Corrupção

Delação atinge Beto Richa e coordenador de campanha de Bolsonaro

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Delator revela que governador Beto Richa pediu caixa dois para comprar o apoio de três deputados federais, entre eles o coordenador da campanha de Jair Bolsonaro no PR

René Ruschel, CartaCapital

Na campanha à reeleição de 2014, o então governador do Paraná, Beto Richa, PSDB, tinha o apoio de uma coligação composta por dezessete partidos. Agora, candidato ao senado, viu encolher o leque para apenas três siglas. A desidratação política de Richa tem razão de ser. Envolvido até a medula em denúncias de corrupção, o tucano vive um período de intensa turbulência.

Citado em duas delações premiadas na Operação Quadro Negro como beneficiário de cerca de 20 milhões de reais desviados da secretaria de Educação do Paraná para sua campanha, viu seu nome voltar às manchetes no último dia 26, com a divulgação de outro depoimento à Justiça feito pelo ex-amigo de viagens internacionais, Mauricio Fanini, nomeado diretor da pasta em seu governo.

Segundo Fanini, Richa teria autorizado a “arrecadar” mais dinheiro para a campanha, via caixa dois. Ainda de acordo com o delator, o tucano justificou o pedido pela necessidade de mais recursos para comprar o apoio de três deputados federais: Ricardo Barros, PP, marido da governadora Cida Borghetti; Alex Canziani, PTB e Fernando Francischini, PSL.

O delator afirmou que, a partir de então, a secretaria de Educação passou a liberar o pagamento fraudulento para as empresas que financiavam a campanha de Richa, mediante a adulteração nos projetos de reformas de escolas públicas.

Fanini relatou o diálogo em detalhes. Disse que, em 2014, numa tarde chuvosa de domingo, recebeu o convite de Richa para jogar tênis no Graciosa Country Club, em Curitiba. Escolheram a “última quadra, onde não havia ninguém”.

Richa teria dispensado os seguranças e motorista para que ficassem aguardando no carro. “No intervalo entre um set e outro, fomos tomar água e ele falou: ‘Olhe, precisamos arrecadar, você precisa arrecadar. Este ano a coisa é bastante brava’. Daí eu falei: ‘Mas eu posso propor alguma coisa diferente para as empresas, posso combinar alguma coisa com eles que possa ser acertado depois, algo nesse sentido, Beto?’”, perguntou Fanini. “Pode, porque eu tenho grandes chances de ser eleito, devo ser reeleito. E aí a gente tem quatro anos depois pra ajeitar a situação dessas empresas parceiras. Pode fazer a parceria que você tiver que fazer”, teria dito o tucano.

Tempos depois, em uma “reunião de trabalho” na casa de Richa, o então governador reiterou a carta branca. “Pode fazer o que tiver que fazer. Faça para arrecadar”. O tucano justificou a necessidade do dinheiro por ter assumido “compromissos enormes” e mostrou uma lista de pagamentos a serem feitos. Em detalhes, deu uma aula de como faz política.

Ele me mostra assim, indignado: ‘Veja aqui o papel, ó. 800 mil tive que arrumar aqui pro Francischini, pro Solidariedade. 2 milhões aqui pro Ricardo Barros’. Ele me mostra assim… os nomes que eu lembro na época. Era 1,5 milhão pro Canziani, pra ter o PTB. E ele falou assim: ‘Então, veja como é isso aqui, entenda como que é a política. Política a gente faz assim ó. Tem que arrumar dinheiro e tudo dinheiro vivo’” contou o delator. Questionado pelo Procurador, Fanini foi enfático ao afirmar que o dinheiro era para “a compra de apoio político”. E reiterou: “tinha que ser dinheiro vivo. Não era nada dinheiro de caixa 1”.

Todos os políticos citados, em nota oficial, negam qualquer favorecimento. Richa reiterou que as “declarações são criminosas e que o ex-diretor quer apenas reduzir sua pena”. Disse que o depoimento é mentiroso e não apresenta provas, além de esperar que a Justiça apure os fatos com rapidez. Alex Canziani, candidato a senador pelo PTB, informou que “não houve nada, não pedi nada e não foi dado nada no que diz respeito ao que está sendo falado. ”

Fernando Francischini, também candidato a senador pelo PSL, ex-secretário de Segurança Pública de Richa, responsável pela autorização do massacre dos professores ocorrido em 2015 e coordenador da campanha de Bolsonaro no Paraná, afirmou que “mais uma vez, às vésperas da eleição, tentam colocar meu nome em um escândalo fabricado, típico ‘Fake News’. Todos sabem quem são os criminosos envolvidos na Quadro Negro. Já entrei com uma ação criminal contra o suposto delator e interpelei todos os citados nesta montagem”.

Ricardo Barros, ex-ministro da Saúde no governo Temer, por meio de sua assessoria de imprensa respondeu que “o deputado rechaça a acusação baseada em ‘ouvi dizer’ e afirma que não houve nenhuma negociação financeira envolvendo o apoio às campanhas eleitorais do ex-governador Beto Richa. As negociações de apoio sempre ocorreram no âmbito político”.

Réu em ações penais e civis relacionadas à Operação Quadro Negro, Mauricio Fanini está preso desde setembro de 2017.

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