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Por que uma mulher “promíscua” e “vulgar” merece tanta atenção?

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Mulher, negra, periférica, sem nenhuma instrução acadêmica e facilmente confundida com uma travesti, Inês Brasil é o tipo de indivíduo que tinha tudo pra dar errado. Reúne em sua figura um misto de minorias marginalizadas por nossa sociedade medíocre

Paulo Dendê, via Facebook

“Por que uma mulher baixa, promíscua e vulgar merece tanta atenção? Por que vocês acham graça e repercutem idéias de uma figura tão grotesca?”.

Quem tá chegando agora e esbarra na imagem da Inês realmente não tem muito subsídio pra achá-la positiva. Mas quem se deu ao trabalho de ir um pouco além sabe que a análise sobre ela é mais complexa.

Mulher, negra, periférica, sem nenhuma instrução acadêmica e facilmente confundida com uma travesti, Inês Brasil é o tipo de indivíduo que tinha tudo pra dar errado. É um caldeirão de minorias que são marginalizadas na nossa sociedade medíocre.

Carrega nas costas os preconceitos sofridos por todas as classes citadas acima, e que mesmo indiretamente, se identificam com ela. Logo, falar da Inês e do que ela se tornou também é falar de representatividade.

Quando apareceu na internet com um vídeo de inscrição pra reality show, era só mais uma personagem apelativa, das quais nascem e morrem todos os dias.

Ver alguém quase nu pregando princípios religiosos realmente soa como uma caricatura, uma piada: um personagem.

Mas com o passar do tempo, a gente foi vendo que não era bem assim.

Depois de vários vídeos que reforçavam a ideia de que ela era algo programado, foi submetida a um quadro onde os protagonistas sofrem uma série de ataques gratuitos e propositais, sem saber que estão sendo gravados (Telegrama Legal).

Falando especificamente sobre ele, 90% dos “testados” realizam exatamente o mesmo ciclo: ultraje, instabilidade emocional e descontrole, até que a “brincadeira” é revelada.

Os que escolhem não partir pra agressão não podem ser considerados “animais indefesos se debatendo”.

Quase todos, ao se verem destratados, se tornam agressivos. Mas ela não.

Pra surpresa de muitos, ela se manteve fiel aos princípios que seu suposto personagem pregava: compreensão e amor ao próximo (aliás, não é sobre isso que falam a maioria das religiões?).

O que nos levou a concluir que ela não era um personagem.

Sim, essa união cômica entre o sagrado e o profano, essa máquina fabricante de pérolas intermináveis é de verdade.

Foi a partir daí que uma grande parcela das pessoas, mesmo que inconscientemente, passou a admirá-la.

Inês Brasil é admirada pelo talento musical divergente que tem? Claro que não.

É admirada por difundir a vulgaridade andando seminua e falando baixarias? Obviamente não.

A singularidade da Inês é encontrada na forma divertida, cômica, e principalmente autêntica, que ela encara a vida.

Vida essa que tinha tudo pra ser um poço de amargura.

Desafio qualquer um a se prostituir por oito anos, em um país e cultura que não são os seus, chegando a “trabalhar” até 20 horas por dia (como ela afirma em uma entrevista).

O sexo se torna tão banal que você provavelmente veria o corpo humano como uma peça de carne coberta por tecidos (quando vestido).

E a sua relação com o mundo?

Certamente perderia um punhado de parâmetros sociais quando o assunto fosse pudor.

Essa é a origem muito provável da sua hipersexualização. Que inclusive, feita com muita consciência (quem acompanha sabe que ela é ciente do desconforto que causa, mas exibe o corpo como um troféu).

Por não possuir formação intelectual, muitas vezes não tem suporte pra construção de argumentos consistentes. Daí a inferir que ela porta distúrbios mentais é muita prepotência.

Sabemos que não é na inteligência que ela agrega.

É aplaudida, sim, simplesmente pela genialidade de ser, sem a pretensão de ser.

É adorada por ser real. Quem já foi em algum show sabe que ela não é tratada como boba da corte, e sim como rainha. Por quê?

Sabe aquele parente querido, que resolve se aventurar no ramo artístico, e você, mesmo sabendo que ele possa não possuir tanto talento, apoia só por saber que é importante pra ele?

Pois é.

O fato é que a Inês já é querida por muitos de nós, e apesar da carne “não pura”, possui um coração que certamente é.

Não conseguir enxergar que ela tem bem mais a oferecer que um par de próteses e um arsenal de bordões, é muita limitação.

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