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O São João e a Copa 2014

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André Falcão*

Considerados os maiores, mais genuínos e mais tradicionais festejos da região nordeste do Brasil — embora não os únicos, tampouco dela exclusivos —, os festejos juninos, ou simplesmente “O São João”, dizem muito forte e de muito perto no coração e na alma dos nordestinos, mesmo os das capitais. Em 2014, porém, o São João será especialmente gostoso de se ver e de se desfrutar. Desta vez, à música (forró, xote, baião, reisado, samba de coco, além das cantigas juninas, com seus acordeões, triângulos, zabumbas, violão, cavaquinho e pandeiro), aos fogos de artifício (traque, bombas de 10, de 100, de 1000, estalo bebê, chuvinha, vulcão, buscapé, ….), às quadrilhas de matuto, às fogueiras espalhadas pelas ruas das cidades turvando o céu de um branco levemente acinzentado, às feirinhas católicas (ou não) de bairro com suas comidas típicas (canjica, pamonha, milho verde, milho assado), além de bobó de camarão, acarajé e caruru, vem se juntar a maior paixão do brasileiro, o futebol, no evento que sempre arrebatou o coração, a alma, a alegria e, principalmente, a autoestima do brasileiro.

Meu país sempre foi mais bonito em época de Copa do Mundo de futebol. Além de belezas naturais indescritíveis, e de outras realizadas pelo homem também de surpreendente beleza, fazemos festas belíssimas, a exemplo do carnaval. Mas em nenhum outro momento o Brasil é mais belo e mais próximo do espírito que entendo e sinto de nação do que em época de Copa, lamentavelmente, aliás, porque bom seria que os brasileiros sentissem (mais) orgulho de seu país em cada dia de sua existência nesse país privilegiado, afinal o Brasil é, mesmo, um país para orgulhar-se. E se é a economia quem talvez dite mais fortemente a temperatura desse sentimento, necessariamente estaria num grau de ebulição certamente inédito, afinal o país jamais em sua história obteve índices econômicos tão favoráveis, além dos melhores resultados em sua história no enfrentamento das abissais e cruéis desigualdades sociais. Isto tudo no meio de crises econômicas mundiais de vulto, somente comparadas à famosa Grande Depressão de 1929. A corrupção, de outro lado, nunca foi tão combatida e os resultados tão eficazes. Quem não se lembra dos escândalos não apurados, de autoridades que engavetavam denúncias, e por aí afora, em tempos idos? O respeito e destaques internacionais, por sua vez, são absolutamente inéditos. Basta citar-se o hoje: Nossa presidenta é considerada a 4ª mulher mais importante do planeta. Nosso país, a 7ª economia mundial. E a Copa! É pra ter muito orgulho.

Lembro-me como se fosse hoje do dia em que conquistamos o direito de sediá-la, competindo, entre outras, com as principais nações europeias, além de com o império estadunidense. Lembro-me do país em júbilo, dos brasileiros orgulhosos do seu país em decorrência do feito alcançado. Comemorações pipocaram país afora. Olhos antes grudados na televisão no aguardo do resultado tão esperado, enchiam-se de brilho e sentimento de orgulho após o resultado. Autoestima à flor da pele. Até que veio “o dia seguinte”, e aí…

E aí a grande imprensa de nosso país — aí considerados os maiores veículos de comunicação, Rede Globo de televisão à frente, os dois maiores jornais de São Paulo, Folha e Estadão, o maior do Rio de Janeiro, o Globo, e a maior revista semanal de circulação nacional, a Veja, tudo sob o comando de seis ou sete famílias — capitaneou desde então a maior e mais escancarada campanha de desvalorização do feito alcançado, fazendo renascer, com impressionante vigor, e no auge de novo seu esplendor — se é que poderia haver esplendor nisso —, nosso complexo de vira-latas, expressão tristemente famosa cunhada por Nelson Rodrigues.

A revista Veja, por exemplo, vaticinava que o Brasil somente conseguiria aprontar-se para a Copa se fosse para a de 2038 (não preciso explicar o porquê); a expressão “Padrão Fifa” (independentemente das justas e várias críticas que se faça àquela associação) foi deturpada e tratada como razão para o brasileiro ironizar a si próprio, ou protestar contra o governo federal por saúde e educação — como se houvesse na história do Brasil um governo que mais estivesse investindo nesses dois temas tão caros ao país, abandonados que quase sempre foram, ou não enfrentados com sensibilidade e vontade políticas como sempre foram.

Martelou-se na cabeça do incauto brasileiro que se pauta por esses veículos de comunicação (e é difícil não fazê-lo, uma vez que a Rede Globo, seu exemplo mais nocivo, faz-se presente em cerca de 80% dos lares brasileiros, hegemonia única no mundo capitalista, e com sobras, em se tratando de uma concessionária pública, cuja família que dela se apoderou sob os auspícios e graças do regime militar granjeou a maior fortuna do país, segundo a revista Forbes) que o Brasil gasta com a Copa, e gasta mal, promovendo dos maiores falseamentos e deturpação de informação de que se tem notícia na imprensa brasileira, uma vez que os dados reais estão contabilizados e disponíveis a todo cidadão, não se assemelhando, nem na sua superfície mais rasa, com o que é alardeado. Propositadamente confunde-se gastos, ou gastança, sua expressão pejorativa, com investimento (obras de infra-estrutura e mobilidade urbana) e com empréstimos (estádios), inclusive omitindo-se a participação maciça dos governos estaduais e capital privado envolvidos. Enfia-se na cabeça do brasileiro médio, cuja opinião é formada pela informação aliciadora e manipuladora desses veículos, que o Brasil (e, portanto, os brasileiros) é incapaz de fazer um evento desse porte em seu território, que a corrupção e a leniência fazem parte do nosso DNA, que somos incapazes, enquanto nação, de algo mais que sermos servis e obedientes ao capital estrangeiro e seus interesses inconfessáveis, mas evidentes, em nossas riquezas, tão espúrios, portanto, quanto perigosos.

Tudo realizado com o fito de prejudicar a reeleição da presidenta e em contrapartida beneficiar seu principal candidato ou o que venha a se apresentar como tal. A mídia brasileira urge ser regulada, como o foram a dos principais países europeus (Inglaterra à frente) e dos próprios EUA, o que não tem, naturalmente, nenhum conteúdo que sequer beire a censura. Para se ter uma ideia, a maior rede de televisão dos Estados Unidos da América não alcança em sua cadeia de programas normal uma audiência maior do que a obtida por 12% dos lares estadunidenses.

O Brasil não pode se curvar a essas aves agourentas que tentam tirar do brasileiro o que ele tem de mais genuíno: sua cordialidade, sua alegria, sua coragem e luta diuturnas por uma vida digna, tampouco seu amor pelo futebol e pela seleção do seu país. O país é maior do que isto; prova-o a aprovação popular do governo atual e do que se lhe antecedeu, apesar do massacre diário disparado por aquele que hoje é considerado, sem favor, o maior partido de oposição do país: a mídia grande brasileira.

Neste São João, entretanto, nutro apesar disto a convicção de que a fumaça dos fogos de artifício e fogueiras das ruas da minha terra, que viaja ao céu nordestino conferindo-lhe a cor esbranquiçada que irrita os olhos mas esquenta a alma alegre e guerreira de nosso povo, desta vez estará turvada do verde e amarelo do meu país. Promessa dele e de seus compadres, Santo Antônio e São Pedro.

Vivas, portanto, ao Brasil! Viva São João! Viva a Copa do Mundo 2014 que nós faremos com sucesso no Brasil, para o nosso orgulho e renovação de autoestima! E se Deus quiser venceremos. Mas se não der, que tenhamos vivido intensa, apaixonada e alegremente esse momento, direito, afinal, que conquistamos. O resto é esporte.

*André Falcão é advogado e autor do Blog do André Falcão. Escreve quinzenalmente para Pragmatismo Político

(Leia aqui todos os textos de André Falcão)