Racismo não

A trajetória de Robert Robinson: do racismo nos EUA à garoto propaganda do comunismo

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Robert Robinson em fábrica da União Soviética. (Imagem: Reprodução)

Luis Gustavo Reis* e Eduardo Bonzatto* Pragmatismo Político

Nas primeiras décadas do século XX, os cidadãos estadunidenses foram da euforia à tristeza. A Grande Depressão de 1929 acarretou o desmantelamento da economia e empurrou centenas de pessoas para o desemprego. O american way of life soprado aos quatro cantos do planeta como paraíso terrestre, virou um pesadelo incontrolado, sobretudo para as camadas mais pobres da população.

Temendo o agravamento da crise e sem enxergar sinais de melhorias no curto prazo, muitas pessoas migraram para outros países em busca de condições dignas de vida. Esse foi o caso do afro-estadunidense Robert Robinson, que não sofria apenas as mazelas do colapso econômico, mas também os horrores do racismo que insistia em flagelar uma parte dos cidadãos.

Do outro lado do globo, 7 anos antes do crash estadunidense, uma confederação de países foi fundada sob a égide do comunismo. Em meados de dezembro de 1922, era oficializada a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que aglutinou interesses de países distintos visando um objetivo comum: fortalecer o comunismo no leste da Europa e em partes da Ásia Central e Setentrional.

A formação do bloco soviético trouxe consequências profundas, visíveis até hoje, e facilitou as negociações com as potências estrangeiras. Entre os acordos firmados, figurava a importação de trabalhadores qualificados para suprir a carência de profissionais em determinadas funções nas insipientes indústrias comunistas. Havia grande demanda de mão de obra porque os camaradas queriam transformar a confederação socialista predominantemente rural em uma superpotência industrializada.

No auge da Grande Depressão, os soviéticos aproveitaram a desintegração das fábricas norte-americanas e firmaram acordos com empresários capitalistas, entre eles Henry Ford. Nas tratativas, ficou definido que a Ford Motor Company construiria uma fábrica na cidade russa de Nizhny Novgorod e daria toda assistência necessária para consolidação da montadora de carros. Além disso, os soviéticos estavam autorizados a visitar regularmente as instalações da matriz estadunidense (The Ford River Rouge) para estudar técnicas de produção de linha de montagem e convidar operários interessados em passar uma temporada trabalhando na URSS. Ratificado o acordo, a construção da fábrica começou a todo vapor.

No começo de 1930, uma delegação soviética desembarcou nos Estados Unidos e os comissários passaram alguns dias na sede da The Ford River Rouge. É nesse momento que Robert Robinson é afetado diretamente. Descansando em casa, recebeu um telefonema que mudaria sua vida para sempre: os comunistas os convidaram para trabalhar na URSS.

A oferta era tentadora, ainda mais em um contexto de racismo, crise econômica e ameaça iminente de desemprego. A proposta de trabalho incluía o dobro do salário que Henri Ford lhe pagava, 30 dias de férias remuneradas, automóvel, moradia, livre acesso de entrada e saída do bloco comunista e outras regalias. Seu posto seria de engenheiro mecânico, formação de origem, na Fábrica de Tratores de Stalingrado – atual Volgogrado, situada a 969 km ao sul de Moscou. Robinson não titubeou, aceitou o convite e partiu para o outro lado do mundo.

Nascido na Jamaica em 1906, Robert Robinson migrou jovem para Cuba na companhia de sua mãe – uma médica dominicana. Na ilha caribenha, teve oportunidade de estudar e se formou como engenheiro mecânico. De lá, ele e a mãe partiram para Dearborn, no Michigan (EUA), onde Robert conseguiu cidadania estadunidense e emprego na Ford Motor Company. Único funcionário negro na fábrica com 700 trabalhadores, a discriminação estava inscrita na moldura cotidiana do operário.

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Desde quando chegou aos Estados Unidos, Robert percebeu o tratamento dispensado aos negros e sentiu na pele os efeitos do racismo. A Ku Klux Klan atuava a plenos pulmões, aterrorizando negros de norte a sul do país, e o nacionalismo racista era o dogma praticado por pessoas brancas – pertencentes ou não à organização supremacista. Com assassinatos constantes e preconceito explícito patrocinado pelo Estado, Robinson, aos 23 anos, temia ser o próximo a sofrer linchamentos, algo que havia acontecido com pessoas próximas.

Quando os soviéticos fizeram a proposta, ele conhecia a Rússia apenas pelos relatos de viajantes e pelos jornais que circulavam em Detroit na época. Tinha poucas informações sobre a Revolução Bolchevique que instaurou o comunismo no país, mas decidiu que aceitaria o convite para fugir da discriminação e juntar um pouco de dinheiro para oferecer uma vida melhor a sua mãe, que apesar de médica, não conseguia emprego. Assim, integrou a comitiva de 370 estadunidenses que se estabeleceram na URSS e que foram trabalhar na Fábrica de Tratores de Stalingrado.

Recebidos com entusiasmo pelos anfitriões no final de 1930, os norte-americanos foram alojados em apartamentos novos, recebiam suprimentos regularmente, tinham restaurante próprio, posto médico, tardes dançantes ao ritmo de jazz e até o próprio jornal em inglês – Spark of the Industry (Centelha da Indústria). Era um tratamento distinto do oferecido aos próprios nacionais, que não gozavam dos mesmos privilégios. Mas o racismo perseguia Robert Robinson como uma sombra e episódios de discriminação, partindo de operários estadunidenses, começaram a pipocar regularmente.

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Numa tarde, enquanto terminava de almoçar no refeitório, iniciou uma discussão com dois oficiais que o ridicularizavam e o chamavam de “negro imundo”. O palavrório virou pancadaria, os colegas soviéticos separaram a briga, mas a repercussão do caso acabou extrapolando os limites da fábrica e noticiados na imprensa.
Os demais trabalhadores apoiaram firmemente Robinson, inclusive exigiram a deportação dos dois operários racistas, que foram julgados e expulsos pela direção da empresa.

Bem-vindo ao soviete, camarada Robinson

A máquina stalinista decidiu usar o incidente para propósitos propagandistas. O caso tornou-se um exemplo divulgado pelos soviéticos do racismo estadunidense e da violência patrocinada pelo Estado norte-americano contra cidadãos negros.

A contragosto, Robinson foi transformado em pequena celebridade pela imprensa e a agressão teve tanta publicidade que inibiu seu retorno aos Estados Unidos. Em sua autobiografia Black on Red: My 44 Years Inside the Soviet Union (Acropolis Books, 436 p.), escreveu sobre o episódio: “Aos olhos dos russos, eu me tornei um verdadeiro herói, a personificação do bem que triunfa sobre o mal. Eu fui bombardeado com cartas de apoio e simpatia enviadas de diferentes regiões da URSS”.

Mas não parou por aí. O nome de Robinson era frequente nas conversas dos trabalhadores, convidado de honra em diversos eventos públicos, e fama de herói proletário espalhou-se feito um rastilho de pólvora. Em 1934, foi alçado a outro posto, também de forma compulsória: de forma unânime, o elegeram como representante do Soviete de Moscou, um dos conselhos operários mais importantes do regime. Sobre a eleição, declarou mais tarde: “fiquei atordoado e freneticamente pensando: O que eles fizeram comigo? Em que eu me envolvi? Eu sou cidadão americano, não sou político, não sou comunista, eu não aprovo nem o partido comunista, nem o sistema soviético. Eu não sou ateu, e nem mesmo agnóstico, acredito em Deus, oro à Ele e sou fiel apenas à Ele”.

A eleição de Robinson para o soviete despertou a ira das autoridades estadunidenses locadas em Moscou. Acusado de comunista por seus patrícios, foi pressionado a retornar imediatamente aos EUA. Ele até tentou voltar ao país, mas a fama de “agitador comunista” minou qualquer possibilidade de regresso e foi obrigado a permanecer na União Soviética, onde recebeu cidadania russa.

Aqui cabe um parêntese: os Estados Unidos tinham o maior partido comunista do mundo fora da URSS. O presidente Franklin D. Roosevelt, inclusive, era conhecido como “vermelho” devido às políticas estatizantes que encampava. Mas aí veio a Segunda Guerra Mundial e as ideologias assumiram as diretrizes políticas. Então, como caça às bruxas, ser comunista era uma acusação perigosa. Fechado o parêntese, sigamos com o texto.

Garoto propaganda do comunismo, Robinson dava palestras, aulas em universidades, atuou em dois filmes e distribuía autógrafos pelas ruas de Moscou. Mas nem tudo eram flores, ainda mais naquele período agudo do stalinismo. Quando Sergei Miro-novich Kirov, provável sucessor de Stalin, foi executado por rivais, a preferência pelos trabalhadores estadunidenses acabou e a vida dos estrangeiros piorou drasticamente. Além disso, o Grande Expurgo stalinista, entre 1936 e 1938, fez com que muitos conhecidos de Robinson desaparecessem. Temendo mais uma vez por sua vida, decidiu voltar para os Estados Unidos, mas foi impedido pelos comunistas. A fama, ainda que involuntária, cobrou um preço caro do “camarada yankee”.

As cartas que enviava a sua mãe eram abertas, lidas e muitas vezes censuradas. Não tinha contato com familiares, apenas com operários das fábricas que trabalhava e alguns vizinhos. Anualmente, Robinson submetia às autoridades soviéticas o pedido de visto de saída do bloco, mas o pleito era reiteradamente negado. Apenas em 1973, quando conseguiu clemência de alguns embaixadores africanos, recebeu autorização para visitar Uganda.

Aos 67 anos, arrumou as malas e zarpou sem demoras. Em Uganda, solicitou refúgio e foi prontamente atendido pelo ditador Idi Amin. O autocrata tratou diretamente com Robinson, ofereceu cargos na Universidade, cidadania ugandense, moradia e várias outras regalias. Gentilmente, o engenheiro declinou da oferta e expressou seu desejo em restabelecer sua cidadania estadunidense.

Apesar do desejo expresso de retornar ao país natal, permaneceu por alguns anos em Uganda onde se casou com uma professora afro-estadunidense. E, somente em 1986, conseguiu revalidar sua cidadania e obter autorização de reingresso nos Estados Unidos. Quando desembarcou, porém, sua mãe já havia falecido anos antes sem que ele estivesse no funeral. Foi uma das maiores tristezas da sua vida, relataria tempos depois.

Durante os quarenta e quatro anos que permaneceu na União Soviética, Robert Robinson sobreviveu ao stalinismo, à invasão nazista e vivenciou as primeiras décadas da Guerra Fria. Não era comunista, mas contribuiu sobremaneira para modernização do bloco soviético. Deixou os Estados Unidos por causa do racismo e buscando melhores condições de vida. Contudo, mesmo a salvo da Ku Klux Klan, foi obrigado a servir de garoto-propaganda do Partido Comunista para não ser fuzilado por stalinistas.

Odiado por comunistas e desprezado por capitalistas, viveu os últimos anos no ostracismo, sufocado pelo esquecimento, até falecer, em 1994, em um hospital mequetrefe de Washington, D.C.

*Luis Gustavo Reis é professor e editor de livros escolares

*Eduardo Bonzatto é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB)

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