Categories: Mulheres violadas

Médico expulso de programa da Globo por agredir participante tenta se explicar

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Cirurgião plástico se defende depois de agredir jovem de 20 anos em programa global. Após pressão das redes sociais, episódio virou pauta até no Jornal Nacional

O cirurgião plástico Marcos Harter agrediu a participante Emilly e foi expulso de programa global

O médico Marcos Harter, 37, foi expulso do programa Big Brother Brasil, da TV Globo.

A delegada Viviane da Costa, da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM) de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, visitou a casa onde se reúnem os participantes e concluiu que houve agressão de Marcos contra a jovem Emilly Araújo, de 20 anos.

Nesta terça-feira, 11, o cirurgião plástico divulgou um pequeno pronunciamento sobre sua expulsão do atração. Em sua defesa, ele afirmou que jamais teve a intenção de machucar Emilly.

“Como todo casal, passamos por momentos de alegria, ansiedade, euforia e tensão. Jamais tive a intenção de machucar física ou emocionalmente uma pessoa pela qual nutri tanto carinho e afeto. O programa tem um formato destinado a levar o nosso emocional ao limite, e, consequentemente, os nervos à flor da pele. Repito: jamais tive a intenção de machucá-la ou agredi-la, estou surpreso com tudo o que está acontecendo. Peço desculpas a todos os envolvidos, Emilly, sua família, demais participantes e a todo o Brasil”, escreveu.

Minutos antes do programa, a emissora carioca divulgou nota afirmando que Emilly seria submetida a um exame clínico, realizado por um médico da emissora, para avaliar a possibilidade de ter havido lesão corporal.

Caso seja constatada lesão, Marcos Harter pode ser enquadrado na Lei Maria da Penha e até ser preso.

Antes da expulsão do médico, milhares de pessoas nas redes sociais pressionaram a Globo para que não se omitisse diante das agressões do médico. Por esta razão, o episódio virou pauta até no Jornal Nacional.

No principal telejornal da emissora, William Bonner e Renata Vasconcelos afirmaram que a Globo ‘repudia completamente’ todos os tipos de agressão contra as mulheres.

Delegacia

Marcos Harter é aguardado na Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) para prestar depoimento nesta quarta-feira (12).

A coordenadora das Delegacias de Atendimento à Mulher, delegada Márcia Noeli, afirmou que ele será ouvido e questionado sobre os episódios que estão sendo apurados.

“Nós o aguardamos amanhã para que ele preste depoimento sobre o caso, saber o que ele vai dizer, vamos perguntar o que aconteceu, sobre os episódios que estamos analisamos e vamos ver o que ele vai responder”, afirmou Márcia Noeli.

Ainda de acordo com a delegada, após esse compromisso, Harter está liberado para voltar para Sorriso, no Mato Grosso, cidade onde mora. Na quarta-feira (12), as fitas com a gravação do programa também serão analisadas.

‘Cegueira’ diante de abusos

Depois da expulsão de Marcos, as declarações de Emilly indicaram que ela não se reconhecia como vítima de um relacionamento abusivo.

De acordo com a professora de psicologia do IFRJ Jaqueline Gomes de Jesus, o comportamento da estudante é bastante comum.

“A dificuldade acontece até com mulher que é ameaçada com faca, com arma de fogo. É comum se ouvir: ‘Ah, ele me ama, só estava irritado’. É uma distorção da realidade”, afirma a especialista.

Relacionar comportamentos como o de Marcos com violência também é difícil porque, em geral, começam gradativamente. “Vão acontecendo permissões sutis”, fala Jaqueline. Começa com pressão psicológica, gritos e ofensas, que viram empurrões, beliscões, até que formas mais graves de violência aconteçam.

De acordo com a juíza Teresa Cristina Cabral Santana Rodrigues dos Santos, integrante da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Poder Judiciário do Estado de São Paulo, relacionamentos abusivos iniciam-se, em geral, com violência psicológica.

“Primeiro, o homem diz ‘você não pode isso ou aquilo’. E até a violência física começa aos poucos. Um dedo em riste, um chacoalhão, para depois chegar em chutes e socos”, declara Teresa Cristina.
O fato de Emilly encarar de forma “natural” o que aconteceu com ela tem explicações variadas. Há um componente pessoal que só se pode esclarecer ao se conversar com a pessoa sobre sua história de vida, mas há outros culturais.

“O primeiro ponto é que a sociedade atual banaliza a violência, por isso um apertão ou um chacoalhão podem não ser considerados agressões físicas. Esse tipo de percepção vem de homens e mulheres”, fala Jaqueline.

A cultura do “príncipe encantado” também colabora para essa “cegueira” em relação à violência, na opinião da professora. “Como existe a ideia de que a mulher só se completa em um relacionamento, a ideia de que ela tem de perdoar, de que o homem vai melhorar um dia, é reforçada.”

com informações de UOL

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