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The Walking Dead e os condomínios: uma comparação necessária

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O que a série The Walking Dead nos ensina sobre a estratégia dos condomínios fechados no Brasil

Rita Almeida, Jornal GGN

Sou uma aficionada pela série americana The Walking Dead, que retornou neste final de semana na FOX, para sua 8ª temporada. Para quem não acompanha, trata-se de uma adaptação, para a TV, da obra homônima dos quadrinhos. O enredo é protagonizado por um grupo de pessoas que tenta sobreviver após um apocalipse zumbi. Todavia, a luta cotidiana pela sobrevivência e as cenas de suspense ou terror são apenas pano de fundo para o que é mais interessante na série: o desenrolar de como os sobreviventes vão tentando lidar com o mal-estar que está colocado – no caso, a ameaça zumbi – e que implicações éticas isso desencadeia.

No cenário apocalíptico de The Walking Dead, o mal-estar está muito bem circunscrito e definido, são os zumbis, muito facilmente identificáveis por suas roupas maltrapilhas, seus corpos cadavéricos e seus andares claudicantes. Resolver o mal-estar também é algo relativamente simples: atirar, esmagar ou furar seus crânios. Talvez, isso explique o grande sucesso da série no mundo todo: o fato de experimentarmos com ela relativo conforto, já que, de certa forma, a vida dos sobreviventes da ficção é muito mais simples que a do nosso mundo real, afinal, ao contrário de nós, eles já têm identificados tanto o mal-estar quanto a solução para ele.

Mas, o que me aparece genial na série é que, à medida que as temporadas vão avançando, fica cada vez mais evidente que os zumbis não são o maior problema. Para o grupo de sobreviventes que protagoniza a série, mesmo num mundo infestado por zumbis, a ameaça mais cruel e perversa vem de outros viventes. É a maneira como alguns grupos e indivíduos vão lidar com o mal-estar instalado, que se torna a maior ameaça.

Nesse sentido, as questões éticas evocadas são muito interessantes, afinal, diante do caos e da necessidade de sobreviver, chega-se a um limite, aquele que vai definir quais viventes vão conseguir se manter dentro do espectro ético que definimos como humanos. E exatamente aí se evidencia o conflito trabalhado na obra, porque enquanto os zumbis – os mortos-vivos – são facilmente identificáveis e elimináveis, os vivos-mortos, não, o que faz desses últimos mais temíveis e perigosos. Os vivos-mortos são aqueles que mesmo estando entre os sobreviventes, estão mortos de certa forma, mortos para uma ética compartilhada que caracterizaria aquilo que chamamos de humanidade. Os vivos-mortos são aqueles que não se tornaram zumbis, mas, mesmo assim, perderam grande parte de sua humanidade.

Isso nos faz pensar que a humanidade, aquilo que nos enlaça a uma comunidade, não é algo dado a nós junto com a existência. Enquanto o lobo nasce lobo, e será lobo até o fim, nós não nascemos humanos. Tampouco a humanidade está garantida depois de conquistada, porque não é um dado biológico, é uma construção no campo do simbólico e, como tal, pode se perder. A humanidade não é algo natural para os seres humanos.

Mas, quero tratar aqui é do modo como os diferentes grupos lidam com o mal-estar instalado a partir do apocalipse zumbi. Certos grupos ultrapassam alguns limites éticos compartilhados, alguns criam novos códigos de conduta próprios, há os que se esforçam por preservar os limites éticos anteriores ao apocalipse, e outros, ainda, os perdem significativamente, vivem quase como animais.

A partir da 5ª temporada dois desses grupos vão se cruzar. Ambos optaram por manterem preservados os limites éticos humanos, mas, cada um de uma maneira diferente. O grupo que protagoniza a série – liderado pelo ex-policial Rick – opta pela estratégia de, eventualmente, se proteger em algum tipo de espaço circunscrito, quando isso é possível e necessário, todavia, também está sempre se movimentando, buscando novos caminhos e enfrentando “o mundo lá fora”, aquele que está infestado de zumbis. Já o outro grupo, que aparece no final da 5ª temporada, criou no meio do caos uma cidade completamente murada: Alexandria. Em Alexandria tudo deve funcionar como funcionava antes dos zumbis; é uma espécie de oásis. Assim sendo, o recurso utilizado pela comunidade de Alexandria para lidar com a realidade é evitá-la ao máximo, criando uma redoma para si.

É impossível não comparar Alexandria com os condomínios fechados, tão comuns nas cidades brasileiras, especialmente nos centros maiores. Os condomínios surgem, também, nessa tentativa de criar uma redoma de proteção contra a realidade violenta e insegura.

Voltemos a The Walking Dead. Há um momento em que o grupo liderado por Rick encontra a comunidade de Alexandria e, de certa forma, é acolhido por ela. A partir disso, fica evidente a diferença entre o modo de lidar com a realidade de cada um dos grupos. Enquanto o primeiro grupo lida com a realidade de modo a enfrentá-la e se relacionar com ela, o segundo prefere criar uma espécie de mundo paralelo, que faz de tudo para rejeitar e negar a realidade. Para retratar tal diferença, citarei um diálogo muito interessante entre Rick e o marido da líder de Alexandria, o arquiteto Reg – responsável pelo projeto do muro em torno da cidade. No diálogo, Rick elogia Reg, afirmando que ele fez um belíssimo trabalho em seu projeto de cercar a comunidade. Mas Reg responde que foi Rick quem fez um trabalho incrível lá fora, liderando seu grupo para sobreviver em meio ao caos.

– O que eu fiz foi apenas um muro – finaliza Reg.

Reg tem toda razão, a meu ver. Um muro é apenas um muro, não pode ser considerado um grande feito, em se tratando de resolver nossas mazelas. Criar muros para cercar aquilo que nos causa mal-estar, não tem sido uma estratégia de sucesso ao longo da história. Fizemos isso com os loucos (em menor medida ainda fazemos), fazemos isso com os criminosos, e em nenhum dos dois casos temos tido o sucesso esperado, ao contrário.

Já com os condomínios fechados, parece que a ideia seja colocar a nós mesmos entre muros, na ilusão que poderemos deixar a ameaça do lado de fora. Entretanto, se existe um modo fracassado para lidar com o mal-estar que nos assola, é aquele que sempre o evita e rejeita. Criar um mundo fictício, murado, privado dessa relação com o mundo real – ainda que este seja cruel e ameaçador – não nos tornará mais eficientes e capazes de lidar com ele, ao contrário, só nos fará cada vez mais frágeis e impotentes diante do mesmo.

Voltando à série, temos uma fala de Carl – filho adolescente de Rick – que, em poucos dias morando em Alexandria, repara e comenta com o pai:

– Eles são fracos.

O rapaz está correto. A cidade sitiada cumpre a função de proteger seus moradores, mas, por outro lado produziu humanos frágeis, débeis, incapazes de lidar com a realidade de onde Carl veio. Carl, por outro lado, se tornou um rapaz extremamente forte, vive no apocalipse desde a infância, foi educado nele e para sobreviver a ele.

E é claro que a estratégia usada por Alexandria tem duração limitada. O apocalipse zumbi continua em marcha do lado de fora, e não há o que fazer quanto a isso. Por mais que se evite e rejeite o mal-estar, em algum momento, ele irá atravessar os muros e invadir a realidade, e é exatamente isso que acontece na série. Por isso, a estratégia dos muros é sempre ruim, pois além de não resolver o problema, ainda debilita e fragiliza os que ficaram ali cercados. Enquanto o grupo liderado por Rick se teceu e se fortaleceu criando estratégias para lidar com a realidade zumbi, os moradores de Alexandria se alienaram em sua redoma. Sendo assim, quando a realidade chegar – e obviamente que ela chegará para todos – nós sabemos exatamente quem terá mais condições de lidar com ela.

Todavia, assim tem sido a estratégia que temos utilizado para lidar com o mal-estar das grandes cidades, especialmente no que toca à violência. Nos cercamos em condomínios, certos de estarmos seguros em nosso oásis belo e feliz. Entretanto, tal ilusão tem seus dias contados, afinal, o mundo do lado de fora continua em marcha. Fechados em suas bolhas os “cidadãos de bem” acreditam estarem a salvo do mundo “contaminado pelo mal”, e assim, não precisam se dar ao trabalho de lutar ou intervir lá fora. A estratégia dos condomínios está produzindo pessoas cada vez mais alienadas em sua relação com o mundo, incapazes de tomar a cidade, a política e os espaços públicos como de sua responsabilidade. Além disso, sob o prisma dos condomínios, o outro é sempre tomado como estranho, perigoso e ameaçador.

Mas será que não haveria outra forma de lidar com os mal-estares das nossas cidades que não seja simplesmente padecendo deles ou nos alienando em nossos condomínios?

Em The Walking Dead, o grupo protagonista escolheu lidar com mal-estar enfrentando-o, se movimentando, criando laços e inventando estratégias, tudo isso sem se furtar aos embates necessários. Obviamente que, tais embates, não se fazem sem perdas e danos, mas, por outro lado, é isso exatamente que vai fortalecendo e tecendo um certo estilo do grupo para lidar com seu mundo decadente. Alexandria, por sua vez, do modo como foi idealizada, teve seus dias contados. Cumpriu, apenas por algum tempo, a função de isolar e proteger seus cidadãos entremuros, e, além disso, fez deles sujeitos débeis e frágeis para lidar com o mundo real.

Talvez, nós já estejamos vivendo os reflexos da debilidade que a cultura dos condomínios tem produzido em nossa sociedade, quer seja, um descolamento cada vez mais frequente das pessoas da noção de cidadania. Ser cidadão seria compreender que a cidade é de responsabilidade de todos, afinal, ela não será boa para mim e o que me é familiar, se também não for boa para muitos, inclusive para os que eu considero estranhos.

Concluindo, não trataremos das mazelas da nossa civilização cuidando apenas dos jardins e dos muros dos nossos condomínios. Aliás, o mosquito transmissor da dengue está aí para não deixar que a gente se esqueça disso, não é? Mas, isso já é tema para outro texto…

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