Aborto

Avó da menina de 10 anos desmaiou após pressão de fanáticos religiosos

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Família da vítima sofreu enorme pressão nos dias que antecederam a interrupção legal da gravidez. Avó da criança de 10 anos chegou a desmaiar após intervenção de grupo que dizia falar em nome de Damares Alves

(Imagem: Shutterstock)

“Um grupo de religiosos que diz ser ligado a Damares Alves foi duas vezes à casa da avó da menina de 10 anos estuprada e grávida para pedir que a idosa se pronunciasse contra o aborto. ‘Queremos salvar o bisneto da senhora’, disseram. A avó chegou a desmaiar”.

A denúncia acima foi publicada pelo jornal Tribuna Online e chegou até o Ministério Público de São Mateus (ES), cidade da menina de 10 anos vítima de estupro.

A Promotoria da Infância e Juventude afirmou que irá investigar o grupo de pessoas que pressionou a família da menina a manter a gravidez.

Com argumentos religiosos e falando em nome da ministra de Direitos Humanos, Damares Alves, o grupo ofereceu à família “juízes do bem” e médicos em troca da menina manter a gestação, fruto de estupro. E ainda pediu que a avó manifestasse oposição à interrupção da gravidez quando fosse questionada.

O grupo foi pelo menos duas vezes à residência dos familiares. Parte das visitas foram gravadas em áudio e vídeo por alguém que estava na casa. Num desses vídeos, em posse do Ministério Público, a avó da criança chega a desmaiar e familiares mandam o grupo embora.

Entre as pessoas, é possível identificar um pré-candidato a vereador que é líder de um projeto cristão no município. Nas redes sociais ele aparece como filiado ao PSL — partido que elegeu o presidente Jair Bolsonaro.

Em um dos áudios, um homem e uma mulher pressionam a avó. “Vão tentar uma liminar para fazer o aborto nela. Então, a gente está querendo evitar que isso aconteça, queremos salvar o bisneto da senhora. Só que eu, mesmo com o projeto, mesmo com o suporte, não tenho força. Mas a senhora tem. A senhora tem a sua voz, eu não sou familiar dela, mas se a senhora se pronunciar contra, olha eu… (inaudível).”, disse o homem que toma à frente do grupo na abordagem à família.

“A gente como cristão está aqui para oferecer essa ajuda, mas essa voz quem pode ter peso é só a senhora, então se a senhora permitir eu gostaria de falar com uma médica aqui pra senhora ouvir o risco que tem esse procedimento que eles querem fazer. E é o quê? É levar ela para induzir um parto normal, tem que aplicar medicação na vagina dela para induzir o parto”, acrescenta o homem.

A avó interrompe a fala e afirma que a menina vítima de estupro é muita nova e muito pequena. Nesse momento o homem oferece ajuda de um corpo clínico.

“Eu tenho um corpo médico, especialista em gravidez de risco, em situação de criança de 10 e 11 anos, isso não deveria ser normal, mas é coisa que acontece com uma certa frequência. Aqui na nossa cidade, que é interior, parece uma coisa absurda, mas nas grandes capitais, no Nordeste, acontece. E essa equipe que eu estou colocando à disposição da senhora é uma equipe especialista, são médicos, ginecologistas, que sabem lidar com esse tipo de situação dando toda a garantia de que fazer o que eles querem fazer agora é mais risco do que levar a gestação à frente e fazer uma cesárea, com anestesia, com tudo, correto. Eu estou aqui falando em nome do projeto mas eu tenho juízes que são cristãos, que são do bem, que estão do nosso lado, eu tenho um corpo de médico inteiro em São Paulo, Brasília”.

“Inclusive eu conversei ontem com a assessora da ministra Damares, só para você saber o nível de informação que eu tenho. Olha onde chegou, à ministra Damares! Então a gente quer que a senhora use a voz que a senhora tem para defender esse bisneto da senhora”, insiste o rapaz.

Na última sexta-feira, o Pragmatismo Político informou que Damares Alves estava pessoalmente envolvida no caos. Relembre aqui.

Após citar a ministra Damares, o diálogo começa a ficar mais tenso e o grupo discute com a família. “Se tem uma alma ali, foi Deus quem colocou”, disse o homem, sendo rebatido por uma mulher que aparenta ser familiar da menina: “Não foi Deus não. Não foi Deus que colocou”.

“Mas Deus permitiu”, interrompeu a mulher que faz parte do grupo fundamentalista que pressionava a família. Ela já tinha dito que a família poderia doar o bebê.

Após esse diálogo, a família encerra a conversa: “Resumindo, a gente não podia nem estar aceitando vocês aqui. A gente está a favor do aborto sim, porque é uma criança gerando outra criança. A gente está correndo atrás de tudo para poder abortar sim. É o que a gente pode falar. Não podia nem estar aceitando vocês aqui. Se ninguém teve acesso ao nome dela (da menina), como vocês estão sabendo?”, questiona a familiar. “É para você ver o que Deus está querendo fazer”, diz o rapaz. A avó passou mal em seguida e foi amparada. O grupo, então, foi embora.

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O promotor responsável pelo caso, Fagner Rodrigues, disse que será investigado quem repassou o contato e o endereço dos familiares para o grupo religioso e possíveis políticos que estariam por trás da pressão aos familiares. Eles podem responder por constrangimento ilegal além de outros crimes, como ameaça. “Trata-se de uma violação de alguém que já está sendo violado, que ofende os direitos humanos”. O procedimento será instaurado nos próximos dias.

Nesta segunda-feira (17), o Centro Integrado de Saúde Amauri de Medeiros (Cisam), no Recife (PE), informou que o aborto legal na menina de 10 anos foi realizado com segurança. Para mais informações sobre o estado de saúde da criança, clique aqui.