Redação Pragmatismo
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Cinema 14/Sep/2016 às 18:10
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Sônia Braga comenta decisão do MinC de não indicar 'Aquarius' para o Oscar

Aquarius não foi o indicado do Brasil para concorrer ao Oscar por motivos meramente ideológicos. Os atores e o filme passaram a ser perseguidos por setores conservadores e pelo atual governo após protestos contra o golpe

Sonia Braga Aquarius
A atriz Sônia Braga, protagonista de Aquarius

Homenageada na última segunda-feira (12) em um evento no Festival Internacional de Cinema de Toronto, a atriz Sônia Braga, 66, comentou sobre a decisão da comissão do MinC (Ministério da Cultura) de não indicar o aclamado filme “Aquarius” como candidato brasileiro ao Oscar 2017.

“‘Aquarius’ não foi rejeitado e, sim, outro filme foi o escolhido em um processo natural. Eram vários competidores, reflete o gosto estético da comissão deste Ministério da Cultura”, disse a atriz.

Na manhã de segunda-feira, a comissão divulgou que o drama “Pequeno Segredo”, dirigido por David Schurmann, será o representante brasileiro na disputa por uma indicação na categoria de filme estrangeiro.

“Este filme [‘Aquarius’], que foi como uma missão de resgate de minha carreira no Brasil, tem uma vida própria, e bem dele. Ele foi a Cannes, vai ao festival de Nova York, tem estreia garantida em mais de 50 países, foi recebido com elogios pela crítica e por plateias no Brasil e mundo afora. ‘Aquarius’ me deu a alegria de estar aqui com vocês celebrando minha carreira”, disse Braga.

Kleber Mendonça Filho, diretor do filme, também comentou o fato de Aquarius não ter sido indicado pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil como melhor filme estrangeiro na disputa do Osca.

Para Mendonça Filho, a opção está “em sintonia” com a atual situação política do país e que, a partir daí, a decisão é “coerente e já esperada”

“No final das contas, Aquarius é um filme sobre o Brasil, que está no filme da maneira mais honesta possível. Talvez seja exatamente esta honestidade que tenha feito de Aquarius um filme forte como agente cultural, social e produto da nossa indústria do entretenimento”, disse Mendonça Filho pela rede social.

“Para além de decisões institucionais via Governo Brasileiro, Aquarius tem conquistado internacionalmente um tipo raro de prestígio, e isso inclui distribuição comercial em mais de 60 países enquanto já se aproxima dos 200 mil espectadores nos cinemas brasileiros, com um tipo de impacto popular também raro. Mais ainda, é um filme que já faz parte da cultura e desse tempo, num ano difícil no nosso país”, afirmou.

O filme ainda pode concorrer a indicações em outras categorias, já que estreia nos Estados Unidos no fim de outubro. Pelas regras da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, qualquer filme que estreie comercialmente em Los Angeles até 31 de dezembro de 2016 e fique em cartaz por pelo menos sete dias, com três sessões diárias, pode concorrer.

‘Atestado de burrice’

Para a jornalista Cynara Menezes, boicotar obras de arte em função de ideologia é atestado de burrice.

“Boicotar obras de arte em função da posição ideológica dos autores é o maior atestado de burrice que um ser supostamente pensante pode dar. Aquarius é um filme ‘de esquerda’? Não. É um filme, sem dúvida, contra a especulação imobiliária. Mas precisa ser de esquerda para se o opor à destruição das cidades onde vivemos para que meia dúzia de privilegiados nade em dinheiro?”, questionou Cynara.

Cynara refere-se ao boicote sugerido pelo blogueiro da Veja, Reinaldo Azevedo, que esta semana pediu aos seguidores para que não assistam ao filme.

“O que essa gente propõe? Que quem é de direita nunca mais ouça Chico Buarque? Que quem é de esquerda nunca mais leia Jorge Luis Borges? Que tenhamos de escolher entre Picasso e Dalí, entre García Márquez e Vargas Llosa, a depender de como pensamos politicamente? É impossível criticar sem assistir, ler ou ouvir”, acrescentou a jornalista.

Michel Temer e o cinema brasileiro

A diretora e roteirista Anna Muylaert criticou a escolha do Ministério da Cultua em seu perfil no Facebook.

“O que esperar do futuro? Que os amigos de Michel Temer sejam daqui pra frente os grandes autores do cinema brasileiro – independentemente de sua qualidade ou mesmo de sua representatividade junto ao publico? A resposta é triste e é: provavelmente sim. Com esta escolha de hoje, enterramos muito mais que um filme. Enterramos um paradigma de qualidade e legitimidade para o cinema brasileiro. Quando se está vivendo sob a égide de um golpe nacional, porque haveria de ser diferente com o cinema?”, questionou.

“Do meu ponto de vista o maior prejudicado não foi nem é Kleber e sua equipe e sim o cinema brasileiro”, disse.

“Ora Kleber Mendonça fez um filme – goste-se ou não – importante, extremamente bem dirigido e que conquistou uma vaga na competição de Cannes – a mais difícil do mundo. Além disso, está tendo sucesso de público e de critica no seu país de origem. Escolher outro filme para representar o Brasil agora – um filme que ninguém viu – não é apenas uma derrota para Aquarius – Filme, é antes de tudo uma mudança de rumo nos paradigmas de qualidade que viemos construindo todos nós juntos há anos.”

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Comentários

  1. Salomon Postado em 14/Sep/2016 às 20:02

    É o que venho dizendo, as semelhanças com a Alemanha de 1930 estão ficando a cada dia mais assombrosas. De lembrar que os nazistas queimaram livros em praça pública. Destruíram obras de arte aos borbotões.

  2. Galvão Postado em 14/Sep/2016 às 20:33

    Eu, que após mais de 50 anos de vida consegui chegar a uma universidade, graças aos avanços da política de facilitação de acesso a cultura de um "analfabeto/apedeuta" (segundo o FDP do FHC) do LULA, não estranho um governo golpista do Temer agir desta maneira, isso é só retaliação aos artistas e diretores que não apoiaram o golpe. Temer e sua quadrilha, apadrinhada por PSDBosta, PMDBosta, DEMerda e outros, jamais permitiriam que quem não estivessem apoiando eles brilhassem no mundo. a História vai cobrar, aguardem!!!

    • Sandra Arruda Postado em 16/Sep/2016 às 17:36

      👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

  3. poliana Postado em 14/Sep/2016 às 21:01

    Já era de se esperar esta estupidez!!!!!! Perseguição puramente política!Ridículo!!!

  4. Rodrigo Postado em 15/Sep/2016 às 11:51

    (Outro Rodrigo) Alguém que tenha visto o filme e os concorrentes achou o quê da escolha? Como eu não assisti ainda ao escolhido, nem ao "Aquarius" (um dos preteridos), por enquanto não vou opinar sobre a qualidade daquilo que ainda desconheço.

    • Weslley Marques Postado em 16/Sep/2016 às 13:07

      aí é que tá. o filme escolhido não foi lançado ainda...

      • Rodrigo Postado em 04/Oct/2016 às 10:18

        (Outro Rodrigo) E quanto aos que já o foram?

  5. José Ferreira Postado em 15/Sep/2016 às 13:56

    O filme é horrível. Se não fosse pelo "protesto" os petistas dariam "de ombros" para essa situação. O que foi indicado também é ruim. Oscar para o Brasil só em 2350, se não chover.

  6. Thiago Giacomelli Postado em 17/Sep/2016 às 01:42

    O boicote é totalmente legítimo, o elenco de Aquarius pisou na bola. O filme foi financiado através do uso de Lei Rouanet, ou seja, a população brasileira financiou o filme, ela patrocinou o filme, logo foi a mesma coisa que eles falassem mal de um patrocinador para elogiar o outro... Eles podem ter opiniões políticas pessoais, usando suas redes sociais, indo em manifestações etc, assim como o elenco de Pequeno Segredo fazem, no entanto, politizar seu trabalho que foi financiado por todo o Brasil, foi uma coisa ridícula e legitima o boicote por parte das pessoas que não gostaram. Uma coisa é você fazer um filme politizando uma crítica embutida na produção outra é politizar algo que nada tem a haver com opiniões políticas e sem aval de todo mundo que patrocinou seu filme...

  7. Jéssica Postado em 18/Sep/2016 às 13:13

    Assisti ao filme e fiquei encantada com tanto conteúdo a cada cena. Na minha visão, o filme aborda bem a disputa de direitos baseada em valores diferentes. Por uma lado, Clara, protagonista do filme, é uma mulher arraigada de valores humanos e convicções voltadas para a valorização da vida de forma simples, mas muito intensa. Apesar de ter vencido a um câncer e ter pedido seu marido muito cedo, Clara continuou vivendo sua rotina de forma encantadora e nada monótona. Tomar banho de mar, conhecer pessoas, fazer amizades, valorizar a natureza, se importar com os outros, valorizar sua família, ficar feliz com a alegria dos outros, são apenas alguns valores que pude extrair da vida de Clara. O contato com a música demonstra um aspecto terapêutico, já que a decisão de ficar bem consigo mesma através do auxílio de uma melodia, refletia em Clara sua vitalidade e dedicação em buscar seu próprio bem-estar apesar das dificuldades que lhe rodeavam. Na cena em que Clara se emociona em ver seu sobrinho sentindo amor por uma moça carioca, confesso que fiquei emocionada, porque ficar feliz consigo mesma é muito bom, mas ficar feliz com a alegria do outro ainda é muito mais prazeroso. A história da impunidade em relação à perda do filho da trabalhadora doméstica de Clara é outro ponto de muita reflexão. Provavelmente, a situação econômica da doméstica a deixa à margem da justiça. E, como pano de fundo importante, mas não como principal, já que o filme é todo importante a cada cena, percebe-se a inversão de valores que acontece quando o dinheiro e a ambição são os norteadores de uma visão humana. É triste perceber que não se respeita o outro quando se quer algo movido pela ambição. Os valores simples de Clara são mais valiosos que os valores materiais da política da Construtora. O filme me coloca a par do meu papel social e ético de respeitar os direitos alheios ao invés de só olhar para mim mesma. Num contexto de corrupção aguda, o filme nos coloca para pensar e rever o que de fato é mais importante nessa vida. Parabéns Aquarius (atores, diretores e toda a equipe). Vocês me engrandeceram muito e terei mais consciência na minha vida pós ter tido a privilégio de assisti-los.

  8. Thiago Postado em 18/Sep/2016 às 23:00

    Filme maravilhoso! Não por ideologia, mas por essência, senti-me visualizando o cotidiano, é tão artístico e suave que vc esquece sua vida e vive com Sônia Braga. Simplesmente maravilhoso, inteligente e real.