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FHC, quem são mesmo os ignorantes e mal informados?

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A FHC é oportuno perguntar: os eleitores de Aécio que migraram para Marina após a morte de Campos e, depois, retornaram ao candidato tucano, estavam bem ou mal informados? E os intelectuais que votaram em Dilma: são ignorantes ou esclarecidos? E quando o senhor, em 1989, declarou voto em Lula no 2º turno, estava bem ou mal informado?

Independentemente da disputa que ocorre em seu âmago, entre o FHC político e o FHC sociólogo, o que se espera é que, em seus pronunciamentos, não desrespeite os mais humildes (Imagem: Pragmatismo Político)


Luiz Soares Neto, Pragmatismo Político – ALE

Para depreciar a presidente Dilma Rousseff, o sociólogo e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso afirmou que quem vota preferencialmente em Dilma não é porque seja pobre e sim devido a ser mal informado. E ele, até certo ponto, está coberto de razão. Se a maioria dos que aprovaram o governo Dilma (batendo todos os recordes de popularidade) até antes das manifestações populares de junho de 2013, fosse, de fato, bem informada, não a teria abandonado influenciada por aquela onda toda afiançada pela mídia durante todos os horários, inclusive o nobre.

A verdade é que FHC, para fazer média com os pobres (os excluídos sociais), veio com essa de “mal informados”. A emenda ficou pior do que o soneto, principalmente em se tratando de um homem que se orgulha de ser cientista político. Em várias ocasiões, enfatizou que prefere ser identificado como sociólogo e não como político. Todavia, desde que se tornou presidente da República pensa, se pronuncia e age como um político, e dos mais convencionais. Ao fazer declaração tão polêmica, ele, sem dúvida, jogou para a sua plateia, quer dizer, disse o que os tucanos queriam ouvir. Porém, no fundo, ele sabe que a coisa é bem diferente do que imaginam os bem ou mal informados.

Ninguém, por mais culto que seja, está tão bem informado assim acerca da maioria dos temas que envolvem a engrenagem das sociedades. O antropólogo Darcy Ribeiro dizia que não reconhecia na Economia uma Ciência, uma vez que não há convergência em torno de uma concepção; cada economista valida uma versão diferente dos aspectos em questão. Por sinal, é em relação a lances da economia que a imprensa faz sua permanente manipulação em prol dos seus interesses. O melhor exemplo é o que ocorre na atualidade, em plena campanha política, quando a mídia prega o debacle econômico do país, ao passo que, na realidade, todos sabem que as dificuldades existem, como em todos os governos, mas que grande parte da população tem ciência de que o terrorismo em cima da inflação é mera arma eleitoral.

A estabilidade da economia não é uma conquista apenas do PMDB, do PSDB e do PT, mas, também, de todos os brasileiros que, exaustos, pressionaram para que viesse uma solução; e ela veio.

Anunciar a desarrumação na economia não é algo novo no repertório de ações do PSDB (e aliados) e da imprensa retrógrada. O primeiro governo Lula precisou de um ano para acalmar os investidores internacionais agitados pelos bicos e pelas altas plumagens dos tucanos.

A Fernando Henrique Cardoso é oportuno perguntar: os eleitores de Aécio Neves que rapidamente migraram para Marina Silva logo após a morte de Eduardo Campos e, depois, na reta final do primeiro turno, retornaram ao ninho tucano: eles estavam bem ou mal informados? E os intelectuais, muitos dos quais estudiosos da cena política, como o senhor, que votaram em Lula e passaram a votar em Dilma: são ignorantes ou esclarecidos? E quando o senhor, em 1989, juntamente com Franco Montoro, Mário Covas, Tasso Jereissati, Ulysses Guimarães, Orestes Quércia, Leonel Brizola, Miguel Arraes, Jarbas Vasconcelos, Roberto Freire, Luiz Carlos Prestes e outros nomes de destaque da política nacional declararam publicamente o voto em Lula no segundo turno contra Fernando Collor de Mello: todos estavam bem ou mal informados?

Perguntas a parte, naquele contexto muitos dos que ficaram com Lula o fizeram por exclusão, falta de opção, já que ficaram encurralados entre um legítimo representante do povo (ainda inexperiente, é certo) e outro que se proclamava o agente renovador que o Brasil precisava e pedia, mas que não passava de um “filhote da ditadura” (como o chamava Brizola) disfarçado de democrata. Como, naquele tempo, FHC nem sonhava em ser presidente da República (era inimaginável projetar as circunstâncias que o levaram a cair de paraquedas no momento crucial do último tiro – o Plano Real – contra a inflação, no governo Itamar Franco), seria bem possível que, se Lula tivesse sido eleito, ele liderasse uma corrente de apoio sistemático ao governo petista, até mesmo o protegendo contra a possibilidade de um golpe para tirá-lo do cargo. Àquela época, o sociólogo, certamente, já havia feito releituras da sua ideologia, pois quase foi seduzido por um convite que Collor fez ao PSDB para participar do seu governo, oportunidade em que Mario Covas se impôs e cortou pela raiz qualquer pretensão tucana de aderir ao projeto collorido. Fernando Henrique recusou – até encabulado -, contudo, no referido episódio, ficou evidente sua guinada à direita, que seria confirmada com a parceria – já histórica – que fez com que o DEM (ex-ARENA, PDS e PFL) de Antônio Carlos Magalhães, José Agripino Maia e outros.

Após o banho de poder que tomou como presidente da República durante oito anos, FHC elevou sua vaidade a patamares exagerados para um homem da sua estirpe. A raiva demonstrada contra Lula, Dilma e o PT não condiz com a tranquilidade e a segurança que sempre transmitiu enquanto cientista política. A propósito, suas últimas declarações nesta campanha revelam um embate travado, em seu íntimo, entre o político e o sociólogo. O estudioso da política, em fins dos anos 70, ficou fascinado (e, no fundo, ainda continua) pelo metalúrgico e sindicalista Lula, enquanto que o político procura desconstruir (mesmo sem convicção) a imagem do personagem que, secretamente, admira. Esse confronto particular, que parece ser um caso para a psicanálise, passa uma imagem de confusão que o mesmo não merece.

A fase pela qual passa o ex-presidente FHC é singular. Ele deve se inquietar, porém não recua: vai em frente com seu discurso indefinido. Seu maior problema é que na sua “falação” não pode se entender muito, visto que almeja ser entendido pelo maior número possível de pessoas. Tem que ser sucinto; e é exatamente nesse ponto que ele sucumbe, porque não tem como mostrar sua erudição: é forçado a ser simplista, abordando temas complexos. Na sua ótica (pelo menos a que expõe publicamente), bem formado é o eleitor que escolhe Aécio e o que relega Dilma; e mal informado é quem opta por Dilma e quem rejeita Aécio.

Essa matemática dos tucanos só eles entendem. De qualquer forma, FHC merece respeito por já estar na história do país. Para que seja melhor compreendido pelos brasileiros, necessita ser mais verdadeiro em suas declarações. Obviamente, sabe que a força simbólica do PT continua sendo a mesma que o fez assumir o voto em Lula no segundo turno da primeira eleição direta para Presidência da República depois de vinte e um anos de ditadura militar. Ele e Luiz Inácio Lula da Silva estiveram juntos na luta contra o inimigo comum: o capitalismo selvagem.

Agora, independentemente da disputa que ocorre em seu âmago, entre o FHC político e o FHC sociólogo, o que se espera é que, em seus pronunciamentos, não desrespeite os mais humildes.

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