Cultura

O samba da Bahia é a base da história e do samba brasileiro

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Os baluartes do samba baiano Edil Pacheco, Ederaldo Gentil e Batatinha (Imagem: Acervo pessoal de Edil Pacheco)

Cinthia Filomeno*

Já é sabido que o samba é resultante de estruturas musicais de origem africana, mas foi com os símbolos da cultura negra brasileira que o samba se alastrou pelo território nacional tornando-se uma das principais manifestações culturais populares do Brasil. A importância do samba no Brasil é tão grande que, no dia 2 de dezembro, celebramos o Dia Nacional do Samba, em homenagem a este que é um dos ritmos mais potentes do país.

Essa introdução no cenário aqui criado, na verdade é para falar do samba da Bahia e dar nome às vozes dos cantores e compositores que mantiveram suas raízes vindas da África, e contar um pouco de como tudo começou.

Alguns dos nomes que levaram o samba baiano a ser destaque nacional são: Riachão, Dona Damiana, Batatinha, Tião Motorista, Walmir Lima, Panela, Nelson Rufino, Edil Pacheco, Roque Ferreira e Ederaldo Gentil.

Da nobreza do samba às suas vertentes contemporâneas, o samba foi a origem dos três principais ritmos tocados nos nossos carnavais: o axé, o pagode baiano e o samba-reggae. Sua origem foi com o samba de roda, o samba de terreiro e batuque de umbigada, passando pelo partido-alto, bossa nova e samba-duro junino, até chegar ao samba misturado com samba-choro, samba-funk e samba-rock.

O Recôncavo Baiano é em si, o berço do samba; tem uma faixa de terra ao redor da Baía de Todos os Santos, repleta de rios navegáveis, que na época da Coroa Portuguesa chegou a ser responsável por 5% do PIB brasileiro, graças as suas plantações de açúcar, de tabaco e, também, pelo intenso comércio de utensílios diversos que havia na região. Ainda hoje existem lá, mais de 250 quilombos.

Segundo Roberto Mendes, cantor e compositor de Santo Amaro, no Recôncavo, o samba é tradicionalmente um comportamento musical que, para entendê-lo em sua origem, é preciso resgatar sua configuração primeira, que deu origem a todos os outros ritmos vindos do samba, sua matriz, o samba de roda que, foi declarado Patrimônio Imaterial Nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN, em 2004 e, em 2005, como Patrimônio Mundial, pela UNESCO.

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Precisamos entender então que, Samba de Roda não é o mesmo que uma Roda de Samba. Sua identidade reside na chula, uma espécie de cantiga de louvor à mulher e à beleza feminina declamada com técnica vocal específica por cantadores homens, na viola-machete portuguesa, incorporada à percussão africana. Da roda, participam os homens e as mulheres e, tradicionalmente, eles tocam os instrumentos (viola, violão, cavaquinho, pandeiro, atabaque, prato, triângulo e timbau) e cantam e, elas, marcam o ritmo com as palmas, dançam uma a uma para os tocadores vestidas com roupas típicas e chamam as parceiras para fazer o mesmo com a umbigada. Tudo isso acontece dentro da roda que, no passado, se formava espontaneamente depois de um dia de trabalho ou nas festas de rezas aos santos, que são tão populares no interior baiano. As rodas são tão populares que o próprio Roberto Mendes citado acima, considerado uma das maiores referências de música na Bahia disse: “o samba de roda está para o Recôncavo com o cultivo de cana de açúcar, assim como o blues está para o Mississipi nos EUA, com o algodão”, referindo-se ao estilo musical de origem africana que, entre outros, deu origem ao rock.

O samba de roda, mesmo sendo secular e praticado especialmente no interior da Bahia, ainda assim, tem de lutar para se manter. Apesar de ser patrimônio cultural do país e do mundo, ainda não foi reconhecido formalmente pelo próprio Estado baiano. Isso significa que, apesar do que já se conquistou, guardiãs do samba como Dona Dalva Damiana enfrentam batalhas diárias para garantir a preservação de algo que pertence a todos.

É muita luta para não deixar o samba morrer, nem na Bahia, nem em lugar algum deste país. O samba é nossa identidade, e dentro dessa cultura é pra ele que sempre corremos nos momentos de alegria e de tristeza porque, de uma forma ou de outra, só o samba nos salva.

*Cinthia Filomeno é artista visual, pós-graduada em Fundamentos da Cultura e das Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, escritora e pesquisadora do samba, e autora do livro Samba: Uma Cultura Popular Brasileira

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