Redação Pragmatismo
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Mulheres violadas 04/Aug/2016 às 10:58
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Nossos estupradores não são imaginários

Por que vilanizamos nossos estupradores de maneira que eles pareçam imaginários? Meu estuprador era uma pessoa. Um rapaz de sardas, tímido, quieto e muito mais educado que os amigos dele...

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Marisa Peters*

Por que vilanizamos nossos estupradores de maneira que eles pareçam imaginários? Nas nossas lembranças, eles raramente têm nome, são apenas “o estuprador”.

Meu estuprador era uma pessoa. Um rapaz de sardas, tímido, quieto e muito mais educado que os amigos dele.

Ele era o bebê de alguém. Alguém o amou no passado, e alguém o ama hoje. Ele é o filho de alguém. Irmão de alguém. Ele carregou as compras do supermercado para o pai. Ele sentou ao lado do bully no ônibus da escola. Ele foi gentil.

Ele é o namorado de alguém e provavelmente segurou alguém de um jeito diferente que me segurou.

Ele é um estuprador. Ele é meu estuprador.

Mas não para as pessoas que o amam.

Você não acreditaria em mim se eu te dissesse que ele é meu estuprador; ele não é assim. Ele é bondoso, jamais faria mal a ninguém. Ele carregou as compras e sentou ao lado do bully no ônibus.

E você não poderia ter criado um estuprador.

O estuprador da minha avó era o marido dela. Ele era um político conhecido. As pessoas perguntavam para ela: “Como você consegue ficar casada com um homem tão charmoso?”

Ela não conseguia, porque apanhou desde a primeira noite da lua-de-mel. Ele tinha filhos com outras mulheres que não conseguiram aguentar seu charme. Quando minha avó descobriu e passou a se recusar a dormir com ele, ele a estuprava.

Ele tentou matá-la e aos filhos, minha mãe de seis, em um incêndio criminoso, para receber o seguro de vida. Não deu certo, e quando ele foi parar no hospital com queimaduras graves, recebia cestas de frutas e cartões, porque “George era um homem tão bom”.

Quando ele se matou, sentiram sua falta. Às vezes ainda ouço as pessoas falando dele. Dizem: “Bem, ele batia em Grace, mas nunca encostou nos filhos”.

Quando falam da minha avó, riem e dizem: “Bom, ela costumava provocá-lo. Ela o deixava nervoso”.

“Ela sabia com quem estava se casando.”

Qual é a cara de um estuprador? Seu filho. Seu irmão. Seu pastor. Seu melhor amigo. Seu marido.

Mas você não vai acreditar na gente porque estupradores são monstros, e as pessoas que você ama jamais poderiam ser monstros.

Então provavelmente estamos mentindo.

Talvez tenhamos inventado tudo porque eles não nos desejavam. Estávamos em busca de vingança. De atenção. Mesmo que atenção significasse meses de ataques pessoais ao nosso caráter. Perguntas sobre que roupa estávamos usando.

O que tínhamos bebido. Se sentíamos alguma coisa pelo cara. Se eles entenderam errado. Éramos sexualmente ativas? Com quem? Como? Gostamos de sexo violento? Têm certeza que realmente disseram “não”?

Não sabem que podem estar arruinando a reputação deles, a vida deles?

Mas tudo o que você precisava perguntar era: “Você consentiu?”

Vou de carro até a casa onde você me estuprou. Fico parada lá, sinto raiva e volto para casa, para minha família, meu filho. Preparo o jantar, vou dormir e penso em você. Mesmo quando tento não fazê-lo.

Procuro desesperadamente seu nome no Facebook, mas você não está lá.

Tento lembrar da sua cara, mas só lembro de seus braços sardentos, porque lembro de olhar para eles quando você estava em cima de mim. Lembro da sua cueca azul. Dos lençois azuis. Do despertador.

Mas não lembro de muita coisa por causa da bebida que você me deu. Eu era nova. Isso me confundiu. Então, durante dez anos, achei que tivesse sido um mal entendido. Bebi demais e transamos.

Você transou comigo e eu estava inconsciente durante a maior parte do tempo, mas como eu poderia saber? Eu tinha 15 anos. Bebi demais? Será que um drink poderia deixar uma menina inconsciente? Acho que depende do que você colocar nele.

Você sabia o que tinha naquele drink, mas eu tinha 15 anos e não sabia.

Não soube por dez anos, porque sentia tanta vergonha do que tinha feito. (Do que você tinha feito.) Dez anos pensando em você e te odiando e me odiando, mas nunca entendendo plenamente o contexto do que aconteceu.

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Nunca considerando porque tinha me convencido e aceitado que não briguei o suficiente. Que talvez você não tivesse me ouvido dizer não. Talvez tivesse sido só um grande mal entendido.

Agora eu sei.

Foi calculado.

Você provavelmente nunca pensa em mim, mas eu tenho de pensar em você.

Tenho de pensar em você desde a manhã seguinte ao estupro, quando fiquei sentada no banheiro dos meus pais olhando para a minha calcinha por horas.

Tenho de pensar em você enquanto escrevo este texto. Me pergunto se, se mencionar seu nome, sua família e seus amigos virão atrás de mim?

Tenho de pensar em você toda vez que sinto cheiro de álcool no hálito de algum homem. Quando vejo sexo na TV. Quando assobiam para mim na rua.

Quando colocam o braço em mim no bar. Quando gritam comigo quando estou indo para o meu carro à noite. Quando me dizem para sorrir quando estou triste ou brava ou simplesmente não tenho vontade de sorrir.

Penso em você quando gritam “Nem todos os homens!”, mas me pergunto por que uma em cada cinco mulheres passam pelo mesmo que eu passei. Por que é “Nem todos os homens!”, mas todas as mulheres são mentirosas no tribunal.

Penso em você e penso em todos esses homens e sei que ensinaram essas coisas para vocês. Você aprendeu a se achar no direito de receber nossa atenção, nossos sorrisos.

Nossos corpos.

Penso em você quando vou para casa e não há nada que me distraia da ideia que te odeio. Penso em você quando me dou conta de que falar a respeito faz as pessoas ficarem em silêncio e pouco à vontade, esperando que eu pare.

Penso em você quando sinto a solidão de carregar essa coisa que ninguém quer ouvir. Essa coisa que provavelmente te fez comemorar com seus amigos.

Essa coisa que sei que jamais será trazida à Justiça, porque acompanho os julgamentos de agressões sexuais.

Nem mesmo com testemunhas, testes médicos, marcas internas e externas. Nem com todas as provas necessárias.

Porque poderia arruinar sua vida.

Penso em você, homem sem nome de braços sardentos, namorado de alguém, filho de alguém, amigo de alguém. Você é todas essas coisas.

Mas também é meu estuprador.

*Marisa Peters é autora do site Stream & Stone.

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