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EUA se livrou do constrangimento Mubarak

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Manifestante comemora a renúncia de Mubarak
No governo há três décadas, o presidente do Egito Hosni Mubarak anunciou sua renúncia nesta sexta-feira (11) e deixa espaço para que o Exército ganhe peso no cenário político internacional, acredita o professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC do Rio de Janeiro, Márcio Scarlécio. Ele explica que há uma proximidade entre os militares egípcios e os Estados Unidos, o que significaria que a influência dos americanos no país pode continuar. 
“O governo americano agora se livrou do constrangimento de ter que esculhambar o Mubarak”, aponta. “A partir daqui, o Exército certamente vai passar a ter um peso maior na condução das decisões políticas… Os militares egípcios são muito ligados ao sistema de segurança americano”. 
O professor comenta a correlação de forças no país e diz que o momento atual é histórico. “Houve uma paralisia do aparato repressivo porque houve uma hesitação do Exército de dar cobertura ao governo. Isso não é café pequeno no Oriente Médio, não”.
Leia a entrevista na íntegra. 
O que a renúncia de Mubarak representa?
Márcio Scarlécio – Agora é a segunda parte do jogo. A primeira era o cabo de guerra entre os manifestantes e o governo e que foi resolvido hoje. O debate é como será orquestrada a transição. Eu diria que não resolve nenhum dos problemas. Não creio que a chefia de governo conduzida pelo Omar Suleiman, que é o vice, seja satisfatória para a oposição. Ele é o sujeito que praticamente controlava todo o aparelho repressivo do país. Há alguns boatos de que esse processo seria conduzido pelo Conselho Militar Supremo, o que também é uma hipótese, haja visto que, em termos de instituições civis, o Egito é complicado. A partir daqui, o Exército certamente vai passar a ter um peso maior na condução das decisões políticas.
 
É possível dizer que apenas o afastamento de Mubarak já é um fato histórico?
É uma vitória sensacional. É um presidente baseado num regime autoritário que está sendo derrubado pelas ruas. É importante pra caramba. Mesmo que os desdobramentos não sejam aqueles que mais sonhamos, um Egito democrático, com instituições civis fortalecidas. Esse acontecimento é histórico e muito importante. Houve uma paralisia do aparato repressivo porque houve uma hesitação do Exército de dar cobertura ao governo. Isso não é café pequeno no Oriente Médio, não.
E a influência dos Estados Unidos, vai fazer diferença nesse processo de transição?
Os Estados Unidos têm uma imensa lista de pecados no Oriente Médio. Em primeiro lugar, os americanos tradicionalmente apoiam todos esses regimes pavorosos. Com raras exceções, como o caso da Síria e do Irã. O Egito era um caso especial, porque é uma peça muito bem posicionada no tabuleiro de xadrez do Oriente Médio. O governo americano agora se livrou do constrangimento de ter que esculhambar o Mubarak, já que ele pediu o boné. Agora, o governo americano pode ser mais propositivo no seu vínculo com a transição democrática. Existe outro dado importante. Os militares egípcios são muito ligados ao sistema de segurança americano. O vínculo entre eles é muito importante. Então, através do aumento do peso político do Exército, ela pode se fazer sentir.
 
Mas os grupos de oposição lidariam bem com essa relação com os Estados Unidos?
Essa questão nunca vai ser discutida abertamente. Existe uma espécie de psicologia árabe muito complexa com relação a influências estrangeiras. A relação sempre vai ser preparada por marqueteiros para aparecer em público. Mas, atrás da tenda, a turma vai fazer cursos nos Estados Unidos toda hora, participa de exercícios conduzidos por americanos. O armamento egípcio quase todo hoje em dia é de origem americana. A influência se dá por meio do Exército e é o canal mais sigiloso para isso continuar acontecendo.
E a Irmandade Muçulmana? A princípio, o movimento contra Mubarak não tinha tanta influência das lideranças islâmicas, mas ela pode acabar tendo um papel importante?
Eu vejo isso com naturalidade. Aqueles que costumam enfatizar demais o papel da Irmandade Muçulmana costumam ter uma postura praticamente racista. O Egito é um país muçulmano, é óbvio que as organizações muçulmanas têm seu papel político, assim como a Igreja Católica tem importância no Brasil. A Irmandade Muçulmana é muito forte no Egito. Ela mantém mesquitas, mantém creches, asilos… Os caras são vozes relevantes no processo político. E já têm manifestado que a referência política deles é o atual governo Turco, que não é um governo de um bando de malucos. Eles vão disputar o poder e eu acho natural que isso aconteça. 
Mas essa influência americana que o senhor mesmo aponta que deve continuar não impediria o avanço da Irmandade Muçulmana, uma vez que há o temor do radicalismo islâmico?
Só se Washington for mais imbecil do que eu acho que é. Não creio, os americanos são capazes de conviver com tantos regimes questionáveis. Eu acho que o governo Obama não peca pelo erro, peca pela hesitação.
 
Demorou demais para se posicionar sobre o Egito?
 
Exatamente.
Terra Magazine