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Os noves fora de José Serra

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O que estamos assistindo agora, com as tentativas tucanas deplantar escândalos e judicializar a campanha, é a uma gigantescaoperação de engodo de candidatura sem perspectiva. Secundado pela mídiaque sempre o apoiou, e hoje se declara “independente”, Serra não temescrúpulos em conspurcar a credibilidade do jogo político às vésperasde uma eleição presidencial. O que ele e seus sócios do PPS e do DEMestão querendo fazer é um autêntico golpe de mão, uma quarteladamidiática para evitar que a sociedade possa comparar dois projetos depaís.

Estado por estado as notícias são parecidas. Há um rápido processo decristianização do candidato tucano. No Nordeste é um arraso: quem fezoposição a Lula nos últimos quatro anos, desembarca da nau serristapara cuidar da própria sobrevivência política. Nem mais em São Paulo,estado que o elegeu senador, prefeito e governador, Serra voa em céu debrigadeiro. O repúdio não se dirige apenas contra sua melancólicafigura, mas ao estilo de governo posto em prática nos oito anos em queo neoliberalismo vigorou no país. Há algo de covarde na recusa de umacomparação retrospectiva, mas também há algo de didático no exame dasdecisões de um ator político.

Quando se nega a comparar o governo a que pertenceu com a gestãopetista, Serra afirma “que não faz política olhando para o retrovisor”.Certamente preferia que tudo fosse diferente, mas, no beco sem saída emque se encontra, não é possível acertar o caminho com manobrasabruptas. Seu trem em marcha ré colidiria com os desastres da políticaeconômica de FHC, o padrinho a ser ocultado.

Vamos aos fatos: a abertura comercial, promovida pelo consórciodemo-tucano, não trouxe ganhos de competitividade à indústria nacional.Pelo contrário, causou um efeito devastador em setores, como o têxtil,transformando segmentos que produziam localmente em meros importadoresde insumos. De acordo com estudos do Instituto de Pesquisa EconômicaAplicada (IPEA) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),depois de oito anos de economia submetida à concorrência internacional,sem instituição de políticas públicas adequadas, as conseqüênciasapareceram nos resultados negativos da balança comercial, em menosgeração de emprego e renda no Brasil.

Os pesquisadores concluíram que a importação de matérias-primasprovocou o esgarçamento dos setores intermediários de produção, aquelesencarregados de produzir os insumos para os fabricantes de produtosfinais. A análise dos resultados na década de 1990 demonstrou maiorcompetitividade na produção de commodities e vulnerabilidade dasatividades de maior conteúdo tecnológico, aquelas com maior valoragregado e responsáveis pela geração de mais postos de trabalho. Nessecontexto, cabe a pergunta: como Serra teria condições de apresentar suapolítica industrial, sem renegar totalmente o pensamento do PSDB?

Seguindo os preceitos do Consenso de Washington, a possibilidade de oBrasil tornar-se exportador de produtos básicos, que seriam processadosem outros países, e importados posteriormente, era o que se afiguravacomo horizonte à época. Na indústria química, o crescimento dasimportações levou à desativação de centros de produção de insumos.Princípios ativos para a produção de medicamentos que, nos anos 80,começaram a ser produzidos aqui, com a abertura desregulada, passaram aser fornecidos pelos Estados Unidos e por países europeus. Nos temposministeriais de Serra, a saúde que interessava era a da indústriafarmacêutica internacional. Não lhe peçam, portanto, para apresentarpropostas programáticas para o setor. Além das platitudes, o vazio étotal.

No campo energético, o desastre não foi menor. A decisão de venderusinas prontas, em plena operação, sem ao menos abrir aos investidoresa oportunidade, e o consequente risco, do empreendimento novo, gerouuma situação de insegurança energética, com 70% do mercado dedistribuição e boa parte da geração privatizados. Sem agregar energianova, o governo de FHC pensou em esquartejar Furnas quando o movimentomundial ditava fusões. Não faltavam, ainda, os defensores da venda daChesf, detentora de grandes reservatórios – alguns de alta importânciaecológica e social – antes de se regulamentar o uso múltiplo das águas.O que Serra teria a dizer sobre o descalabro? Por que a doce e éticaMarina silencia sobre o tema?

Por que não discutir sobre as consequencias desastrosas da Alca, a Áreade Livre Comércio das Américas, programada para se instalar em 2005 eque, fatalmente, nos levaria a novo pacto colonial?

Serra, o “Zé que joga pesado” não pode defender o passado sem deixar defazer um elogio à rasteira da soberania nacional. Por isso, dele só sepode esperar a pregação golpista, o denuncismo como método. E umgenérico de Elba Ramalho em seu programa eleitoral. O ex-presidente daUNE jogou sua biografia no ralo das circunstâncias. Da soma dos fatoresa que se submeteu, deixando de fora os nove, sobra rigorosamente nada.

Gilson Caroni Filho