Redação Pragmatismo
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Desenvolvimento Brasileiro 04/Oct/2016 às 11:00
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Estamos no início do fim de uma era?

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Imagem: Mídia Ninja

Luís Felipe Machado de Genaro*

O ruim aqui, e efetivo fator causal do atraso, é o modo de ordenação da sociedade, estruturada contra os interesses da população, desde sempre sangrada para servir a desígnios opostos aos seus”. Ao redigir O Destino Nacional em seu O Povo Brasileiro, Darcy Ribeiro denuncia com fulgor a maneira como a sociedade brasileira se estruturou historicamente – desigual e injusta para a grande maioria de sua gente.

Darcy conhecia bem os donos do atraso. No fim de sua vida admitiu ter falhado em todos os âmbitos de seu trabalho, fosse como professor, como político ou antropólogo. Falhou pela dificuldade de atravessar os obstáculos impostos por eles. No conhecido desfecho de sua fala, admite, no entanto, que odiaria estar no lugar daqueles que o haviam vencido.

Rememorar Darcy Ribeiro em uma conjuntura tão intensa como a que vivemos é como submergir de um afogamento, mesmo que de forma abrupta e rápida, em águas tão agitadas. Assistimos recentemente a um processo parlamentarjurídicomidiático de caráter conspiratório – ou golpista, como preferirem – contra a presidenta eleita Dilma Rousseff.

O “projeto de país” iniciado com a ascensão de Lula e o Partido dos Trabalhadores ao poder, em 2002, chegou ao seu fim. Projeto esse que contou com deslizes e traições à sua base quase inomináveis, mas que por outro lado empreendeu esforços diversos nos campos social e democrático nacional. Antes, como conceituou Paulo Henrique Martinez, existia o PT contra a ordem. Depois, o PT dentro da ordem. E dentro da ordem estavam as elites arcaicas – fundiárias, midiáticas e políticas – juntamente com a velha burguesia parasitária. Dentro das estruturas de poder, tudo mudou.

As contradições do período petista são inúmeras e a esquerda brasileira durante todo o tempo esteve nele gravitando. Hoje, com o carcomido PMDB de volta ao poder, e com ele uma agenda de retrocessos sociais e trabalhistas que estão longe do período petista (no passado, claro), o país volta a enfrentar antigos dilemas. Dilemas que jamais foram postos de lado, mas que durante um governo de centro-esquerda ficaram estagnados perante o seu “projeto de país” mais inclusivo que excludente.

Leia aqui todos os textos de Luís Felipe Machado de Genaro

É sabido que muitas permanências foram ignoradas pelo Partido dos Trabalhadores, outrora pautas principais de suas diretrizes partidárias. Imagino ser o momento presente, de perigos iminentes às classes oprimidas e vulneráveis, a hora-chave das forças sociais combativas se reagruparem. Importante refletirmos juntos as possibilidades deste reagrupamento que aos poucos se faz e se fortalece nas ruas, movimentos, coletivos e protestos de massa.

É certo que, como escreveu Paulo Eduardo Arantes, “o spray de pimenta e a bala de borracha”, desde os tempos obscuros da ditadura civil-militar, permanecem. A última manifestação ocorrida em São Paulo contra o presidente ilegítimo Michel Temer comprova o que o filósofo expressa. As Jornadas de Junho de 2013 e tantos outros protestos de massa também (é bom lembrar: mesmo em governos petistas). Entre governos no correr do séc. XX e início do XXI, a máxima de Washington Luís, “povo na rua é caso de polícia”, nunca pareceu tão atual.

Antonio Gramsci conceituou interregno um momento onde o novo ainda não nasceu e o velho ainda não morreu. Estaríamos no inicio do fim de uma era – talvez da Nova República gestada pela conciliação de classes desfechada com o fim do período ditatorial, resultando na Constituição de 1988. A hora-chave para reorientarmos o Destino Nacional que profetizou Darcy Ribeiro, numa “civilização mestiça e tropical, orgulhosa de si mesmo”, é agora.

Leia também:
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O risco de disrupção na estratégia de aniquilar o PT

Reagrupar as forças sociais combativas, os coletivos periféricos, os partidos e intelectuais à esquerda, rever os entraves e corporativismos dos movimentos sociais históricos, dos campos e das cidades, pensar o país nas universidades e centros de pesquisa, e enfrentar a muralha reacionária e conservadora que se ergue de forma feroz e até mesmo radical. Ou isso, ou novo nascerá deformado. Piorado. Retrocederemos décadas. Só então poderemos dizer, de fato, que trilhamos agora o início do fim.

*Luís Felipe Machado de Genaro é historiador, mestrando pela UFPR e colaborou para Pragmatismo Político

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Comentários

  1. Rodrigo Postado em 04/Oct/2016 às 16:12

    (Outro Rodrigo) Hora de refletir sobre aonde errou e aonde acertou, fazer autocrítica, se afastar das práticas da velha política e de alianças espúrias (a batida "busca pela governabilidade", que cobrou seu preço). Na cidade em que resido, o PT vem governando há quase 20 anos e teve sua primeira vitória contra o então candidato carlista - ACM bradava em seus discursos que "o erro de um ano é pago em quatro", mas o candidato petista venceu e trabalhou muito bem com as verbas federais. Recebeu diversos prêmios nos primeiros anos de Governo (Criança Cidadã, Ministério da Previdência e Assistência Social, Vitória da Conquista, 1998, 1999 e 2000; Prêmio Município Amigo da Criança, CONASEMS/UNICEF, Vitória da Conquista, 1999; Prêmio Prefeito Criança, 1º lugar, Vitória da Conquista, 1999 - Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança; Prêmio Saúde Brasil - Uma Questão de Qualidade, Destaque Reconhecimento Público, Ministério da Saúde, Vitória da Conquista, 1999; Gestão Pública e Cidadania, Destaque Especial, Fundação Getúlio Vargas, Fundação Ford e BNDES, Vitória da Conquista, 1999; III CONIP: Excelência em Informática Pública, 1º lugar, VI Congresso de Informática Pública, Vitória da Conquista, 2000; Prêmio Governador Mário Covas, Prefeito Empreendedor, 2002 - Serviço Brasileiro de Apoio às Pequenas e Microempresas, SEBRAE; Prêmio Super Ecologia 2002, Revista Superinteressante), não se tendo notícia ainda de escândalo de corrupção na cidade (que me recordo, houve apenas notícias de "rodízios de carteiras" para alunos em escolas municipais, pela falta delas em número adequado, bem como gasto milionário com chip em uniforme escolar sub aproveitado ou não aproveitado). E então acabou estagnando, nos últimos anos vivendo dos louros do passado e repetindo, eleição após eleição (municipal e estadual) duas promessas: barragem, para fazer frente aos racionamentos anuais (a última construída, em 1984 ainda pelo finado ACM, já há muito tempo com capacidade de superada, eleição após eleição sendo repetida a "estória" de que o valor estaria empenhado, a licitação iria ser iniciada, a obra seria realizada, mas nada); bem como novo aeroporto, para fazer frente à demanda crescente e à instabilidade climática a afetar o atual (pela altitude da cidade, acaba sendo comum o cancelamento de pousos e decolagens - após reiteradas promessas, nos mesmos moldes das promessas da barragem, apenas ficou pronta a pista de pouso e nada mais, que hoje é usada para disputas de "racha"). Mais, o local Rio Verruga foi indicado como o mais poluído do país pela fundação SOS Mata Atlântica, em 2011, sem notícias de melhora na situação. E, com tudo isso, o Deputado Estadual Zé Raimundo-PT está sob o risco de perder em segundo turno para o Deputado Estadual Herzem Gusmão-PMDB (que, apesar da ausência de propostas factíveis, vem vendo sua campanha crescer e não creio ser boa opção, com todo o respeito a quem discorde). No último debate não houve propostas factíveis de nenhum deles, nem dos demais: como seria abordada a violência crescente na cidade, nem mesmo qual é o orçamento da cidade e se a projeção é de crescimento, estagnação ou decréscimo. Outro candidato, o também Deputado Estadual Fabrício Falcão-PCdoB, que tinha chances de "empolgar", não se "descolou" do PT e acabou confirmando a perda de mais eleitores que os já perdidos por votar a favor do "pacote de maldades" do Governador Rui Costa-PT (recentemente houve lamentável cena dos seguranças deste contra professor universitário da cidade, em meio a um protesto), assim ficando atrás em número de votos do Vereador Arlindo Rebouças-PSDB. Após o debate e diante ainda da campanha, cheguei a comentar com amigos que o próprio PT é que elegeria o candidato da oposição, em vez do seu candidato, perdendo para si próprio como em diversas cidades outras do país. É, pois, o momento de refletir sobre os rumos tomados e sobre os que querem tomar, sobre as práticas políticas prometidas e sobre aquelas havidas quando no poder, a fim de determinar se querem seguir sendo alvo do eleitor ou se querem meramente a alternância com PSDB e afins, sempre que a imagem de um deles cansar o eleitor. E focar realmente numa educação transformadora (ou libertadora, como dizia Paulo Freire) e bastante ao desenvolvimento de um povo, vez que os resultados apresentados mostram que o Brasil permanece como um dos piores do ranking (também com as devidas críticas a governos estaduais e municipais, claro).

  2. Thiago Teixeira Postado em 04/Oct/2016 às 18:00

    Não é o fim do mundo como estão fazendo alarde por ai, foi mais uma derrota de uma série de golpes, atendados, agressões e calúnias que a esquerda vem enfrentando incessantemente desde a chegada de Cabral, tem hora que não tem como segurar. Mas a militância vai continuar forte, a esquerda vai se reorganizar e o ciclo de alternância de poder não terá fim. Hoje é a vez da Direita.

  3. Moacir Postado em 05/Oct/2016 às 11:30

    Os ricos ficarão mais ricos e a Cidade mais degradada. E a Esquerda precisa se preparar como provável opção. A Direita (mais enriquecida) sempre poderá migrar para o primeiro mundo...