Categories: Mundo

O que os satélites dos EUA viram sobre o avião derrubado na Ucrânia?

Share

A pergunta que não quer calar a respeito da catástrofe sobre a Ucrânia é: o que as imagens dos satélites espiões norte-americanos mostram?

Robert Parry, Consortiumnews. Tradução: Heloisa Villela

No calor da última histeria de guerra da mídia norte-americana – que correu para culpar o presidente russo Vladimir Putin pela queda do avião de passageiros da Malaysia Airlines – existe a mesma ausência de ceticismo que fez barulheira no Iraque, na Síria e em outros lugares – perguntas essenciais não são feitas ou respondidas.

A pergunta que não quer calar a respeito da catástrofe sobre a Ucrânia é: o que as imagens dos satélites espiões norte-americanos mostram?

É difícil acreditar que, com toda a atenção que o serviço de espionagem norte-americano tem prestado ao leste da Ucrânia nos últimos seis meses, o transporte de vários sistemas Buk de mísseis antiaéreos da Rússia para a Ucrânia e depois de volta à Rússia não aparecem em lugar algum.

Sim, existem limites para o que os satélites espiões norte-americanos podem ver. Mas os mísseis Buk têm cerca de 16 pés de comprimento e em geral são montados no topo de tanques ou caminhões.

O voo 17 da Malaysia Airlines também caiu durante a tarde, e não à noite, o que significa que a bateria de mísseis não estava escondida pela escuridão.

Então por que essa pergunta sobre as fotos do espião norte-americano dos céus – e o que elas revelam – não está sendo feita insistentemente pela mídia norte-americana?

Como o Washington Post pode publicar uma matéria de primeira página, como a que foi publicada no domingo com o título definitivo: “Oficial americano: russos deram o sistema”, sem exigir das autoridades detalhes a respeito do que revelam as imagens de satélite?

Ao contrário, Micchael Birnbaum e Karen DeYoung do Post escreveram de Kiev:

“Os Estados Unidos confirmaram que a Rússia forneceu lançadores de mísseis sofisticados aos separatistas da Ucrânia do leste e foram feitas tentativas de transportá-los de volta através da fronteira com a Rússia depois que o avião da Malaysia foi derrubado, disse uma autoridade norte-americana no sábado. ‘Nós acreditamos que eles estavam tentando levar de volta para a Rússia pelo menos três sistemas Buk (lançadores de mísseis)’, disse. O serviço de espionagem norte-americano estava ‘começando a ter indícios … há pouco mais de uma semana, de que lançadores russos foram lavados para a Ucrânia, disse a fonte … cuja identidade não foi revelada pelo Post para que ele discutisse assuntos de espionagem”.

Mas veja como são vagas as afirmações: “Nós acreditamos”, “começando a ter indícios”. E nós devemos acreditar – e, ainda mais relevante, os jornalistas do Washington Post de fato acreditam – que o governo norte-americano com seus serviços de espionagem de primeira não conseguem encontrar três caminhões lentos, cada um carregando enormes mísseis de longo alcance?

O que uma fonte me contou, fonte que já me passou informações precisas em assuntos semelhantes no passado, é que as agências de espionagem norte-americanas têm imagens de satélite detalhadas das baterias de mísseis que provavelmente lançaram o míssil fatal, mas a bateria parece estar sob o controle de tropas do governo ucraniano, vestindo o que parecem ser uniformes ucranianos.

A fonte disse que os analistas da CIA ainda não eliminaram a possibilidade de que as tropas fossem na verdade rebeldes do leste da Ucrânia vestindo uniformes semelhantes, mas a avaliação inicial era de que as tropas eram compostas por soldados ucranianos.

Também foi sugerido que os soldados envolvidos eram possivelmente bêbados indisciplinados, já que as imagens mostram o que pareciam ser garrafas de cerveja espalhados no local, disse a fonte.

Mas, ao invés de pressionar para ter mais detalhes, a grande mídia norte-americana simplesmente passou adiante a propaganda vinda do governo ucraniano e do Departamento de Estado, inclusive ecoando o fato de que o Sistema Buk é “feito na Rússia”, um fato insignificante que é muito repetido.

No entando, usar o argumento do “feito na Rússia” sugere que a Rússia pode ter envolvimento na derrubada do avião, o que é no mínimo enganador e claramente planejado para influenciar os mal informados norte-americanos.

Como o Post e outros meios de comunicação certamente sabem, o exército ucraniano também opera sistemas militares feitos na Rússia, inclusive as baterias antiaéreas Buk; assim, a origem da fabricação não tem valor algum de prova.

Apoiando o regime ucraniano

A maior parte das denúncias contra a Rússia vem de afirmações feitas pelo regime ucraniano, que nasceu de um golpe de estado inconstitucional contra o presidente eleito Viktor Yanukovych no dia 22 de fevereiro.

A derrubada dele veio depois de meses de protestos massivos, mas o golpe mesmo foi liderado por milícias neonazistas que ocuparam prédios do governo e forçaram autoridades do governo Yanukovych a fugir.

Em reconhecimento ao papel chave desempenhado pelos neonazistas, que são ideologicamente descendentes das milícias ucranianas que colaboraram com os nazistas da SS na Segunda Guerra Mundial, o novo regime deu a esses nacionalistas da direita radical o controle de diversos ministérios, inclusive do departamento de segurança nacional, que está sob o comando do antigo ativista neonazista Andriy Parubiy.

Foi esse mesmo Parubiy que os jornalistas do Post procuraram para obter informação que condenasse os rebeldes ucranianos do leste e os russos com relação à catástrofe da Malaysian Airlines.

Parubiy acusou os rebeldes da vizinhança da área do acidente de destruírem provas e de tentarem esconder algo, outro tema que ecoou na grande mídia norte-americana.

Sem se preocupar em informar os leitores a respeito do passado neonazista de Parubiy, o Post o citou como uma testemunha confiável, declarando: “Será difícil conduzir uma investigação completa já que alguns objetos foram retirados, mas faremos o possível”.

Em contraste com as declarações de Parubiy, o regime de Kiev na realidade tem um histórico terrível em matéria de falar a verdade ou de levar a cabo investigações sérias a respeito de crimes contra os direitos humanos.

Ainda estão sem resposta as perguntas a respeito da identidade dos atiradores de elite que atiraram contra policiais e manifestantes na Maidan, no dia 20 de fevereiro, o que deflagrou uma escalada de violência que levou à derrubada de Yanukoviych.

Além disso, o regime de Kiev não esclareceu os fatos a respeito da morte de vários russos étnicos incendiados no prédio da Associação de Comércio de Odessa no dia 2 de maio.

O regime de Kiev também enganou o New York Times (e aparentemente o Departamento de Estado) quando disseminou fotos que supostamente mostravam militares russos dentro da Rússia e mais tarde dentro da Ucrânia.

Depois que o Departamento de Estado endossou a “prova”, o Times deu destaque à reportagem no dia 21 de abril, mas na verdade uma das fotos-chave, supostamente tirada na Rússia, foi na verdade tirada na Ucrânia, destruindo a premissa da reportagem.

Mas aqui estamos novamente, nos apoiando na grande mídia norte-americana, para verificar denúncias feitas pelo regime de Kiev sobre algo tão delicado quanto a Rússia fornecer mísseis antiaéreos sofisticados – capazes de derrubar aviões voando em alturas elevadas, capazes de derrubar vôos comerciais – a rebeldes mal treinados da Ucrânia do leste.

Essa é uma acusação tão séria que poderia levar o mundo à segunda Guerra Fria e, possivelmente – se houver outros erros como este – a um confronto nuclear.

Esses momentos pedem um profissionalismo jornalístico extremo, especialmente ceticismo com relação à propaganda de partes envolvidas.

Ainda assim, o que os norte-americanos viram publicado nos principais meios de imprensa, liderados pelo Washington Post e pelo New York Times, foram artigos dos mais inflamados baseados em grande parte em aurtoridades ucranianas não confiáveis e no Departamento de Estado, o principal instigador da crise na Ucrânia.

No passado recente, esse tipo de jornalismo desleixado levou a massacres no Iraque – e contribuiu para a quase deflagração de guerras na Síria e no Irã – mas agora os riscos são bem maiores.

Não importa o quão divertido seja acumular desprezo por uma variedade de “vilões designados”, como Saddam Hussein, Bashar al-Assad, Ali Khamenei e agora Vladimir Putin. Esse desleixo está levando o mundo a um momento muito perigoso, possivelmente o último.

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook