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Noruega: o que precisa um país quase perfeito?

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Fiordes azuis, alta qualidade de vida, problemas de luxo. Em plenas eleições, são poucos os motivos de reclamação na Noruega. Mas o que precisa um país que, aparentemente, já tem tudo?

Eleição norueguesa expõe dilema de país quase perfeito

Por entre as árvores, a vista do jardim dá para o fiorde de Trondheim. A água brilha dourada, o sol se põe lentamente. A temperatura esfria no fim de tarde de verão na pequena cidade norueguesa de Stjordal, a cerca de 400 quilômetros de Oslo.

As luzes se acendem lentamente nas belas casas do conjunto habitacional Geving, enquanto as moscas invadem o jardim à procura de alimento. Apoiando-se no parapeito da varanda, o morador Rune Vist toma um gole de cerveja enquanto olha para o fiorde.

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“Viver aqui é melhor para a família”, diz. “Um lugar mais bonito para as crianças. Além disso, aqui é mais tranquilo e relaxante – mais qualidade de vida.”

O corretor financeiro de 41 anos trabalha num grande banco norueguês em Trondheim. Todas as manhãs, ele pega o ônibus para a cidade. Por volta das 16h, retorna para casa.

Depois de terem vivido por quase dez anos em Oslo, Rune e a esposa, Nina, se mudaram para o novo lar com as duas filhas pequenas. Uma casa pré-fabricada: ensolarada, moderna, com grandes fachadas de vidro, interiores espaçosos e pé-direito alto. No total, 250 metros de área residencial distribuídos em três andares – um espaço grande, mas que tem seu preço.

“Nós pagamos 6 milhões de coroas [750 mil euros] pela nossa casa”, explica Nina. Os preços de imóveis de uma pequena cidade norueguesa podem facilmente competir com o nível de grandes cidades europeias. Mesmo assim, há construções por todos os lados em Stjordal.

“Atualmente, a imigração de mão de obra na Noruega é muito alta”, explica Rune Vist. “Há muito poucos imóveis. Por isso, vale a pena, no momento, comprar casas para depois alugá-las.”

Problemas de luxo

A maioria dos noruegueses, no entanto, prefere investir em sua própria casa. Como a família Vist e seus vizinhos, um casal jovem com duas crianças, que já comprou a segunda casa num curto espaço de tempo. Mesmo as famílias mais jovens têm acesso fácil a empréstimos na Noruega – só é preciso apenas um pouco de capital, além de um contrato de trabalho.

E, na Noruega, trabalho é o que não falta. A taxa de desemprego gira em torno dos 3% – em Stjordal, ela é ainda menor. Os vizinhos, Atle e Lina Eikedal, estão empregados. Ela é comissária de bordo, ele trabalha na administração do aeroporto em Trondheim. Depois de um dia duro de jardinagem com a ajuda do pai de Atle, Stig Eikeland, o cortador de grama é guardado num trailer.

Casas de financiamento fácil, quase nenhum desemprego e quando se trata da mais alta qualidade de vida na Europa, na maioria das vezes, a Noruega ocupa a primeira posição. Em plenas eleições, o panorama leva à seguinte pergunta: o país ainda tem algum problema? Segundo Stig Eikeland, sim.

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“Nossas estradas são ruins, o sistema ferroviário também”, reclama irado o aposentado, que lembra também dos pedintes, que, segundo ele, deveriam desaparecer das ruas. “E uma porcentagem maior do fundo petrolífero deveria fluir para a seguridade social. Há dinheiro suficiente. Por que não investimos aqui no país?”

Buracos nas ruas, alguns pedintes ilegais do Leste Europeu e falta de consenso sobre quanto dinheiro deve ser economizado para tempos ruins em vez de aplicá-lo imediatamente no sistema social – problemas que seriam pequenos, senão ignorados, em outros países .

No entanto, na Noruega, esses foram os temas centrais da campanha para as eleições parlamentares desta segunda-feira (09/09). Para muitos noruegueses, o atual primeiro-ministro, Jens Stoltenberg, do social-democrata Partido dos Trabalhadores, é considerado demasiadamente hesitante.

Embora ele tenha deixado uma boa impressão após o massacre de Utoya, há dois anos, atendo-se prudentemente à sociedade aberta dos noruegueses, em termos de infraestrutura e política social ele deixou de cumprir muitas expectativas.

Petróleo em debate

Muitos noruegueses gostariam de ver o sistema social fortalecido através de um maior investimento de dinheiro proveniente do fundo estatal do petróleo. Nele são aplicadas as receitas provenientes da prospecção de gás natural e petróleo ao longo da costa da Noruega. Um tema que Rune Vist conhece bem.

“O fundo estatal de petróleo é dividido em duas partes. Uma pequena parcela é investida internamente e forma o seguro público de pensões e segurança social. A outra parte maior é usada somente para investimentos no exterior”, explica.

Quando ainda trabalhava em Oslo, Rune Vist assessorava grandes empresas em seus investimentos, entre elas, o fundo estatal de petróleo para o exterior.

E, nesse contexto, não se trata de somas pequenas. “Atualmente, o fundo de petróleo possui de 1% a 2% de todas as ações na Europa”, conta Rune Vist. “A Noruega é o maior investidor público do mundo.”

Calcula-se que o fundo disponha, no momento, de 560 bilhões de euros. E os ativos não param de crescer, já que são bem investidos.

“A matriz de investimentos está hoje em 60% de ações, 35% de títulos e 5% de imóveis”, diz o especialista financeiro. “Nos últimos tempos, o fundo de petróleo comprou, em grande estilo, imóveis em Londres, na Suíça e nos EUA. Em Londres, foi comprada uma parte da Regent Street, uma grande rua de compras.Na Suíça, foi comprada a sede do Credit Suisse e nos EUA, alguns shopping centers.”

Como investidor de grande visão, a Noruega é da opinião que é sensato investir em imóveis, segundo Rune. Para ele, o seu país deve ter alguma razão, afinal, ele mesmo acaba de investir muito dinheiro numa nova propriedade – para um futuro calmo e despreocupado próximo a um fiorde.

Deutsche Welle