Cultura

Sobre o Choro, seus instrumentos e sua história consolidando o chorinho como o gênero instrumental principal do país.

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Por Cinthia Filomeno*

O choro é um dos estilos mais originais de música instrumental brasileira, cuja origem se deu em meados do século XIX. Ele nasceu no Rio de Janeiro e ganhou forte expressão nacional, tornando-se um dos principais símbolos da nossa cultura.

Os historiadores em geral, dizem que o chorinho brasileiro é um estilo peculiar de interpretar diversos gêneros musicais. No século XIX, muitos gêneros europeus como a polca, a valsa, os schottisches, a quadrilha, entre outros, eram tocados pelos chorões de maneira original.

Promulgada capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, em 1815, o Rio de Janeiro passou por uma reforma urbana e cultural, quando assim, então, foram criados cargos públicos. Junto da corte portuguesa vieram os instrumentos de origem europeia como o piano, o clarinete, o violão, o saxofone, o bandolim e o cavaquinho e também músicas de dança de salão, como a valsa, a quadrilha, a mazurca, a modinha, o minueto, o xote e, principalmente, a polca, que viraram moda nos bailes daquela época.

A reforma urbana, os instrumentos e as músicas estrangeiras, juntamente com a abolição do tráfico de escravos no Brasil em 1850, foram condições históricas para o surgimento do choro, que possibilitou a emergência de novos ofícios para as camadas populares tendo como origens estilísticas o lundu, ritmo de inspiração africana à base de percussão.

Esses grupos de instrumentistas populares, denominados “chorões”, eram oriundos de segmentos da classe média baixa da sociedade carioca, sendo em sua grande maioria modestos funcionários de repartições públicas como Alfândega, Correios e Telégrafos, e da Estrada de Ferro Central do Brasil, cujo trabalho lhes permitiam uma boemia regular, já que geralmente moravam em bairros afastados como o Cidade Nova.

O chorinho, como é popularmente conhecido, pode ser considerado como a primeira música urbana tipicamente brasileira, transformando-se em um dos gêneros mais prestigiados da música popular nacional reconhecido em excelência e requinte.

A improvisação é condição básica do bom chorão, bem como requer uma alta virtuosidade de seus intérpretes, cuja técnica de composição não deve dispensar o uso de modulações imprevistas e armadas com o propósito de desafiar a capacidade ou o senso polifônico dos acompanhantes. Além disso, admite uma grande variedade na composição instrumental de cada conjunto e comporta a participação de um grande número de participantes.

Os primeiros conjuntos de choro surgiram por volta da década de 1870, nas consideradas biroscas – que são pequenas instalações simples (um misto de mercearia e bar), situados em lugares pobres ou favelas da cidade – do bairro Cidade Nova, e nos quintais dos subúrbios cariocas. O flautista e compositor Joaquim Antônio da Silva Calado, os pianistas Ernesto Nazaré e Chiquinha Gonzaga, e o maestro Anacleto de Medeiros compuseram quadrilhas, polcas, tangos, maxixes, xotes e marchas, estabelecendo os pilares do choro e da música popular carioca da virada do século XIX para o século XX, que com a difusão de bandas de música e do rádio foi ganhando todo o território nacional. Herdeiro de toda essa tradição musical, Pixinguinha consolidou o choro como gênero musical, levando o virtuosismo na flauta e aperfeiçoando a linguagem do contraponto com seu saxofone organizando inúmeros grupos musicais, se tornando o maior compositor do gênero.

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Hoje em dia quando falamos de choro, nos remetemos quase que automaticamente a Pixinguinha. Certa vez, provocado a resumir a música brasileira em uma palavra, o crítico musical e pesquisador José Ramos Tinhorão cravou: “Pixinguinha”, pois a importância do saxofonista e flautista é tanta que, a data de seu nascimento, 23 de abril, tornou-se também um marco festivo para um dos gêneros do qual foi precursor: o Dia Nacional do Choro.

Para comemorar essa data especial, a celebração deste ano começou cedo. Embalado neste contexto de valorização de um dos mais importantes gêneros musicais do país, foi feito um projeto em formato de websérie, Artífices do Som, que busca jogar luz ao universo de criação de instrumentos e todo o virtuosismo dos famosos “chorões”, que são os músicos que praticam e se dedicam ao Choro.

O universo musical do choro a partir dos músicos e artesãos:

A Websérie “Artífices do Som”, explora os bastidores da criação de instrumentos do Choro e, para tanto, celebramos sua existência no mês de abril.

Contemplado pela Lei Aldir Blanc através da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado do Rio de Janeiro, o projeto conta um pouco mais sobre os métodos e técnicas dos artesãos do som, criadores de instrumentos precisos e preciosos como bandolim, flauta transversal, cavaquinho, pandeiro e violão.

Mestre Siqueira, cavaquinista de 83 anos que acompanhou nomes como Pixinguinha e Cartola, e mantém firme a tradição do choro. (Foto: Pedro Cantalice / Artífices do Som)

Com idealização de Bernardo Marques, “Artificies do Som” é composta por 15 capítulos que apresentam entrevistas, performances e animações inéditas com luthiers e músicos. A exibição dos vídeos é gratuita e os episódios já estão no ar hospedados no canal do YouTube do projeto: Artífices do Som. Destaque para o último episódio que traz o encontro com Mestre Siqueira (foto), cavaquinista que acompanhou nomes como Pixinguinha e Cartola, e que puxa a lista de personagens que compõem a websérie.

Confira abaixo a sequência dos artesãos, dos músicos e dos episódios do projeto no YouTube; assista e se encante com a beleza de quem faz do Choro o gênero urbano mais requintado da nossa cultura.

Ep.01 – Os Fazeres do Violão 7 Cordas (Lucas Braz Santos)  (Ep.01)
Ep.02 – O Saberes do Violão 7 Cordas (Lucas Braz Santos)  (Ep.02)
Ep.03 – O Saberes do Violão 7 Cordas (Maurício Massunaga) (Ep.03)
Ep.04 – Os Fazeres do Cavaco (Jórtan de Amarante Lima) (Ep.04)
Ep.05 – Os Saberes do Cavaco (Jórtan de Amarante Lima) (Ep.05)
Ep.06 – Os Saberes do Cavaco (Mestre Siqueira) (Ep.06)
Ep.07 – Os fazeres do pandeiro: com Maylle Camara e Dizzy (Ep.07)
Ep.08 – Os saberes do pandeiro: com Dizzy (Ep.08)
Ep.09 – Os saberes do pandeiro: com Maylle Camara (Ep.09)
Ep.10 – Os fazeres do violão 7 cordas: com Maurício Massunaga e Lucas Braz (Ep.10)
Ep.11 – Os saberes do violão 7 cordas: com Lucas Braz  (Ep.11)
Ep.12 – Os saberes do violão 7 cordas: com Maurício Massunaga (Ep.12)
Ep.13 – Os fazeres do cavaco: com Mestre Siqueira e Jórtan Lima (Ep.13)
Ep.14 – Os saberes do cavaco: com Jórtan Lima (Ep.14)
Ep.15 – Os saberes do cavaco: com Mestre Siqueira (Ep.15)

*Cinthia Filomeno é escritora e pesquisadora do samba, autora do livro Samba: Uma Cultura Popular Brasileira
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