Luis Gustavo Reis
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Colunistas 26/Out/2020 às 11:13 COMENTÁRIOS
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Um contraponto entre Frantz Fanon e Fela Kuti

Luis Gustavo Reis Luis Gustavo Reis
Publicado em 26 Out, 2020 às 11h13
Fela Kuti durante apresentação na França, em 1986. Foto: AP / Laurent Rebours

Eduardo Bonzatto* e Luis Gustavo Reis*, Pragmatismo Político

A morte do espírito é o preço do progresso!
Voegelin

Existe o colonialista, o pós-colonialista, o neocolonialista e o anticolonialista, mas em todos eles resiste o colonialismo. Porque o colonialismo não é apenas o patriarcado, o racismo e o capitalismo, mas é uma forma de ver o mundo a partir do uso do poder e de seus benefícios. Nesse sentido, é uma episteme, um paradigma e uma carta completa de atitudes intelectuais, racionais, práticas. Será sempre um epistemicídio, na medida que nega a voz do outro ao ensinar a ele como deve ser o mundo. Está presente na família, na escola e no trabalho. Abarca todas as formas de afeto e de amor. Compõe-se de solidariedade, compaixão, acolhimento e a boa intenção é seu corolário.

Qualquer teoria só serve para camuflar e reconfigurar sua longevidade. A teoria é seu fundamento, qualquer que seja ela, pois ela é o ensinar de como não ser colonialista. E o ensinar é a colonização da mente. E uma vez que a mente foi colonizada, vai construir mundos de descolonização. E muros de descolonização. E o muro é a forma física da colonização.

A colonização é um conjunto completo de epistemologia, um jeito de ver o mundo e de pensar, um conjunto de teorias e metodologias, enfim, um pacote completo difícil de exumar da nossa existência. Sua tríade é composta por capitalismo, colonialismo, patriarcalismo. Um não existe sem o outro e não é possível erradicar um se não erradicar todos.

O capitalismo comporta formas de sobrevivência material. O patriarcalismo formas de relação intersubjetiva e o colonialismo formas de cientificidade. Nos três casos, só existe heteronomia, ou seja, uma forma exterior ao sujeito para sujeitá-lo. Nunca há espaço ou tempo para autonomia, ou seja, forma íntimas de gerar a própria existência, o pensamento, o sentimento, a vida. Por isso a criatividade é castrada no berço. E em seu lugar assume a disciplina. No tripé colonial está o poder: no capitalismo, o poder funcional pautado pelas representações do dinheiro; no patriarcalismo, o poder representado pelas hierarquias subjetivas; e no colonialismo, o poder do conhecimento.

A charge acima mostra a padronização necessária ao processo de educação colonial. Portanto, acreditar que a educação emancipa é uma falácia. Ela é parte do tripé que conduz o indivíduo ao mundo disciplinar produtivo: a família, a escola e o trabalho. O pai, o professor e o patrão são suas figuras de autoridade que, mesmo quando esta declinar, o ordenamento social prevalecerá pelo empoderamento dos fracos sociais. Então o opressor é o filho, o aluno, o empregado que assume os valores das empresas como colaborador do sistema. Afinal, pouco importa quem assume o poder, pois será ele a ordenar as sociedades coloniais.

A herança colonial mais importante e duradoura é a nação. A nação congrega todos os valores coloniais internalizado pelos colonizados. Eles assumem a tarefa de gerir os despojos sem os inconvenientes da resistência.

A resistência, então, se torna um novo caminho para a colonização depois que a independência se consolida. Resistir é desejar e lutar por novas formas colonizadoras, uma vez que a colonização está internalizada e normatizada.

Um dos maiores símbolos das lutas anticoloniais na América é Frantz Fanon e ele é um exemplo de como a luta anticolonial pode se tornar uma nova forma de colonização.

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Fanon era um intelectual que havia consolidado em suas percepções os valores da civilização. Não havia dúvida nele que a civilização era um fenômeno necessário. Estava imbuído em fazer desaparecer quaisquer vestígios de barbárie.

Havia lido no Espírito das Leis, em que o barão de Montesquieu dizia numa linguagem zoológica: “Esses povos de terras quentes, semi-humanos, com suas mulheres núbeis aos 8, 9 anos e decrépitas aos 20. Com seus sistemas políticos débeis e arcaicos. Ah essa gente da latrina do mundo, com essa latinidade indolente, parteira do caos e sempre na periferia do sistema”, e isso não mais o deixaria descansar, pois estava comprometido em libertar o mundo inteiro dessa ignomínia.

De fato, essa percepção jamais abandonaria a forma com que os pensadores políticos lidam com o tema, pois será a civilização o artifício de longevidade da colonização. O filósofo colombiano Santiago Castro-Gómez, afirma que “o colonialismo não significou primariamente destruição e espoliação e sim, antes de mais nada, o começo do tortuoso, mas inevitável caminho em direção ao desenvolvimento e à modernidade”. Essa é a herança colonial que nenhum anticolonialista deseja erradicar, já que ela significa sempre um mundo de privilégios, ou, seguindo o modelo do pensamento linear e positivo, a melhoria de todas as pessoas do mundo. Afinal, todos têm direito ao que os europeus têm. Ou a que os americanos têm. Ou a que os ricos têm.

Como marxista, Fanon lutava pelos altos valores da civilização: a educação estava na base dessa luta, pois todo seu conhecimento havia sido conquistado em universidades europeias.
Uma de suas frases de efeito que melhor expressam sua posição foi dita a Claude Lanzmann: “Eu pagaria vinte mil francos para falar com Sartre da manhã à noite durante quinze dias”. Sartre foi outro grande pensador anticolonial.

Fanon foi um dos criadores da ideia de Terceiro Mundo e isso já seria suficiente para autenticar seu vínculo civilizador, uma vez que supõe uma luta para chegar ao primeiro. Sua crítica da descolonização, que desumaniza o colonizado para torná-lo um animal, foi igualmente limitada por sua formação. Queria uma nação heterogênea na formação das novas nações independentes. Mas não abdicava da civilização e da nação, que são as características permanentes da colonização. Esse paradoxo é impossível de ser superado pela mentalidade colonial, uma vez que o valor civilizatório é indiscutível e nele o valor da educação, da ciência, da família.

Sua influência hoje nos discursos de decolonialidade é absoluta. Quando se tenta enfrentar os dilemas do patriarcado, do sexismo, da homofobia e do racismo, é a Fanon que buscam. Sua abordagem psicológica do colonialismo anima essas discussões. Além disso, o empoderamento é o combustível dessa busca por justiça e equidade. Fanon, que anseia por civilização e equiparação aos modelos eurocêntricos, e o empoderamento que reconfigura o poder colonial em novas hierarquias são os dois pilares da luta de decolonialidade atualmente por aqui.
Esse é um bom exemplo das camuflagens coloniais. Jamais a barbárie!

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Falemos sobre ela então.

Fela Kuti a abraçou sem pudores. Negou todos os valores coloniais, sem exceção. Foi polígamo e riu das famílias nucleares eurocêntricas. Insultou professores nas salas de aula. Negou as formas capitalistas de produção. Os bestiários da nação foram por ele esquadrinhados.

O que a civilização produz é ordem. Uma forma de ordem que é hierárquica e impositiva. Essa ordem é o fundamento da negação do outro. É, sobretudo, uma forma absolutamente desrespeitosa de expressar sua longevidade. Contra essa ordem que a tudo uniformiza e se impõe só existe o caos. O caos é a imprevisibilidade, a ausência de controle, a aceitação incondicional da vida que flui. O respeito absoluto ao outro, seja ele humano, animal, vegetal, fúngico.

Freud diria que a civilização é uma proibição forçosa da liberdade instintual e do eros, sem a qual o trabalho é impossível. Sem dúvida é um péssimo exemplo de luta anticolonial. Mas é a única que conhecemos. Até hoje os que atacam o racismo ignoram suas atitudes. Ele é aquele de quem não se deve falar.

Sabia perfeitamente que o epistemicídio é o ato de erradicar a barbárie. Já que a barbárie são as formas colaborativas das tribos, em que o papel das mulheres é preponderante, em que as gerações são cuidadas por todos, em que os gêneros são ignorados em favor das solidariedades entre espécies, pois todos são aceito como humanos terra, esse conceito tão estranho ao sabor colonial, sem que os humanos estejam no topo da cadeia alimentar, sem que possam impunemente legislar sobre a natureza que não está a serviço do humano, que é parte dela e nunca um valor “natural” dado pelo especismo eurocentrado.

Barbárie é horizontalidade, por isso é condenada. Os condenados da terra não são aqueles alijados dos benefícios europeus, mas aqueles que viram e veem sistematicamente seus valores serem negados e destruídos pelo pensamento civilizador, pela ciência, pela educação.

Fela Kuti exalta a animalidade, canta seus gritos primais em seus discos e shows, leva seu corpo indócil e incivilizado até as plateias do mundo ocidental. Quer expor a barbárie como um valor político fundamental para a luta que trava. Não se envergonha de sua sexualidade.

Se os termos inerentes ao colonialismo é progresso, evolução, mudança, desenvolvimento, a resistência possível é permanência, estabilidade, os primitivos valores da aldeia e da tribo. É conservador retornar à animalidade, ao primitivismo, aos fazeres coletivos das complexidades, ao fragmento que nega a totalidade. É conservador ignorar as verdades universais. Questionar a autoridade também é conservador. Abraçar as curas ancestrais e ignorar a medicina alopática são atitudes contrárias ao colonialismo.

Essa polêmica não é nova. Anselm Giap, formulou os problemas inerentes da civilização eurocêntrica: “[um lugar] onde os resultados da atividade humana são antagônicos para a humanidade”. E Joseph Wood Krutch: “o que aconteceu com a oportunidade de realização humana prometida pelo ‘controle da natureza’?”. Fela Kuti representa muita coisa que não queremos enfrentar ou admitir. Ele nega esses valores e produz uma crítica de sangue e merda.

Vamos refletir sobre três de seus discos.

Em 1973, lança Gentleman, cuja capa ostenta um macaco em roupas europeias; em 1986, Teacher Don’t Teach Me Nonsense, cujo título já antecipa sua posição diante da educação colonial; em 1989, Beasts of No Nation, seu ponto de vista diante das nações independentes como herdeiras dos valores coloniais.
É preciso capturar Fela Kuti já pela forma intuitiva que compunha. A melhor parte do processo se dava nos shows, na catarse combustiva com o público. O tema era apenas o disparador da orgia criativa que ele fazia fluir através de si circulando entre todos os presentes. Era como se toda a ancestralidade pudesse ser invocada na formação de uma egrégora cujas energias estavam ali, presentes, no convite para a festa do corpo. E o corpo era vasto como poderiam ser as vastidões das histórias dos griots. Sua tradição era a presença, a oralidade, a espiritualidade.

Dizer, portanto, que eram viscerais as suas apresentações não era absolutamente uma figura de linguagem. Verdadeiros rituais coletivos, cuja entronização era o cerne de sua política anticolonial e que lhe custaria muito caro, como à sua família e amigos.

Incendiário, controverso e profundamente contestador, Fela Kuti aceitou a tragédia como a consequência da justa medida de sua inflamação de nigeriano e, sobretudo, de africano. Era uma aparição ancestral gritando na cara dos conformistas e adesistas ao modelo colonial. Era um grito de guerra o seu canto, a sua música. Estava resolutamente ligado à energia inquieta de Lagos, a capital da Nigéria, e seria bem ali que edificaria sua República de Kalakuta.

E a essência de sua república era a autolibertação. Diante dos efeitos do colonialismo, a liberdade teria que ser efetivada como um gesto íntimo da recusa do poder. Essa era a escolha possível e efetiva. O inimigo já não residia na Europa, nem mesmo na nação, mas estava dentro de cada um de nós.

Gentleman fala sobre a mentalidade colonial, relativa à contínua reverência ao vestuário formal ocidental. Diz em certo momento, “eu sei o que vestir, mas meu amigo não sabe / eu não sou um cavalheiro assim! / Eu sou o homem da África original”, sendo que na capa do disco e no cartaz do show, é um macaco que veste as indumentárias metropolitanas. Essas ironias revigoravam de energia o seu público. Uma irreverência que não parecia ter limites em seus ataques.

Sua indisposição com o governo nigeriano foi num crescendo, a quem não poupava críticas como os emissários do poder metropolitano que eram, mesmo muito depois de declarada a independência; até que em 1978, mil militares invadiram seu reduto, onde também funcionava sua gravadora, espancaram Fela e muitas outras pessoas e jogaram sua mãe pela janela, o que acarretaria em sua morte.

A partir da década seguinte seu estilo se agudizava. Em Teacher Don’t Teach Me Nonsense, resgata os estilos musicais tão típicos da África Ocidental, a juju music e o palmwine. E o conteúdo se mantém focado na condenação dos valores coloniais. Dessa vez será a escola o seu alvo: uma das instituições mais emblemáticas da Nigéria e do mundo, convenhamos. Essa escola ocidentalizante centrada nos valores da leitura e da escrita como fundamento da aprendizagem e que está vitalizada até hoje.

No mesmo disco critica a democracia, como outro valor absoluto da metrópole. Democracy, segundo o sotaque nigeriano, tem o som de democraze, que significa “demonstração de loucura”. Fela acusa a continuidade do poder da colonização quando expressa sua relação entre cultura, tradição e política, em que a mentalidade colonial dos representantes do poder expressam e propagam.

Depois de ser libertado de uma de suas muitas prisões, Fela lançou Beasts of No Nation, um furioso libelo contra o poder. Uma das frases mais emblemáticas da música diz: “ah, vamos entrar agora em um outro jogo espiritual subterrâneo”. Como está lidando com a prisão, chama esse mundo de “mundo interior”, enquanto estar fora dela é estar no mundo externo, ou mundo da mania.

Em certo momento, a letra da música se faz ouvir assim: “meu povo é insensato, meu povo é indisciplina” que, ao som de seus tambores e sax, faz balançar os ouvintes, combinando divertida e criticamente comentário político e musicalidade.

Na capa do disco estão Reagan, Thatcher e Botha, que são pintados de forma grotesca, como animais com chifres e presas ensanguentadas. Enquanto a música revela a grandiosidade do seu projeto: “esta revolta trará a besta em nós”, e acusa as ONU de se dignarem a dar às pessoas da África seus direitos humanos…esta revolta trará a besta em nós.

Quando Fela morreu no final de 1997, o funeral lotado destacou o quão amplo seu impacto tinha sido. Como Lindsay Barrett escreveu em uma edição de 1998 da The Wire: “Não é exagero dizer que a memória de Fela sempre simboliza o espírito da verdade para um grande número de pessoas em dificuldades na África e além. Sua música e a consistência determinada com a qual ele desafiou a autoridade e exigiu que ambições e atitudes populares fossem refletidas nos objetivos oficiais da liderança da nação continuarão a criar uma base para desafios radicais à complacência da autoridade”.

Outro comentarista, Iain Chambers, fala sobre a perpetuação do colonialismo sem a modéstia que acomete os intelectuais de sua estirpe: “E se a alienação for um constrangimento terreno, destinada a frustrar o ‘progresso’ introjetado em todas as teleologias? Talvez não haja uma alternativa separada e autônoma à estruturação capitalista do mundo atual. A modernidade, a ocidentalização do mundo, a globalização, são as etiquetas de uma ordem econômica, política e cultural que aparentemente será instalada para o futuro previsível”. Não parece exagero de sua parte.

Pela lógica eurocêntrica, em que se mantém os sistemas heteronômicos, as hierarquias, o poder, o empoderamento, não há como evitar a longevidade colonial mutante e seus dissabores como o racismo e o sexismo, como nos ensina Frantz Fanon. O poder é a essência da herança colonial eurocêntrica e sua manutenção faz animar as estruturas informais da coisificação.

Já Fela Kuti nos inspira a uma autolibertação, pela decisão política de abdicar do poder e estabelecer entre humanos uma convivência respeitosa e autônoma.

*Eduardo Bonzatto é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).
*Luis Gustavo Reis é professor e editor de livros escolares.

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