urna foi fraudada.

Esse comportamento irresponsável já causou dores de cabeça em outras eleições, pois é o subsídio de outro tipo de milícia, as digitais, que envenenam com mentiras a política e a democracia.

É junto a esse público, que está pilhado na maldade, que a implementação da regra deve sofrer mais resistência. Afinal, muitos exigem a liberdade de sacanearem a democracia.

Coincidentemente, nos últimos dias recebi relatos de dois professores universitários afirmando que ouviram seus alunos dizerem que pretendem aplicar um golpe no dia 2 de outubro: vão apertar 13, gravar a imagem de Lula sendo confirmado, e depois chamarem a Polícia Militar, afirmando que haviam digitado 22.

O número é o do presidente Jair Bolsonaro, que vem acusando o sistema eletrônico de votação de fraude sem apresentar provas.

A decisão dificulta a adoção dessa tática, pois a polícia seria chamada sim, mas por conta da resistência de deixar o celular fora da cabine. Pelo que esses docentes ouviram, não seria a primeira eleição em que a tática, que tenta tirar a credibilidade da urna, seria usada.

Nas eleições para Assembleia Constituinte de 1822 já havia escolha de deputados de forma anônima, mas o voto secreto se consolidou no Código Eleitoral de 1932. Pode-se dizer, dessa forma, que quem acha a decisão do TSE um absurdo está defendendo um Brasil que havia há mais de 90 anos.

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