Categories: Racismo não

O dia em que decidi não ser a mucama da sinhazinha

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“Precisava encontrar alguma palavra que convencesse a minha patroa do mal que a menina havia me feito. Tereza precisava entender que a dor não era causada pelo pão, mas por todas as maldades praticadas pela filha. Minha mente parecia confusa”

Luana Tolentino*, Viomundo

Em homenagem ao dia do Trabalhador Doméstico, comemorado no último dia 27 de abril, a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) assistiu à sessão realizada na Câmara vestida de doméstica, função que já exerceu.

A meu ver, não há no Brasil outra profissão que guarde tantos traços do período escravocrata. Mesmo com a aprovação da emenda Constitucional que ampliou os direitos trabalhistas da categoria no ano passado, muitas são as mulheres que ainda são exploradas e violentadas em lares de todo o Brasil.

E, motivada pelo ato de Benedita, decidi também homenageá-las e, mesmo que timidamente, fortalecer a luta por direitos em benefício das empregadas, babás, faxineira e diaristas desse país.

O relato que se segue faz parte de um período doloroso da minha vida. Assim como Benedita e tantas outras meninas e mulheres negras, entre os 13 e 18 anos limpei vidros, lavei banheiros, encerei pisos. Como parte dessa história, por diversas vezes fui humilhada e aviltada.

Tive o privilégio de fazer escolhas. Seguir outros caminhos, mas sem jamais esquecer das minhas companheiras que permanecem nessa profissão.

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O CASO DO PÃO MOFADO

Belo Horizonte, julho de 1999.

Eram seis e meia da manhã. Acordei com o chamado do meu pai.

No dia anterior, havia feito faxina na cozinha. Em consequência, sentia dores por todo o corpo. Estava angustiada. Não sabia como faria para ir ao colégio à noite. Há mais de uma semana não lavava a blusa do uniforme. Há mais de dois meses não havia água em casa. Aflita, busquei uma solução com a minha mãe:

– Como vou fazer para ir à escola hoje? Meu uniforme está muito sujo.

Acostumada com a vida difícil de quem nasceu na roça, respondeu com a resignação que lhe é peculiar:

– Minha filha, vá assim mesmo. É só você não ficar perto dos seus colegas.

Refleti um pouco sobre as palavras da minha mãe. O que ela propôs era impossível. Como não ficar perto dos meus colegas?! E se a professora pedisse para olhar os cadernos?! Poderia ser ainda pior…Comunicaria à direção da escola que eu estava frequentando as aulas sem tomar banho. Atormentada por todas essas possibilidades, insisti:

– Mas, mãe…. E se você estivesse no meu lugar? Iria suja para escola?!

Ela não gostou muito do meu tom desafiador. Para encerrar a conversa, devolveu a pergunta:

– O que você quer que eu faça?

Sabia que a minha mãe não podia fazer nada, mas, ao mesmo tempo, queria apenas uma blusa limpa e, assim, poder estudar em paz. Peguei as minhas coisas e fui trabalhar. Ao longo do dia, daria um jeito de lavar o uniforme e não perder a aula. Encontraria uma saída.

Ao chegar à casa da Tereza, minha patroa – não há palavra na língua portuguesa que me cause tanta ojeriza – encontrei copos, talhares e pratos espalhados sobre a mesa da copa. Patrícia, sua filha, decidiu brincar com o conjunto de louças da mãe. Puro capricho. Não existia a menor necessidade. A menina possuía um armário repleto de brinquedos.

Lavei tudo. Senti um pouco de raiva. A brincadeira atrasou todo o meu serviço. Patrícia, aos 10 anos, já sabia que eu era a empregada. Dela. Portanto, era a minha obrigação limpar e guardar tudo o que ela deixava espalhado pela casa.

Cozinha arrumada, fui à padaria. Patrícia insistia em dizer que eu era muito mole, insolente. Precisava voltar depressa. Comprei oito pães, como fazia todos os dias. Também, sem necessidade. Ninguém os comia. Ao final da semana, acumulava-se uma enorme quantidade de pães velhos na gaveta da cozinha.

Ao retornar, parei para tomar um café. Sentia fome. Já passavam das 9h e ainda não havia comido nada. Patrícia me olhava em silêncio, como se estivesse vigiando cada passo que eu dava. Tinha mania de espalhar moedas pela casa, como quem arma uma ratoeira e espera que o rato coma o pedaço de queijo envenenado. Aprendi a não revidar as provocações e seus insultos. Não queria confusão. Precisava do trabalho e do dinheiro. Na minha casa, além da água, faltava luz e comida. E enquanto eu cortava o pão que acabara de trazer da padaria, com o dedo em riste, ela gritou:

– Luana, deixe esse pão aí, agora! O seu pão está na gaveta.

Assustada, deixei a faca cair no chão. A única lágrima que brotou dos meus olhos teve o mesmo destino. Sobre os meus pés, um abismo que parecia não ter fim. Sentia o meu corpo despencar.

Permaneci calada. Não reagi. Não consegui processar o que ela havia me dito. Assim como eu, Patrícia sabia que os pães guardados na gaveta estavam velhos, mofados, bolorentos. Sabia que seriam despejados no lixo em breve. Não conseguia acreditar na crueldade da menina.

Em seguida, a aparente inércia, deu lugar à raiva. Ao pranto. Meus sentimentos se misturavam de maneira intensa. Não era mais possível guardá-los como me habituei a fazer. Era a minha vez de gritar:

– Cale a boca, menina! Cale a boca! Hoje eu não quero ouvir a sua voz! Com toda a minha força, arremessei o pão na direção de Patrícia. Errei o alvo. Parecia cega. De ódio.

Ao ouvir a gritaria, Tereza interrompeu o tratamento de beleza e desceu as escadas correndo, tentando entender o que se passava na cozinha. Mais uma vez, o dedo indicador era apontado para o meu rosto:

– Luana, do meu quarto, escutei você dizer que não quer ouvir a voz da Patrícia! O que significa isso?

A essa altura, não mais conseguia conter as lágrimas. Em meio ao choro, implorava para ser compreendida. Desejava a reparação da injustiça que acabara de sofrer:

– Ela disse que eu devia comer o pão mofado, Tereza! Ela disse! Respondi, desesperada.

Diante da cena, Tereza permaneceu muda por alguns instantes. Patrícia permanecia acuada, sem esboçar qualquer reação. Ao ver a filha dessa maneira, olhou no fundo dos meus olhos. Sem a menor compaixão, foi breve e direta:

– Luana, você não tem o direito de falar assim com a Patrícia! Ela é uma criança! Você devia se envergonhar do que fez! Tanto escândalo por causa de um pedaço de pão!

Tentei argumentar. Precisava encontrar alguma palavra que convencesse a minha patroa do mal que a menina havia me feito. Tereza precisava entender que a dor não era causada pelo pão, mas por todas as maldades praticadas pela filha. Minha mente parecia confusa. Desta feita, esbocei apenas duas palavras, quase a implorar:

– Mas, Tereza…

Em vão. Tereza pegou Patrícia pelas mãos. Seguiram as duas para o andar de cima. Permaneci na cozinha. Só. Humilhada. Esqueci da fome. Do pão e do café. Esqueci da blusa do uniforme sem lavar.

Sentia uma tristeza profunda. Doía-me a alma. Em meu peito, uma ponta de ódio. Sentimento desconhecido por mim até então. À Patrícia, sempre devotei um grande amor. E com esse amor, a coloquei para dormir por diversas vezes. Ajudei-a quando não conseguia se equilibrar ao aprender andar de bicicleta. Cinco anos antes, foi comigo que Patrícia aprendeu a ler e a escrever. Não entendia como ela podia ser tão perversa.

O dia estava apenas começando. Era necessário enxugar as lágrimas que teimavam em deslizar pelo meu rosto abatido diante de tamanha crueldade. A casa era enorme. Casa-Grande. Três banheiros, três salas, quatro varandas, quintal, garagem, cozinha. Tereza e Patrícia. A sinhá e a sinhazinha mimada. Decidi não ser a mucama.

Em meio a tudo isso, existiam sonhos vivos e possíveis, e o desejo de uma outra vida. Digna, sem tantas humilhações e silenciamentos.

PS: Esta história é real, apenas os nomes da menina e da mãe são fictícios, para preservar-lhes a identidade.

*Luana Tolentino foi babá, faxineira e empregada doméstica entre os 13 e 18 anos. Hoje é professora e historiadora. É ativista do Movimentos Negro e feminista.

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