Redação Pragmatismo
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Curiosidades 10/Aug/2016 às 13:32
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O que é a Gentrificação e por que você deveria se preocupar com isso

Gentri o quê? É possível dizer que toda cidade grande possui, no mínimo, um caso de Gentrificação para estudo. Talvez você já tenha passado por essa situação. Mas, se não passou, vai entender que é a história de muita gente

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Emannuel Costa, COURB

Para entender gentrificação imagine um bairro histórico em decadência, ou que apesar de estar bem localizado, é reduto de populações de baixa renda, portanto, desvalorizado. Lugares que não oferecem nada muito atrativo para fazer… Enfim, lugares que você não recomendaria o passeio a um amigo.

Imagine, porém, que de um tempo para cá, a estrutura deste bairro melhorou muito: aumentou a segurança pública e agora há parques, iluminação, ciclovias, novas linhas de transporte, ruas reformadas, variedade de comércio, restaurantes, bares, feiras de rua… Uma verdadeira revolução que traria muitos benefícios para os moradores da região, exceto que eles não podem mais morar ali.

É que, depois de todos esses melhoramentos, o valor do aluguel dobrou, a conta de luz triplicou e as idas semanais ao mercadinho da esquina ficaram cada vez mais caras, ou seja, junto com toda a melhora, o custo de vida subiu tanto que não cabe mais no orçamento dos atuais moradores. E o mais cruel de tudo é perceber que, enquanto o antigo morador procura um novo bairro, pessoas de maior poder aquisitivo estão indo morar no seu lugar.

Talvez você já tenha passado por essa situação. Mas, se não passou, deve imaginar que é a história de muita gente. E o nome dessa história é gentrificação.

Gentri o quê?

Gen-tri-fi-ca-ção. Vem de gentry, uma expressão inglesa que designa pessoas ricas, ligadas à nobreza. O termo surgiu nos anos 60, em Londres, quando vários gentriers migraram para um bairro que, até então, abrigava a classe trabalhadora. Este movimento disparou o preço imobiliário do lugar, acabando por “expulsar” os antigos moradores para acomodar confortavelmente os novos donos do pedaço. O evento foi chamado de gentrification, que numa tradução literal, poderia ser entendida como o processo de enobrecimento, aburguesamento ou elitização de uma área… Mas nós preferimos ficar com o aportuguesamento do termo original.

Como funciona?

Um processo de gentrificação possui bastante semelhança com um projeto de revitalização urbana, com a diferença que a revitalização pode ocorrer em qualquer lugar da cidade e normalmente está ligada a uma demanda social bastante específica, como reformar uma pracinha de bairro abandonada, promovendo nova iluminação, jardinagem, bancos… E quem se beneficia da obra são os moradores do entorno e, por tabela, a cidade toda.

A gentrificação, por sua vez, se apoia nesse mesmo discurso de “obras que beneficiam a todos”, mas não motivada pelo interesse público, e sim pelo interesse privado, relacionado com especulação imobiliária. Logo, tende a ocorrer em bairros centrais, históricos, ou com potencial turístico.

O processo é bastante simples: suponha, que o preço de venda de um imóvel num bairro degradado seja 80 mil. Porém, se este bairro estivesse completamente revitalizado, o mesmo imóvel poderia valer até 200 mil. Há, portanto, uma diferença de 150% entre o valor real e o valor potencial do mesmo imóvel, certo? Agora imagine qual seria o valor potencial de um bairro inteiro?

É exatamente nesta diferença entre o potencial e o real, que os investidores imobiliários enxergam a grande oportunidade para lucrar muito investindo pouco. Mas para que tudo isso se concretize, é necessário que haja um outro projeto, o de revitalização urbana, e este, sim, é bancado com dinheiro público, ou através de concessões públicas. Os governantes também costumam enxergar no processo de gentrificação uma grande oportunidade: de justificar uma obra, se apoiar no interesse privado da especulação imobiliária para promover propaganda política de boa gestão.

E aonde acontece?

Em muitos lugares. Talvez seja possível dizer que toda cidade grande possui, no mínimo, um caso para estudo. Evidentemente existem alguns exemplos mais clássicos, em virtude da fama e influência que algumas cidades possuem, ou por conta do contexto histórico envolvido. Vamos destacar rapidamente dois deles:

1. Williamsburg (Nova York, EUA)

Até meados da década de 1990, Williamsburg era apenas mais um bairro residencial do distrito do Brooklyn, cujo único atrativo era sua paisagem – o famoso skyline da Ilha de Manhattan. Foi nessa época que artistas e artesãos locais migraram para o bairro em busca de aluguéis baratos e boa localização. Este movimento se intensificou até virar um dos maiores casos de gentrificação que se tem conhecimento: hoje, é um dos bairros mais badalados do mundo, que dita algumas das referências de moda, música, arte e gastronomia da sociedade ocidental. O processo foi tão grande que alguns dos próprios gentrificadores, precisando fugir do alto custo de vida, se mudaram para o bairro vizinho, Bushwick, que atualmente passa um processo quase idêntico ao de Williamsburg no começo dos anos 2000.

2. Friedrichshain (Berlim, Alemanha)

Após a queda do muro de Berlim, houve uma grande migração dos moradores de bairros da parte oriental – como Friedrichshain, para a parte capitalista da cidade, em busca de emprego, vida moderna e habitação confortável. Este fato abriu oportunidade para que a área, abandonada, fosse ocupada por imigrantes turcos, punks e artistas, em sua maioria jovens e pobres, e essa mistura naturalmente transformou o lugar em um grande fervilhão alternativo, criando uma subcultura de diversas tribos e origens, que hoje promove gastronomia, arte e entretenimento de alto padrão, atraindo berlinenses, turistas do mundo inteiro e é utilizada pelo próprio governo como marca turística.

Obviamente, este fenômeno trouxe um assombroso encarecimento do custo de vida e um acelerado processo de gentrificação: o caso berlinense foi tão violento que o parlamento alemão criou uma lei proibindo bairros com altos índices de gentrificação subirem os preços dos aluguéis mais do que 10% acima da média da região. A lei vem sendo aplicada em Berlin desde Maio de 2015, e em breve também será institucionalizada em outras cidades alemãs.

Há ainda vários outros casos famosos de gentrificação: La Barceloneta (Barcelona, Espanha); Puerto Madero (Buenos Aires, Argentina), Malasaña (Madrid, Espanha) e também alguns casos bastante estudados no brasil, como Lapa e Vidigal no Rio de Janeiro, e Vila Madalena em São Paulo, mas isto é assunto para uma outra conversa…

E por que eu deveria me preocupar com Gentrificação?

Olha, até existem especialistas que não “criminalizam” a gentrificação, por acreditar que este é um processo decorrente da chamada “Sociedade Pós-Industrial”, na qual as relações de consumo (demanda) ditam as relações de produção (oferta), e esta é uma condição natural e irreversível do nosso tempo. Há um debate profundo sobre isso, e a resposta sobre a gentrificação ser boa ou ruim… Bem, depende. Não dá para afirmar com certeza, ainda.

Mas desconfiamos que é mais nociva do que saudável. Por constituir um processo típico de especulação imobiliária, a gentrificação precisa de muito investimento e respaldo do poder público para atender à uma demanda de interesse privado. Ou seja, a cidade (enquanto “a coisa pública”) tem propensão a ser planejada de acordo com a vontade do interesse privado, que não necessariamente é a mesma vontade da população, e nem sempre vai ao encontro das demandas defendidas por especialistas em planejamento urbano.

Por outro lado, estudos recentes realizados nos Estados Unidos apontam que moradores antigos de bairros gentrificados não apenas não foram “expulsos” por conta da valorização imobiliária, como conseguiram, por causa da gentrificação, ampliar suas rendas. Apesar de serem inconclusivos, pois tratam mais de proprietários (que possuem renda sobre o imóvel) e menos de inquilinos (que pagam a renda para o proprietário do imóvel), os estudos colocam à prova alguns “mantras inquestionáveis” da corrente crítica da gentrificação, e abre precedente para a corrente que enxerga o fenômeno como algo saudável para a vida urbana contemporânea.

Do nosso ponto de vista, a gentrificação representa um grande perigo para as cidades, de maneira geral, porque independente de consequências saudáveis ou nocivas para o bairro que foi gentrificado, o grande problema está em mapear o que aconteceu com as pessoas que de fato foram forçadas a migrarem para outros lugares por conta do processo gentrificador: para qual bairro elas foram? Este bairro recebe os mesmos investimentos públicos, e desperta a mesma atenção que o bairro gentrificado? Acreditamos que a resposta seja negativa.

E, se para o bairro bonito pode tudo, e para o feio não pode nada, então não há um projeto de cidade inclusiva e democrática acontecendo nas nossas cidades. A gentrificação apenas será bacana e descolada de verdade quando todos os bairros puderem ver a renda de seus imóveis sendo elevadas, propiciando uma vida cultural, rica, vibrante, que respeite as tradições de cada lugar. Se não for por inteiro, então não vale.

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Comentários

  1. João Rocha Braga FIlho Postado em 10/Aug/2016 às 15:12

    Pode acrescentar o Centro Histórico de Paraty-RJ na lista.

  2. Rosi Postado em 11/Aug/2016 às 08:15

    Cara, muito boa a sua análise! Também não consigo ver, nos bairros gentrificados do Rio, algo que beneficiasse a população como um todo. Concordo que pode até ser positivo para quem era proprietário, mas um bairro não se faz apenas com eles, haveria inquilinos antigos, muitos fazendo parte da classe proletariado, e que, muito provavelmente, não mais conseguiram bancar os aluguéis ou a alta do custo de vida. Muito elucidadativo pra começar uma boa discussão!

  3. Sérgio Postado em 11/Aug/2016 às 11:25

    Aqui em BH identifiquei o chamado Vetor Norte passando por esse processo. Em 2010 foi inaugurada a CA, sem praticamente nenhuma preocupação com as comunidades locais. Há alguns boatos de que especuladores e hotéis "amigos" passaram o rodo nos melhores lotes da região, quando ainda não se falava na construção desse monumento à corrupção. Mas é um bochicho da época, que depois morreu. Não conheço nenhum levantamento objetivo sobre isso.

    • José Fernandes Postado em 18/Aug/2016 às 21:46

      Sérgio parte do Vetor norte tem investimentos de Aécio, Luciano Hulk e de um grupo de Portugues... Mas pra te lembrar ainda na via 710 esta que vai ligar a Cristiano Machado a José Cândido da Silveira a prefeitura foi notificada pelo MP pois estava despropriando moradias bem além do traçado necessária para a construção da via, um processo de higienização do Sr. prefeito dono de construtora...

  4. Eduardo Postado em 11/Aug/2016 às 11:54

    Vocês problematizam demais

  5. Eduardo Ribeiro Postado em 11/Aug/2016 às 14:57

    O Corpo de Bombeiros divulgou semana passada que chegamos em 100 incêndios em favelas de São Paulo só neste ano. A quantidade brutal e a distribuição geográfica dos incêndios deve ser uma coincidência monstruosa, decorrente de um alinhamento planetário/estelar único na história da galáxia. Especulação imobiliária é mero detalhe que ""não vem ao caso"". 100 incendios em favelas de uma das maiores cidades do planeta, na qual uma parte grandiosa das pessoas está dormindo (junto com suas panelas) ou simplesmente não liga, foda-se, ""mal dá pra ver o brilho do fogo daqui da minha varanda-gourmet"", e alem disso ""não é gente que mora lá, é preto e pobre"", e a outra parte, bandida, mas BANDIDA num nível que somente em São Paulo consegue-se encontrar, acha lindo que aconteça tudo isso, ""são vagabundos invasores, bem feito...quem sabe assim não vão trabalhar pra conquistar uma casa digna pagando por ela..tudo vagabundo que vem da Bahia favelizar nossa cidade.."".....é uma racinha que vive 3 orgasmos por incêndio.

    • Lorena Mendes Postado em 18/Aug/2016 às 16:48

      sensacional! As panelas calam e a ignorância grita.

  6. Carlos André Postado em 12/Aug/2016 às 01:54

    Faz parte dos conceitos da Geografia, interligando espaço, território e lugar. Nada mais é que a imposição mercadológica ao uso do solo via especulação imobiliária. Também pode ser interpretada como políticas públicas voltadas apenas para regiões com maior poder aquisitivo, com o objetivo de obter retorno financeiro através da iniciativa privada.

  7. Guilhermo Postado em 16/Aug/2016 às 12:58

    Meu Pai de Santo! Que escassez de matérias é essa? Faz mais de uma semana que não tem atualização com novas matérias no site!

  8. Fabiana Postado em 17/Aug/2016 às 20:32

    Matéria maravilhosa, informativa! Assuntos assim que nos despertam para o que ocorre em volta de nossas casas e vidas.

  9. Ricardo Celso Postado em 19/Aug/2016 às 10:50

    Ótimo artigo, Seria interessante informações como essas promoverem propostas de leis para buscar garantir, em situações possíveis por nem sempre serem, uma forma de se gerar menos consequências prejudiciais da gentrificaçao Acho pouco provável que ela não aconteça Mas a interferência governamental sobre ela poderia produzir quase que pequenas más consequências

  10. anonimo Postado em 19/Aug/2016 às 13:11

    é que nem fogo, joga fogo em mato verde pra ver se queima ou não... custa dinheiro e dá muito trabalho pra criar problemas... legal né.

  11. Denisbaldo Postado em 20/Aug/2016 às 18:33

    Morei em williamsburg no comeco deste seculo e presenciei este fenomeno. Depois me mudei de volta pra SP e pude observar a mesma situacao no bairro onde moro. Com uma diferenca... o projeto Nova Luz nao vingou devido a protestos dos moradores e comerciantes locais.

  12. eu daqui Postado em 22/Aug/2016 às 13:19

    Quase fizeram isso aí com meu bairro: mas o pessoal se uniu e não deixou.

  13. Henrique Postado em 22/Aug/2016 às 14:39

    Gentrificação... Isso não já acontece no Rio de Janeiro? Lembro de uma edição do programa "A Liga", da Bandeirantes, falando sobre a valorização do custo de vida em uma favela carioca. Se não me engano, falavam do Vidigal.

  14. Paulo Martins Postado em 22/Aug/2016 às 21:25

    Muito interessante a matéria.

  15. Beatricee Karla Lopes Postado em 22/Aug/2016 às 23:08

    A gentrificaçao por inteiro, como o autor propõe, é muito bom e interessante, mas, infelizmente, não passa de uma utopia. Há de adimitirmos q onde existe progresso há o regresso dos menos favorecidos. É triste, porém é a realidade! A maioria dos pobres não têm cultura para pensar em algum proveito empreendedor naquele bairro q prosperou, e é por isso q entendem mais cômodo abandoná-lo e procurar por uma nova periferia para viver. Até porque, e tb, com a valorização o ignorante enche os olhos quando alguém lhe oferece um valor qualquer em troca de seu imóvel. Valor esse que para ele (o pobre) é muito, o q o leva a acreditar q é vantajoso se retirar desse bairro q enriqueceu. Além disso, uma pessoa humilde e acostumada com coisas simples talvez não se adaptará bem com o novo bairro e a nova vizinhança nobre. Ele (o pobre) se sentiria inferior e complexado, a não ser q tenha ambição e espírito empreendedor para embarcar na nova vida.

  16. eliane gonçalves Postado em 22/Aug/2016 às 23:32

    isso é o que eles querem fazer aqui em RECIFE com o CAIS JOSÉ ESTELITA mas estamos de olho e vamos a luta contra as grandes imobiliárias e o prefeito que apenas visam lucros e não o bem estar da população menos favorecida,.

  17. Joyce Cabral Postado em 23/Aug/2016 às 00:48

    Ótima matéria mesmo!!! Muito boa reflexão muito boa argumentação. Definitivamente necessário pensar sobre isso e colocar isso para as pessoas pensarem. Todos!