Redação Pragmatismo
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Política 13/Oct/2016 às 13:00
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Quando “opostos” se atraem e se tocam? O MBL e a esquerda identitária

A perplexidade da esquerda identitária só existe porque de certa forma ela contribuiu e muito para esse fenômeno, tendo mais em comum com o MBL do que suspeita sua vã filosofia

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Líderes do MBL (reprodução)

Douglas Rodrigues Barros*, Pragmatismo Político

No final dos anos 90 e início dos anos 2000 uma parte da esquerda dedicava grandes esforços pelas políticas de ações afirmativas. Essa luta significava, sobretudo, o desmonte racional da ideologia de democracia racial que teve como um dos seus grandes expoentes o brilhante – embora, ultraconservador – Gilberto Freyre.

As ações afirmativas, no contexto em questão, visavam negar a negação do racismo no Brasil e, assim, superar a ideologia construída por anos de subordinação e submissão do preto. Visavam acabar com o mito da mistura feliz, dengosa e tranquila das raças. Eram ações que olhavam o contexto histórico, discutiam com o entorno, faziam análises agudas sobre o terreno social, pensavam sobre a questão socioeconômica e, acima de tudo, entendiam o racismo como fundamento da estruturação de classes na história brasileira.

A luta então era construída diariamente, com uma base de sustentação popular que interferia, pensava, articulava e trabalhava no sentido de responder aos problemas nascidos desde a chegada dos portugueses nesses trópicos. A partir de 2002, no entanto, as pautas foram cada vez mais tiradas da base e aos poucos tornaram-se políticas de Estado. Os meninos, que antes eram ativistas sociais, tornaram-se secretários de “alguma coisa”; os estudos que antes detinham forte componente histórico-social, tornaram-se cada vez mais abstrações vazias e destacadas do contexto econômico. Em suma, a luta pelas ações afirmativas encontrava seus limites na burocratização.

Ao mesmo tempo, surgia uma nova modalidade de análise na qual a afirmação identitária passou a significar a exclusão de um horizonte comum de trocas de experiências e reconhecimento igualitário do Outro. Era a exportação ipsis litteris do modelo norte-americano: se antes, sabíamos que o racismo americano de destacava por ser escancarado, ao passo que no Brasil se ocultava sob a alcunha de miscigenação, agora, isso não fazia diferença.

Para a esquerda identitária tudo se resumia, então, a origem; a individualidade de uma experiência determinada pela cor da pele desligada do contexto socioeconômico; ao lugar de fala determinado, não pela posição ocupada no modo de produção, mas, pela experiência inefável de sofrimento individual causado por um aspecto biológico; a importância do protagonismo, óbvio, no interior do mercado.

O racismo estrutural, determinado pela manutenção das relações no interior do sociometabolismo do capital, se convertia para essa esquerda em algo cultural e moral. Como se ambos não fossem determinados pela forma material de manutenção da vida social. E assim, era preciso disputar os nichos de mercado, a moda, o lugar da mocinha na novela da Globo, etc.

Naturalmente, essa tendência da esquerda dialogava com o seu governo. Um governo que se auto bajulava pela formação de uma nova classe-média fomentada a partir de um forte apelo consumista. Era o momento da ostentação consumista, mesmo que esta fosse de itens básicos, tais como; geladeiras, fogões e carros para se locomover ante a falta de um transporte público digno. Se esquentava o ovo da serpente.

Ora, essa breve introdução tem como premissa suscitar a polêmica em torno da vitória eleitoral de um rapaz do MBL. Essa mesma esquerda agora nega que sua vitória seja relevante pelo fato dele ser um antípoda da esquerda. Essa negação é sintomática tendo em vista que mostra os limites que estruturam sua análise pós-moderna.

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As questões básicas são: não era necessário lutar pelo protagonismo? Não era necessário haver representantes negros no parlamento? Não era necessário respeitar o lugar de fala das “minorias” – mesmo que, diferente dos EUA, as minorias (raciais) sejam no Brasil a maioria?

Para essa esquerda o rapaz do MBL é apenas mais um dentre os inumeráveis que foram cooptados pela elite dominante para fazer coro contra seus próprios semelhantes. Essa afirmação tem um caráter duplo: ela é verdade, mas oculta uma contradição.

É verdade, na medida em que historicamente essas figuras aparecem amiúde; desde o capitão do mato, até os negros comerciantes que concordavam com a bula Romanus Pontifex de 1455 que dizia que seus semelhantes não tinham alma e estariam, por isso, destinados a servidão perpétua. Todavia, essa afirmação oculta uma contradição, na medida em que a esquerda identitária defendia, “até ontem”, o protagonismo, o lugar de fala e a representação por si só, fomentando esse tipo de disputa.

Em 1880 Machado de Assis escrevia um dos maiores livros que permanece sendo uma bússola para se compreender nossa formação. Em sua ironia Machado revelava o espírito que formou o Brasil na figura do escravo Prudêncio.

Prudêncio havia sido “peça” de Brás Cubas que quando “criança, montava-o, punha-lhe freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que recebera”. Não é coincidência a semelhança entre Prudêncio e as centenas de oprimidos que encarnam os ideais dos opressores.

Machado de Assis já mostrava que algo mais visceral – que o simples protagonismo, que o simples acesso ao interior do mercado – precisava ser superado. Acesso e protagonismo no interior do mercado se reduzem a liberdade de exploração e manutenção das relações existentes. Está aí o moço do MBL que mantém a ironia machadiana mais viva que nunca. A perplexidade da esquerda identitária só existe, porque de certa forma ela contribuiu e muito para esse fenômeno, tendo mais em comum com o MBL do que suspeita sua vã filosofia.

*Douglas Rodrigues Barros é escritor, doutorando em Filosofia política e colaborou para Pragmatismo Político.

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