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Alexandre Garcia chama Bolsonaro de D’Artagnan em curso de política que custa R$ 778

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Alexandre Garcia decidiu ganhar mais dinheiro vendendo um curso de política nas redes. Os interessados descobrem que o Brasil corre perigo e a solução é uma só: "politizar o maior número possível de cidadãos de bem". Jornalista que comprou o curso diz que trata-se de um caça níquel desastroso

Alexandre Garcia

Matheus Pichonelli, TAB

Na página de inscrição do curso de política oferecido pelo jornalista Alexandre Garcia, os interessados descobrem que o Brasil corre perigo e a solução é uma só: “politizar o maior número possível de cidadãos de bem”.

Por R$ 778 — ou metade do valor, se a matrícula for feita nas primeiras horas do dia — é possível, segundo Garcia, erradicar o analfabetismo político no país, garantir acesso à verdade “que nunca te contaram sobre a política brasileira” e salvar “as gerações futuras”.

Parecia bom negócio, e mesmo sabendo que as aulas do curso “Educação Política – Fundamentos e Bastidores” eram gravadas, fiz minha inscrição em 21 de fevereiro, pouco antes de serem liberadas cinco aulas inéditas, de um total de nove, que prometiam abordar questões como modelos econômicos, corrupção e fake news.

O tema da última aula era particularmente interessante. Cinco meses atrás, o professor havia sido demitido da CNN Brasil por divulgar informações falsas sobre a covid-19. Ele removeu de seu canal no YouTube mais de cem vídeos que poderiam ser citados no curso como exemplos.

Mas, por problemas técnicos ou descuido, o próprio título da aula enganava. Garcia falou um pouco de tudo, menos sobre fake news. Ainda assim, a aula era reveladora para entender a personalidade do jornalista de 81 anos que se apresenta como um dos muitos patriotas que não perdem a chance de espinafrar seu país e seus habitantes.

Todo o conteúdo parece ter sido gravado há pelo menos dois anos e só agora disponibilizado. Em aproximadamente quatro horas, no total, Alexandre Garcia desfila opiniões sobre tudo — e aqui reside a primeira pegadinha do curso, que prometia revelar “tudo o que me não contaram” sobre política.

Quase tudo o que é contado ali já foi “revelado” nos grupos de WhatsApp da família, nas lives de Jair Bolsonaro ou nos canais do próprio jornalista. Inclusive o desafio proposto por ele, em uma palestra: trocar a população brasileira pela japonesa para ver se esse país finalmente aprende a explorar suas riquezas como ouro, petróleo e nióbio.

Garcia faz um desenho da identidade nacional com tintas que misturam o verde-amarelo patriótico com o cinza do vira-latismo. O aluno paga para ouvir que mora em um país onde não ovacionamos os verdadeiros heróis fora dos campos de futebol. Na verdade, adoramos um bom enterro, como provou o cortejo de Ayrton Senna, morto em 1994.

Esse espírito derrotista deve ser resultado do encontro do luto português com o banzo africano, arrisca o professor. E isso nos torna uma nação cada vez menos otimista. Uma nação que aplaude o bandido e vaia o policial. Que não mira o exemplo de países como a Austrália, que também foi colonizada por degredados e hoje é um sucesso. E nós?

Somos um país de masoquistas. Achamos que o gozo leva para o inferno. Sempre damos um jeito de estragar tudo, como fizeram (e podem fazer agora, com novo aumento do diesel) os caminhoneiros em greve e os áudios de Joesley Batista, no momento em que Michel Temer salvava o país (“Aula Extra: jornalismo político e fake news”). Tem sido assim desde muito tempo, diz.

Não aproveitamos a estabilidade da moeda. Não revisamos a Constituição, que nos legou muitos direitos e poucos deveres (“Aula Extra: jornalismo político e fake news”). Garcia faz coro ao senso comum segundo o qual “punimos quem emprega e chamamos de exploradores quem investe no país”, “o jeitinho é nossa marca”, “gostamos de tirar vantagem de tudo”.

Não faltaram ainda críticas, sem base em argumentos sólidos, às demarcações de terras indígenas (“Aula 1 – A importância da formação política para o cidadão”) e ao sistema de cotas, que transformou em privilégio o que deveria ser um “mérito”.

Bastidores: ponto alto

Se há um ponto alto no curso são os bastidores compartilhados pelo jornalista gaúcho com mais de 40 anos de profissão. Porta-voz do general João Baptista Figueiredo, último presidente do regime militar, Garcia conta como testemunhou momentos-chave da transição e início da redemocratização – termo, aliás, que ele rejeita por considerar que nunca tivemos uma democracia de fato no Brasil e nem uma ditadura, à exceção do Estado Novo de Getúlio Vargas (“Aula 2 – Conceitos fundamentais”).

Entre as histórias está o dia em que apertou as mãos de Tancredo Neves em seu último jantar e sentiu a morte em sua mão fria e macilenta. Às vezes os relatos em primeira pessoa descambam para a egotrip, como quando cita ele mesmo como exemplo de ética na profissão.

Quem espera uma análise a quente dos fatos pode se decepcionar. Boa parte das aulas foram gravadas em 2019, ainda antes da pandemia. Nos vídeos, Garcia se mostra otimista com a possibilidade de aprovação da reforma da Previdência, ocorrida no fim daquele ano, e com o pacote anticrime elaborado pelo então ministro da Justiça Sergio Moro, hoje rompido com Bolsonaro, por quem o jornalista não esconde a admiração.

Em certo momento, ele se refere ao capitão como D’Artagnan, e seus filhos como os três mosqueteiros das redes sociais (“Aula 6 – Modelos políticos e econômicos”). Para Garcia, Bolsonaro foi eleito com uma campanha “totalmente diferente”, sem tantos recursos, mas autêntica. Antes dele, ninguém falava de patriotismo, autodefesa, liberdade, valorização da polícia, Deus, famílias.

Até 2018, as pessoas tinham medo do politicamente correto. Agora não é mais a sociedade quem teme os bandidos, mas o contrário. Quem era vidraça virou pedra. (Não era, presume-se, uma referência aos bancos e cofres explodidos pelo novo cangaço no período.)

“Vamos sair desse pessimismo com esperança e aplicar o que já deu certo nesse país. Porque tivemos aquela época [ditadura militar] do milagre brasileiro e passamos três anos crescendo maravilhosamente e otimisticamente, cheio de entusiasmo”.

Fã de Pinochet

Assim como Bolsonaro, Garcia é admirador do governo de Augusto Pinochet, que transformou o Chile em uma “economia moderna, pragmática”, graças aos liberais da Escola de Chicago, da qual Paulo Guedes é aprendiz. Nenhuma palavra sobre os recentes protestos que levaram o país vizinho a convocar uma nova Assembleia Constituinte para enterrar de vez os entulhos da ditadura.

O liberalismo, segundo ele, é o regime em que o Estado não se mete nas nossas vidas e permite que bilionários construam suas fortunas honestamente e depois se tornem beneméritos. Já o comunismo é um modelo que não deu certo em nenhum lugar. Segundo ele, nem na China, onde a coisa só andou porque alguém aposentou o marxismo e adaptou a sabedoria milenar de Confúcio ao seu sistema.

(A leitura de Garcia tem problemas. Segundo o especialista em China Lucian Pye, em entrevista ao jornal O Globo, o pensamento do filósofo até faz parte do discurso oficial, mas se assume a fusão de ideologias que sempre caracterizou o sistema político do Partido Comunista Chinês, numa alquimia de Estado descrito por ele como “leninista-confucionista”.)

Garcia vai além: quando caiu o Muro de Berlim, os órfãos da União Soviética se abrigaram na ecologia, no politicamente correto, no feminismo, na ideologia de gênero. “Isso é Freud que explica, não eu.”

No Brasil até tivemos momentos de crescimento chinês. Foi durante os anos do milagre econômico, o auge da ditadura. Garcia quase suspira ao lembrar dessa época, assim como suspira ao lembrar da juventude, quando as pessoas primeiro aprendiam a cumprir as leis e só depois ouviam falar de liberdade.

A nostalgia só não é mais doce do que a saudade do que não viveu. Para ele, um dos raros momentos de estabilidade nacional foi sob Pedro 2º. Aí veio o “golpe” republicano e começou nossa desgraça.