Barbárie

Vídeo de travesti torturada até a morte ajudou a solucionar crime

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Dandara foi torturada e morta por 5 homens em Fortaleza. Ela chora, enquanto eles riem. O crime bárbaro motivado por preconceito ficaria no anonimato caso o vídeo que registra a ação não tivesse se tornado público

O assassinato de Dandara estaria no anonimato caso o vídeo do crime bárbaro não tivesse sido divulgado

A travesti Dandara, 42, foi torturada até a morte por cinco homens em Fortaleza no dia 15 de fevereiro, mas o crime só chamou a atenção das autoridades no último dia 4 de março, quando um vídeo do espancamento foi divulgado e viralizou nas redes sociais.

No vídeo com pouco mais de um minuto, a vítima aparece recebendo chutes e tapas e sendo agredida com um pedaço de madeira. Ela sangra.

“Suba, suba! Não vai subir, não?!”, gritam agressivamente três homens, que aparecem no início do vídeo, enquanto Dandara, sentada ao chão, mal consegue se mover. Eles querem que ela suba num carro de mão enferrujado. Ela chora. “Sobe logo! A ‘mundiça’ tá de calcinha e tudo”, zomba outro que filma.

As imagens fortes já foram amplamente difundidas na internet e Pragmatismo Político julga não ser necessário divulgá-las novamente.

Depois que o vídeo se tornou público, até o governador do Ceará, Camilo Santana (PT), manifestou-se nas redes sociais para cobrar a elucidação do caso.

Moradores do Conjunto Ceará, onde Dandara morava, disseram que ela era figura carismática no bairro, frequentadora do Polo de Lazer. Eles lembraram que o crime só foi levado a sério depois que o vídeo se tornou conhecido.

Amigos da vítima denunciam que a polícia foi acionada por uma testemunha no momento em que Dandara era espancada, mas a viatura nunca chegou.

A irmã de Dandara, Sônia Maria, relatou que a irmã era muito querida por todos e não deixava de fazer um favor sequer para as pessoas. Sônia afirmou que Dandara sempre era vítima de preconceito.

“Ela nunca dizia um não. Ela podia estar cansada, mas era sempre prestativa. Para onde a gente pedia para ela ir, ela ia. Ela nunca dizia um não. Sobre os preconceitos, ela foi para o Bairro Jurema e uns cara bateram nela. Ela foi até para o hospital”, disse.

Ao jornal cearense O Povo, a pesquisadora de gênero e sexualidade Helena Vieira afirmou que histórias que envolvem agressões contra travestis têm múltiplos contextos. “Às vezes é violência puramente de ordem transfóbica. Mas a marca do ódio é grande. Sempre inclui tortura, espancamento, esquartejamento”.

Para o delegado Bruno Ronchi, que conduziu as investigações, o crime foi movido por homofobia. “Foi levantada outra hipótese, mas teve a homofobia. A causa e a continuidade das atitudes foi homofóbica”.

Bruno, no entanto, diz que a viralização do vídeo foi prejudicial para as investigações. Em contraposição ao comentário do delegado, fica a pergunta: será que se as imagens não tivessem sido amplamente divulgadas, despertando o choque e a cobrança por parte da opinião pública, os criminosos já estariam presos?

Quatro homens que participaram do assassinato de Dandara foram detidos na tarde desta terça-feira (7). As prisões ocorreram justamente no momento em que as manifestações populares, de artistas, de políticos e de ativistas ligados aos direitos humanos atingiram o ápice.

Dandara não foi a primeira e nem será a última. Com 600 mortes motivadas por transfobia em seis anos, o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo.

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