Religião

Qual o custo da fé?

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André Luiz de Almeida Mendonça, advogado e pastor presbiteriano (Imagem: Jose Cruz | ABr)

Anderson Pires*

O cristianismo é hegemônico no ocidente. A moral cristã, seja coerente ou não com os supostos ensinamentos de Jesus Cristo, é determinante na condução de práticas e costumes em todos os países ocidentais, com maior ou menor interferência sobre o estado.

Teoricamente, os Estados Nacionais deveriam ser laicos e garantirem tratamento isonômico entre todas as crenças, sem promover qualquer tipo de privilégio ou vantagem. Mais que liberdade religiosa, o Estado deve garantir que os recursos oriundos da sociedade não podem servir a qualquer igreja ou crença específica.

Porém, essa relação entre estado e igreja é milenar. Em boa parte da história foram praticamente uma só entidade. Certamente, essa interseção tão duradoura promove distorções no papel que cada instituição deve cumprir. O limite entre o público e o privado fica confuso. Como também, os serviços empresariais promovidos por igrejas e crenças têm seus custos (ou parte) transferidos para o Estado. Por fim, essa conta fica para a sociedade, inclusive aqueles que não versam sobre qualquer denominação religiosa.

No Brasil especificamente, a relação do Estado com a Igreja Católica atravessou séculos. Inicialmente, por terem o mesmo objetivo de dominação e exploração, depois pela transferência de algumas funções do estado para as instituições religiosas. Sob o manto de prestarem serviços comunitários, promoverem caridade ou filantropia, o caráter privado era mascarado e, assim, a destinação de recursos públicos justificada.

Entretanto, essa relação que por muito tempo foi exclusiva da Igreja Católica passou a ser compartilhada com outras denominações, notadamente, as igrejas evangélicas. Como parte de um projeto de expansão, diversas igrejas passaram a disputar os espaços políticos e exercerem influência nos espaços públicos. Além disso, resolveram ocupar níveis de poder para aferirem vantagens tributárias, subsídios, emendas parlamentares e, o que considero mais grave, impor uma pauta conservadora, que fere direitos individuais e coletivos.

Não bastasse o custo financeiro que a sociedade é obrigada a arcar, visto que a atividade religiosa não é tratada como de cunho empresarial, ainda temos o impacto sociocultural decorrente da imposição de valores morais que ferem a democracia e suprimem direitos.

O custo da fé é muito maior que o econômico. Pode custar a propagação do machismo, da homofobia, do racismo e a repressão de conquistas conseguidas com muita luta e mobilização.

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Recentemente, tivemos mais uma demonstração desse projeto de ocupação do Estado que os evangélicos resolveram empreender no Brasil. Após meses na geladeira, a indicação do ex-ministro da justiça André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal foi aprovada pelo Senado e reacendeu o debate sobre a necessidade de termos um estado laico. Durante a sabatina ficou clara a preocupação de que a indicação do novo Ministro, que também é pastor, represente uma quebra de preceitos constitucionais e um avanço de pautas conservadoras que desrespeitem direitos.

O Ministro André Mendonça foi apresentado pelo Presidente Bolsonaro como “terrivelmente evangélico”. Apesar de ser oriundo da Advocacia Geral da União, ficou claro que o principal papel que deveria exercer não seria de magistrado, mas sim de representante de um segmento político-religioso, que reivindica um membro que defenda seus interesses na mais alta corte do país.

Além de promover uma quebra no laicismo, o papel de André Mendonça seria parecido ao de representante indicado por um grupo de franquias para um conselho público de altíssima importância, com intuito de defender interesses comerciais que são pautados em valores que ferem a Constituição Brasileira.

Por mais que André Mendonça tenha dado respostas politicamente corretas sobre temas como aborto e casamento entre pessoas do mesmo sexo na sabatina no Senado, o desfecho da sua indicação, com comemoração ao lado da primeira-dama, Michele Bolsonaro, acompanhado da citação: “um passo para um homem, um salto para os evangélicos”, deixou claro que suas respostas foram mera formalidade. Fossemos usar uma metáfora, o novo ministro teria blasfemado perante a Constituição.

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O bolsonarismo, entre tantas mazelas que se propõe, incorporou a parcela moral mais tacanha e conservadora das denominações evangélicas. Enquanto alguns pastores e bispos praticam de forma explícita o empreendedorismo da fé, vendem para seus seguidores a exaltação de preconceitos como forma de aglutinar e, ao mesmo tempo, esconderem seus pecados mais tenebrosos.

Aqueles que criam demônios como a ideologia de gênero e o uso do kit gay nas escolas, são os mesmos que criminalizam o aborto, incitam violências físicas e psicológicas contra o público LGBTQIA+ e, também, corroboram com a exploração do trabalhador, aumento da desigualdade social, redução de direitos fundamentais, perdão de dívidas fiscais as igrejas, cortes na saúde e educação e pregam o negacionismo que matou milhares de pessoas de covid-19.

André Mendonça representa essa parcela da sociedade que se aglutina em torno de franquias religiosas, que nem os princípios mais elementares do cristianismo respeitam. Não veremos nenhum dos apoiadores de Bolsonaro, que trabalharam pela indicação para o Supremo, se posicionarem contra a pena de morte, combaterem o uso de armas, exigirem mais investimentos no combate a desigualdade social ou atacarem o negacionismo assassino do presidente.

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A fé não pode ser avalista de interesses comerciais, nem prerrogativa para quebra de direitos. O custo financeiro é a parte tangível. As perdas de cunho humanístico são inestimáveis. O Deus opressor forjado pelos apoiadores de André Mendonça não cabe numa democracia. O estado laico se faz necessário não só por respeito à diversidade religiosa e até aos que não têm crença, mas, principalmente, como mecanismo para coibir qualquer tentativa de ataque à humanidade baseada em preceitos religiosos.

*Anderson Pires é formado em comunicação social – jornalismo pela UFPB, publicitário, cozinheiro e autor do Termômetro da Política.

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