Redação Pragmatismo
Violência 30/Jan/2017 às 16:50
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A estranha morte de Ademir Gonçalves Costa na Ponte da Amizade

Ademir foi barrado sábado pela Receita Federal na Ponte da Amizade. Vídeos que flagraram o episódio mostram o homem deitado no chão, de barriga para baixo e calças arriadas, imobilizado. Levado para a saleta da Aduana, saiu de lá morto. Seu rosto estava completamente deformado

Ademir aduanda ponte da amizade receita federal
Ademir Gonçalves Costa morto na Aduanda da Ponte Internacional da Amizade (Imagem: Pragmatismo Político)

Marcelo Auler*, em seu blog

Ademir Gonçalves Costa, de 39 anos, natural de Umuarama (PR), voltava no sábado à tarde do Paraguai, em um mototáxi, ao ser parado por servidores da Receita Federal, na Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu (PR). Ele, segundo alguns, teria reagido à abordagem. Mas, conforme registram filmes feitos por transeuntes, foi imobilizado. Consta que usaram gás de pimenta, ao qual era alérgico. Estava deitado no chão, de barriga para baixo e de calças arriadas, o que impediria sua fuga. Neste momento, movimentava braços e pernas. Levado para a saleta da Aduana, saiu de lá morto. Seu rosto, como mostram fotos, estava completamente deformado.

Sua companheira há cinco anos, Thaís Claro Goulart, admitiu, em entrevista à repórter Jacqueline Krüger da Rede Massa News, do Paraná, que ele teria resistido quando parado pelos fiscais da Receita Federal. Ela narrou o que ouviu falarem, pois não estava presente:

Esse tal de Ezídio já derrubou ele da moto e partiu para a porrada pra cima dele. E ele resistiu à abordagem, né? E começaram a bater nele. Tacaram spray de pimenta na cara dele, meteram spray de pimenta na cara dele. Daí levaram ele para uma sala, deixaram ele lá e lá eles agrediram ele muito, porque ele está todo machucado. Inclusive mandaram um laudo para o IML que ele morreu de morte natural. Eu vi o corpo. Está todo machucado, todo, todo. A boca dele está estourada, a cabeça dele está machucada, as pernas, tudo. Tudo, muito feio”. (sic)

Na entrevista, ela admite que ele “era alérgico a muita coisa. Ele era alérgico a spray de pimenta também. Geralmente.. eu acho que por isso mesmo que ele passou mal, que aí deu a falta de ar nele, porque ele tem alergia a muita coisa”.(sic)

Sem que se saiba oficialmente a causa morte (o laudo da necropsia só deve ficar pronto em até 30 dias), fica a possibilidade de a morte ter sido provocada pela sua reação ao spray de pimenta. Mas, fotos divulgadas na internet mostram que Ademir ficou com o rosto desfigurado com mancha vermelha que vão do queixo ao alto do nariz; com algo que parece ser um filete de sangue que escorreu na parte esquerda do rosto; marca preta na testa; pequenos hematomas nas pernas; e muitas partes do corpo, inclusive tórax, arroxeadas. No pulso a marca que pode ter sido causada por algema.

Em uma foto feita dentro da Aduana, ele aprece de calça arriada, mas acima do joelho e, embora o tórax estivesse descoberto, seus braços permaneciam nas mangas longas da camisa. No vídeo abaixo, feito por transeuntes e imediatamente postado nas redes sociais, Ademir aparece deitado no chão, fora da sala da Aduana, totalmente dominado. Sem condições de fuga, pois ali, a calça estava mais arriada do que na foto feita depois, do seu corpo inerte, dentro da Aduana. O Vídeo abaixo, o mesmo que o Blog recebeu, está no Youtube.

Ao mostrar o vídeo acima e duas fotos do rosto de Ademir a um experiente policial federal ele considerou que houve, no mínimo, falta de assistência, mas não arriscou avançar no provável motivo da morte:

Eu acho que somente a necropsia pode dizer a causa morte. De qualquer modo, o vídeo mostra ele deitado no chão, ainda vivo, e necessitava de socorro urgente, parece que não houve. O rosto muito inchado pode ser tanto lesões como forte alergia”.

O nome citado pela companheira de Ademir soa como Ezídio. Também em outros áudios que recebemos, o que se ouve parece Elzídio. Mas, quem conhece Foz do Iguaçu sabe que na Aduana, há anos, trabalha o Técnico da Receita Federal (TRF) chamado Egídio Davies. Ele tem um irmão agente de Polícia Federal que não está mais lotado em Foz e que é considerado um policial sério e respeitado. Porém, o servidor da Aduana, assim como outros que ali trabalham, possuem ligações próximas com muitos dos policiais federais lotados naquela fronteira.

Em 2004, Davies foi referência em um boletim do SindReceita, no qual destacaram uma apreensão de drogas feita por ele:

Essa apreensão é mais uma, entre as várias centenas de apreensões de drogas já realizadas pelo Técnico Egídio Davies, em Foz do Iguaçu. Em 2002, o Técnico Egídio Davies foi agraciado com o Prêmio Nacional de Valorização da Vida, concedido pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) justamente por ser um dos maiores apreensores de drogas do País, em quantidade de apreensões individuais”.

Por ser considerada área de fronteira, território federal, a investigação caberá à Polícia Federal. Teoricamente, à Delegacia de Foz do Iguaçu. Há, porém, quem entenda de que ela deveria ser comandada por uma equipe de fora, mais isenta. De modo transparente e público. O nome de Egídio – ainda que de forma errônea -é citado em mensagens de áudio que circularam em redes de WhatsApp logo após o acidente e que foram repassadas ao Blog:

O cara não tinha nada, não devia nada. A única coisa é que o Ezídio foi revistar ele e ele não gostou, aí o Ezídio trocou na porrada com ele, lá na Aduana”, falam em uma das gravações.

O cara reagiu à prisão, e aí três, quatro pegou o cara assim, meteu um monte de spray na cara do cara. Eu vi tudo (…) jogou o cara lá dentro. Agora eu fui lá abastecer a moto, fui dar uma olhada na Aduana lá, fui lá abastecer a moto, tá os IML lá. Eu até desconfiei. E é o cara, mas o cara está morto lá. Mataram o cara. Só que eu não vi o cara, o cara está dentro da casinha. Jogou o cara dentro da casinha, lá” (sic). Em uma nova mensagem, cuja voz é idêntica à outra recebida, o narrador explica: “Boa noite…. o Ezídio matou um cara às cinco horas lá na Aduana, ….. O cara está morto até agora. Eu fui agora abastecer a moto lá no Paraguai e o cara está morto lá. Matou o cara sufocado com spray de pimenta”.

Ele morreu,morreu, já morreu. O Ezídio pegou lá ele, cara, pulou nele, eles se trocaram na porrada, veio mais Receita… eu estava lá, na hora, vendo lá”, detalham em outra mensagem.

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Na manhã desta segunda-feira (30/01) a família velou o corpo de Ademir no Jardim São Paulo, em Foz do Iguaçu. Foi liberado sem laudo necrológico porque, segundo o IML, serão necessários exames a serem feitos em Curitiba. O advogado contratado por familiares, Edson Lara, espera que não se gaste os 30 dias normais em caso de exames mais detalhados. Conta com a repercussão do caso nas mídias da região, para que a resposta venha em prazo mais curto, como disse à Rede Massa News, na reportagem Sem laudo do IML, família cobra explicações sobre causa da morte de Ademir:

Não temos a causa definitiva. Novos exames foram solicitados e o parecer deve ser emitido por Curitiba. Na delegacia nos disseram que o resultado sai, em média, em torno de 30 dias. No entanto, como a repercussão foi grande, podemos conseguir antes. Também estudamos pedir a celeridade do resultado em juízo”, disse em entrevista ao Massa News.

Ainda conforme ele, o corpo de Ademir foi liberado sem o boletim de ocorrência.

Nem a Polícia Civil nem a Polícia Federal emitiram boletins. Tivemos grande dificuldade em relação a isso. Houve impasse em razão da definição de competência dos órgãos”, detalhou. “No fim, ficou a cargo da Polícia Federal, por se tratar de território aduaneiro, que até agora não emitiu nenhum parecer”. E acrescentou:

Existe um desespero para saber o que realmente aconteceu. São várias dúvidas. Queremos saber se ele foi agredido ou se foi uma fatalidade. Ele passou mal? Por que não foi encaminhado a um Pronto Atendimento? A família também que ter acesso às imagens das câmeras de segurança da aduana. Ela procura por respostas”.

Embora possa parecer absurda a versão dada pela companheira de Ademir, Thaís – “mandaram um laudo para o IML que ele morreu de morte natural” -, conforme se constata no vídeo que reproduzimos abaixo, o Blog recebeu a foto de uma conversa de WhatsApp, a qual o remetente não identificou os personagens do diálogo, em que falam algo parecido com o que ela disse.

Nessa conversa, entre dois amigos, sendo um de Foz do Iguaçu, se admite que possam sair pela “morte natural”, independentemente de qualquer coisa. Falam até que poderá surgir a versão de que a vítima havia consumido droga. Ou seja, sugerem que o inquérito na Polícia Federal possa vir a ser armado para jogar no acaso a morte de Ademir. Seria, segundo a fonte que abasteceu o blog de informações, algo natural na cidade.

Curiosamente, na manhã desta segunda-feira, 30/01, a Receita Federal de Foz do Iguaçu emitiu uma nota e nela fala que o homem, “apresentava-se em estado alterado”. Segundo a Receita, depois “passou para um quadro de convulsão tendo expelido sangue e um pedaço de plástico pela boca”.

Veja a integra da nota da delegacia da Receita Federal:

A Receita Federal informa que o homem abordado em um mototáxi neste sábado quando entrava no Brasil pela Ponte da Amizade apresentava-se em estado alterado e reagiu à abordagem.

Por causa de seu estado alterado foi realizado um primeiro acionamento do Samu. Enquanto aguardava, o homem passou para um quadro de convulsão tendo expelido sangue e um pedaço de plástico pela boca. Novamente o Samu foi acionado tendo sido relatada a mudança de quadro agressivo para de convulsão.

Depois de constatado o óbito, a Polícia Federal foi acionada para realizar as perícias necessárias”.

Ademir, segundo admitiu sua companheira, “trabalhava com venda de mercadorias, como chapinha, máquina de cabelo, essas coisas”. Isto pode significar que ele fazia o chamado crime de descaminho, que é a introdução de produtos estrangeiros sem os devidos recolhimentos de impostos. Na explicação de outra fonte do Blog, ele vendia tais produtos pela internet: “E esse cara ia ingerir cápsulas para atravessar a ponte? Ele levava prancha de cabelo, vendia pelo Mercado Livre e OLX. É um pobre coitado.

*Marcelo Auler é jornalista

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