Redação Pragmatismo
Compartilhar
Mercado 25/Aug/2016 às 14:14
5
Comentários

O preço do feijão no Brasil e o golpe ruralista

O golpe ruralista e o preço do feijão. O agronegócio brasileiro não se preocupa em produzir alimentos para o Brasil; quem bota o feijão na mesa do povo é a agricultura familiar

preço feijão golpe ruralismo agronegócio mercado

Alan Tygel, Brasil de Fato

No último mês, fomos bombardeados pelas notícias sobre a alta no preço do feijão. O povo, chocado em ver o quilo passando de R$10, ouviu as mais diversas explicações dos analistas: geada e muita chuva no sul, falta de chuva em outras regiões, e até o boato de que uma pequena doação para Cuba feita em outubro de 2015 teria sido a causa da escassez. A solução mágica apresentada pelo ministro interino da agricultura, o Rei da Soja, foi zerar a taxa de importação para facilitar a entrada de feijão estrangeiro.

O que estranhamente não saiu em lugar nenhum foi um elemento muito simples: o agronegócio brasileiro não se preocupa em produzir alimentos para o Brasil. E isso fica muito claro quando olhamos a mudança na utilização das terras no país. Nos últimos 25 anos, houve uma diminuição profunda na área destinada à plantação dos alimentos básicos do nosso cardápio. A área de produção de arroz reduziu 44% (quase metade a menos), e a mandioca recuou 20%.

A área plantada com feijão, o vilão do momento, diminuiu 36% desde 1990, enquanto a população aumentou 41%. Apesar de ter havido um aumento na produtividade, a diminuição da área deixa a colheita mais vulnerável e suscetível a variações como estamos vendo agora.

E o agronegócio?

Os grandes latifundiários do Brasil, aliados aos políticos da bancada ruralista, a multinacionais de agrotóxicos e sementes como Bayer, Monsanto e Basf, e às empresas que dominam a comunicação no país não estão preocupadas com a alimentação da população. Estes atores compõem o chamado agronegócio, que domina a produção agrícola no Brasil e vê o campo apenas como local para aumentar suas riquezas.

Isso significa, na prática, produzir soja e milho para alimentar gado na Europa e na China, enquanto precisamos recorrer à importação de arroz, feijão e até do próprio milho para as festas de São João. Exportamos milho, e agora precisamos importar o milho. Faz sentido?

No mesmo período em que a área plantada de arroz e feijão caiu 44% e 36%, respectivamente, a área de soja aumentou 161%, enquanto o milho aumentou 31% e a cana, 142%. Somados os três produtos, temos 72% da área agricultável do Brasil com apenas três culturas. São 57 milhões de hectares que ignoram a cultura alimentar e a diversidade nutricional do nosso país em favor de um modelo de monocultura, que só funciona com muito fertilizante químico, semente modificada e veneno, muito veneno.

No caso da cana e da soja, é fácil entender que não são alimentos, e sim mercadorias ou (commodities) que vão ser comercializadas nas bolsas de valores pelo mundo. No caso do milho, basta ver que em 2015 foram exportados 30 milhões de toneladas de milho, em relação direta com a alta do dólar. Com o preço da moeda americana em alta, vale mais a pena exportar do que vender aqui. Assim, o que sobra no Brasil não é suficiente para o nosso consumo, e por isso temos que importar, o que também irá pressionar o preço. Hoje é o feijão, logo será o milho que vai explodir de preço.

Outro aspecto importante é analisar que quem bota o feijão na mesa do povo é a agricultura familiar. Os dados ainda de 2006 mostram que 80% da área plantada de feijão (e 70% da produção) são da agricultura familiar. E esta agricultura não tem espaço no reino do agronegócio.

Leia também:
Bancada ruralista rejeita homenagem a Chico Mendes
Preço do tomate: o que há por trás do aumento de 150%?

O agronegócio ameaça a soberania alimentar no Brasil. Ao deixar de plantar comida para plantar mercadorias, ficamos extremamente dependentes do mercado externo, e vulneráveis às mudanças climáticas.

O primeiro passo: reforma agrária para dar terra a quem quer plantar comida. Com a terra na mão, precisamos de incentivo à agroecologia, para produzir alimentos saudáveis. Finalmente, essa produção deve ser regulada pelo Estado, via Conab, para garantir o abastecimento interno antes de embarcar tudo para fora.

O governo interino já admite privatizar a Conab, e pode em breve aprovar leis que facilitam ainda mais o uso de agrotóxicos e o uso de pulverização aérea nas cidades.

É, de fato, também um golpe ruralista.

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook

Recomendados para você

Comentários

  1. EDUARDO DO PT Postado em 25/Aug/2016 às 18:51

    Felipe. Sugiro que refaça o ensino médio. Ou pele menos um curso de interpretação de texto.

  2. Eder Postado em 25/Aug/2016 às 21:27

    Que reportagem mais sem noção da realidade. Sou Agrônomo médio produtor de bananas. Já plantei soja, milho, arroz, feijão, melancia, café e algodão. Para quem não sabe vivemos num mundo capitalista (do qual tenho sérias restrições) o agricultor planta o que o solo e o clima da sua propriedade tem aptidão que ele tenha tecnologia e o principal que venha lhe dar lucro. Ninguem vai plantar alguma coisa para ser bonzinho. Pode ter certeza que todos os agricultores do Brasil do grande ao pequeno gostariam de plantar feijão nesse instante.Acontece que a grande maioria não pode, não tem condições. Todos os produtores do mundo do latifundiário ao familar não são aliados das multinacionais, são reféns dessa máfia, apesar da grande maioria não saber disso. Não existe produção agrícola sem uso de pelo menos um mínimo de defensivos agrícolas. As pragas não escolhem propriedades para atacar. Para quem não sabe agricultura familiar produz o que consome com muito pouco execedente. Quem produz a maioria do feijão consumido são os médios e grandes. Para quem não sabe soja e milho são a base de alimentação de gado, suino e aves. Que são nossa fonte de proteína. Só o uso incorreto de defensivos agrícolas podem causar mal a saúde, portanto não vamos generalizar. Ademais, deveríamos eleger um altar para os insumos agrícolas sem eles estaríamos em guerra mundial por comida. Tem muita coisa errada nesse meio, mas não devemos demonizar tudo.

    • Moacir Postado em 26/Aug/2016 às 11:18

      Os governos americano, europeus e japonês incentivam (subsidiam) a produção de alimentos em seus países por serem bonzinhos?... Ou sem noção da realidade?...

    • Edison Carleti Postado em 26/Aug/2016 às 13:30

      Eder, embora não concorde totalmente com o que você pensa, tenho também que admitir que suas colações estão corretas. Querendo ou não somos obrigados a dançar conforme a música. Por isso que somente através de uma verdadeira ruptura com toda essa política neoliberal é que haveremos de viver numa sociedade mais justa. Não adianta nada se vestir de vermelho e defender a reforma agrária quando ao mesmo tempo querer ressuscitar um Governo que tem a ruralista Katia Abreu como ministra. Podemos até pensar diferente, mas gostei do jeito que você escreve. Mostra que tem colocação, edução e acima de tudo discernimento das coisas.

  3. Pedrão Postado em 23/Sep/2016 às 10:07

    Meu finado Pai, estudou somente o 1º ano do primario, mas sabia ler ate muito bem e fazer muito bem as operações matematica,nasceu em fazenda e trabalhou toda sua vida com a terra, Ele amava a terra, morreu aos 83 anos, não era dono das terras somente administrava a fazenda ganhando um salario pífio, mas mesmo assim fazia com carinho como se fosse dele trabalhou praticamente a vida toda para o mesmo patrão, a fazenda pra variar produzia cana-de-açucar, a pouca terra que sobrava meu velho cultivava cereais, arros,feijão milho,batata,etc dava para o consumo da familia,não sou contra o agronegocio mas poderia ter uma lei que obrigasse o grande agricultor reservar uma porcentagem das terras para produçaõ de cereais. Meu Pai parecia um visionário,ele sabia que num futuro iria faltar alimentos,pelo motivo das monocultura, e o grande uso de agrotoxico. Lembro ate hoje da sua frase,claro ironica, Ele dizia " Quero ver o dia que o Homem,inventar uma maquina, que voce põe pedra de um lado e alimento do outro", pois é meu velho ate hoje ainda não inventaram, vamos continuar aguardando, saudades Pai.