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O mundo todo quer saber o que pensa Nouriel Roubini, menos a mídia brasileira

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Por que a mídia brasileira desprezou a visita de um economista mundialmente cultuado como Nouriel Roubini ao Brasil? Burrice coletiva, ou Roubini não está falando as coisas que as empresas jornalísticas gostam de ouvir e transmitir a seu público?

Nouriel Roubini (Foto: Moritz Hager)

Paulo Nogueira, DCM

Nouriel Roubini é o que existe de mais próximo em celebridade no campo dos economistas. Em Davos, poucos dias atrás, ele estava sempre cercado de jornalistas. Um vídeo em que ele fala sobre a economia americana com um jornalista da Bloomberg viralizou.

Todo mundo quer saber o que Noubini, iraniano radicado nos Estados Unidos, pensa. Por fortes razões. Credita-se a ele ter percebido, em primeiro lugar, o colapso econômico de 2008, do qual até hoje o mundo não se recuperou.

Tudo isto posto, Roubini esteve no Brasil, para uma palestra promovida ontem pelo banco Credite Suisse, e foi desprezado pela imprensa nacional, num momento em que só se fala de economia. Burrice coletiva? É sempre uma possibilidade, mas a explicação mais plausível para a mídia ignorar um economista com as credenciais mundialmente reconhecidas como Roubini é a seguinte.

Roubini não está falando as coisas que as empresas jornalísticas gostam de ouvir e transmitir a seu público – ou a suas vítimas, numa linguagem mais franca. No encontro oferecido pelo Credite Suisse, Roubini disse que vê com “otimismo cauteloso” o governo Dilma neste começo de segundo mandato.

Ora, mas não está tudo errado? O apocalipse não é uma questão de horas, conforme os donos da mídia e seus porta-vozes dizem, repetem, berram? Roubini rechaçou também comparações entre o caso brasileiro e o venezuelano. Não, disse ele, o Brasil não está se tornando uma república “bolivariana”, na acepção sinistra que a imprensa dá à palavra.

Gênios como Míriam Leitão, Carlos Sardenberg e Rodrigo Constantino – perto dos quais o que é Roubini? – monopolizam os microfones que são negados, no Brasil, a Roubini. Assim funciona a mídia brasileira. Você pega uma nulidade como Marco Antônio Villa e tenta transformá-lo em referência em política, economia, história e o que mais for. Você lhe dá espaço em jornais, revistas, tevês. Basta que ele diga as coisas que diz. É um entre múltiplos casos.

Roubini não serve – a não ser que preveja o colapso brasileiro. Aí você o verá nas páginas amarelas da Veja, no Roda Viva, nos programas da Globonews.

Do ponto de vista internacional, Roubini tem dito coisas abominadas pela mídia. Em Davos, ele disse que os Estados Unidos vivem um regime de plutocracia – o governo dos ricos – e não democracia.

Com as doações milionárias a políticos em campanhas, disse Roubini, os ricos americanos acabam influindo decisivamente nas leis O povo? O povo que se dane. Está aí, segundo ele, o principal fator do crescimento da desigualdade nos Estados Unidos.

Ele apoiou a intenção de Obama de taxar mais a plutocracia e diminuir a carga dos demais. No Brasil, a semelhança é desconcertante. As doações milionárias de empresas dão no que dão.

Para piorar, um ministro do STF, Gilmar Mendes, se julga no direito de segurar um projeto sobre o tema por um ano – sem dar satisfações a ninguém.

“Bolivarianamente”, ele usurpa funções legislativas que não lhe cabem. Gilmar Mendes chegou ao STF mediante um único voto: o de FHC. Tudo somado, é melhor esquecer que Roubini existe e está no país – pelo menos na ótica torta e viciada da mídia brasileira.

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