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Refúgio, exílio e sociedade

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Soraya Smaili*

O mundo vive hoje um turbilhão de sentimentos e reações no que diz respeito aos refugiados. Trata-se de uma enorme tragédia humana a que temos assistido pela TV do conforto de nossas casas. Todos os dias grandes contingentes de pessoas tentam cruzar terras e mares, sob o sol e sob a neve.

Imagens dramáticas têm sido mostradas, são famílias inteiras, jovens, crianças e idosos chegando a algum ponto da Europa para buscar um lugar supostamente mais seguro para viver. Embora os refugiados da Turquia, Síria, Irã e Afeganistão, entre outros, tenham ganho maior destaque, existem ainda os refugiados africanos e também os latino-americanos. Dentro da América Latina, vemos grandes migrações e a marcha de pessoas que buscam o refúgio, mas que terminam em uma espécie de exílio. O que surpreende é que até mesmo entre nós, latinos, herdeiros dos mesmos processos colonizadores, verificamos a discriminação e a falta de solidariedade.

O Brasil, que sempre se destacou por sua capacidade de acolher diferentes culturas, apresenta uma das sociedades com maior diversidade. Podemos afirmar nossa capacidade de lidar com o multiculturalismo com bastante naturalidade, embora a questão seja ainda tratada de maneira superficial. Por outro lado, o preconceito existente, que antes se disfarçava, deixou de ser tímido e passou a se manifestar de forma aberta e hostil.

Comparados a outros países, não recebemos um número elevado de refugiados, e a maioria da sociedade brasileira aceita-os, acreditando que é possível fazer algo para ajudá-los, mesmo diante do momento crítico da economia e da política.

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Chama-nos a atenção as iniciativas de solidariedade. Esta apresenta-se de forma objetiva e é praticada por jovens estudantes de nossas universidades. Com a cabeça aberta e o respeito ao diferente, muitos deles manifestam uma visão de mundo que permite acreditar em transformações sociais de base.

Vários exemplos poderiam ser mencionados. Entre eles, destacamos os estudantes do curso de Letras da Unifesp, que criaram um projeto para o ensino da língua e da cultura brasileiras aos refugiados de vários países; e os estudantes da PUC e USP que atuam junto aos refugiados no centro da cidade, buscando condições de moradia e de trabalho. Em nível institucional, a Unifesp e a UFABC fundaram a Cátedra Sérgio Vieira de Mello, que promove o ensino e a difusão do direito internacional dos refugiados, além de atendê-los diretamente. Todos, com sua criatividade e despojamento, nos ensinam entusiasmados que é possível fazer a diferença.

O problema dos refugiados é um problema da humanidade – e, portanto, nosso também. Há muito a fazer, e uma parte depende também das políticas dos diferentes governos. Precisamos criar alternativas, discutir e mostrar a realidade, desfazer estereótipos e criar um campo fértil para os que querem atuar nessa área. De nossa parte, porém, devemos conhecer, abrir o debate e a reflexão sobre o tema e, principalmente, agir com toda nossa força para eliminar as diferentes formas de injustiças que vivemos todos os dias.

*Soraya Smaili é reitora da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP.

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