Redação Pragmatismo
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Política 30/Aug/2016 às 12:53
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Luis Fernando Verissimo: Somos os palhaços do impeachment

Escritor Luis Fernando Veríssimo afirma que não seria nenhuma surpresa se depois da provável cassação de Dilma pelo Senado, a Câmara decida absolver Eduardo Cunha, premiando-o com o título de "herói do impeachment"

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Discurso de Dilma Rousseff no Senado Federal (reprodução)

Luis Fernando Verissimo*

Depois da provável cassação da Dilma pelo Senado, ainda falta um ato para que se possa dizer que la commedia è finita: a absolvição do Eduardo Cunha. Nossa situação é como a ópera “Pagliacci”, uma tragicomédia, burlesca e triste ao mesmo tempo. E acaba mal. Há dias li numa pagina interna de um grande jornal de São Paulo que o Temer está recorrendo às mesmas ginásticas fiscais que podem condenar a Dilma. O fato mereceria um destaque maior, nem que fosse só pela ironia, mas não mereceu nem uma chamada na primeira página do próprio jornal e não foi mais mencionado em lugar algum.

A gente admira o justiceiro Sérgio Moro, mas acha perigoso alguém ter tanto poder assim, ainda mais depois da sua espantosa declaração de que provas ilícitas são admissíveis se colhidas de boa-fé, inaugurando uma novidade na nossa jurisprudência, a boa-fé presumida. Mas é brabo ter que ouvir denúncias contra o risco de prepotência dos investigadores da Lava-Jato da boca do ministro do Supremo Gilmar Mendes, o mesmo que ameaçou chamar o então presidente Lula “às falas” por um grampo no seu escritório que nunca existiu, e ficou quase um ano com um importante processo na sua gaveta sem dar satisfação a ninguém. As óperas também costumam ter figuras sombrias que se esgueiram (grande palavra) em cena.

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O Eduardo Cunha pode ganhar mais tempo antes de ser julgado, tempo para o corporativismo aflorar, e os parlamentares se darem conta do que estão fazendo, punindo o homem que, afinal, é o herói do impeachment. Foi dele que partiu o processo que está chegando ao seu fim previsível agora. Pela lógica destes dias, depois da cassação da Dilma, o passo seguinte óbvio seria condecorarem o Eduardo Cunha. Manifestantes: às ruas para pedir justiça para Eduardo Cunha!

Contam que um pai levou um filho para ver uma ópera. O garoto não estava entendendo nada, se chateou e perguntou ao pai quando a ópera acabaria. E ouviu do pai uma lição que lhe serviria por toda a vida:

— Só termina quando a gorda cantar.

Nas óperas sempre há uma cantora gorda que só canta uma ária. Enquanto ela não cantar, a ópera não termina.

Não há nenhuma cantora gorda no nosso futuro, leitor. Enquanto ela não chegar, evite olhar-se no espelho e descobrir que, nesta ópera, o palhaço somos nós.

*Luis Fernando Verissimo é um escritor, humorista,cartunista, tradutor, roteirista de televisão, autor de teatro e romancista bissexto.

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Comentários

  1. John J. Postado em 30/Aug/2016 às 13:52

    FORA TEMER FORA BANDIDOS GOLPISTAS.

  2. Vinis Postado em 30/Aug/2016 às 14:16

    Os coxinhas deviam assumir que não querem tirar Dilma por causa de pedaladas ou qualquer "crime de responsabilidade", mas sim pra direita voltar ao poder e não haver qualquer investigação pra cima deles

  3. Salomon Postado em 30/Aug/2016 às 21:07

    Os trouxinhas amenizaram o ódio. Agora andam macambúzios e sorumbáticos, falando sozinhos pelos cantos. Pressentem que foram enganados, mas nunca vão admitir isso porque o preconceito não deixa. Agora têm que suportar nos ombros o peso de seus atos. São dois anos para fazerem melhor que Dilma e Lula em 13 anos, senão....