Redação Pragmatismo
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Exploração Trabalhador 04/Aug/2016 às 14:37
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Avançar é reduzir a jornada de trabalho para 40 horas

A história mostra que as lutas dos trabalhadores são longas e difíceis. Na Alemanha, a jornada já chegou a ser de 75 horas semanais. Na Inglaterra, de 18 horas por dia para as mulheres. Na Suécia, podia-se empregar meninos a partir de cinco anos. Foi somente no início do século 20 que a jornada de 48 por semana começou a ser instituída onde, hoje, os países são desenvolvidos

jornada de trabalho trabalhadores
(Imagem: Famosa foto de trabalhadores em construção de arranha-céu em Manhattan, Nova York (EUA)

por Clemente Ganz Lúcio*, Brasil Debate

A história mostra que as lutas dos trabalhadores são longas e difíceis. O processo civilizatório que eleva o padrão de vida da sociedade como um todo conta com a participação determinante dos trabalhadores. Eles inovaram, por meio dos sindicatos, em bandeiras de interesse geral, como a democracia, a liberdade, a igualdade, os direitos sociais em geral, criaram partidos e contribuíram para a construção do Estado moderno. Fizeram muito.

Para os trabalhadores, lutar é a condição para viver. Por isso, criam os sindicatos, um solidário instrumento de luta. Reduzir a jornada de trabalho é uma dessas lutas que nos acompanha desde a origem do sindicalismo. Exemplos não faltam. Entre 1850 e 1870, a jornada média na Alemanha era de 75 horas (se uma pessoa trabalha 60 e outra, 90 horas, a média dá 75). A média encobre muitas desigualdades! Na Inglaterra, foi o Factory Act que, em 1844, reduziu a jornada feminina de mais de 18 para 12 horas diárias.

Um anúncio publicado em 1813 por um fabricante de algodão nos Estados Unidos dizia: “Cotton Factory procura algumas famílias sóbrias e industriosas, que tenham pelo menos cinco filhos maiores de oito anos”. Estima-se que, em 1900, havia 1,7 milhão de crianças com menos de 16 anos trabalhando nos Estados Unidos, mais do que a totalidade dos membros da AFL (American Federation of Labour), o maior sindicato do país.

Na Suécia, podia-se empregar meninos a partir de cinco anos, procedimento generalizado nos países da Europa no século XIX. Os exemplos e fatos se multiplicam e estão documentados por inúmeros cientistas sociais, economistas e historiadores.

A luta é longa! Foi somente no início do século XX que a jornada de 8 horas diárias ou 48 horas por semana começou a ser instituída onde, hoje, os países são desenvolvidos.

Educação, qualificação e tecnologia, reunidas nas indústrias nas cidades nascentes, fizeram a produtividade do trabalho crescer espetacularmente. No último século, a produtividade cresceu, enquanto a jornada de trabalho era reduzida!

Mas as máquinas passaram a queimar os postos de trabalho e a luta para que todos tenham emprego ganhou vigor, renovando ainda mais as ações pela redução da jornada de trabalho. Trabalhar menos para que todos tenham empregos. Trabalhar menos para ganhar qualidade de vida, para conviver com a família e os amigos, estudar, praticar esportes, ver um filme, ir ao teatro, cantar, dançar, brincar ou, simplesmente, não fazer nada, ganhou centralidade na vida sindical e na luta dos trabalhadores.

O recente ato falho do presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), propondo jornada de 80 horas semanais, em uma reunião que tratava de inovação, atropela a história e achincalha a utopia de uma sociedade justa. Mas, de maneira dialética, nos faz relembrar nossa história e nos provoca e convoca a protagonizar novos avanços.

Inovar hoje é promover um tipo de dinâmica econômica na qual todos tenham empregos de qualidade e bons salários, para produzir o que a sociedade precisa para ter bem-estar e qualidade de vida.

Inovar hoje é distribuir o produto social, promovendo igualdade de oportunidades e condições.

Inovar hoje é reduzir a jornada de trabalho para 40 horas.

Os trabalhadores veem longe e lutam sempre. Está na hora de tentar novamente!

*Clemente Ganz Lúcio é Sociólogo, diretor técnico do DIEESE, membro do CDES – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social

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Comentários

  1. eu daqui Postado em 04/Aug/2016 às 15:03

    40 horas onde se enriquece trabalhando - onde trabalhar nos enriquece somente de doenças, 30 horas tá de bom tamanho

  2. Guilhermo Postado em 04/Aug/2016 às 20:24

    A "eu daqui" falou exatamente o que eu iria dizer. 30 horas está de bom tamanho.

  3. Edison Carleti Postado em 04/Aug/2016 às 22:52

    O mais interessante desse texto é demonstração que todas as conquistas dos trabalhadores foram frutos de suas lutas. Há quem torça o nariz quando se ouve falar de sindicatos e suas centrais, de partidos de esquerda, marxismo, socialismo, etc. De fato, infelizmente dentro desses meios há muitos safados oportunistas, os famosos pelegos. O mais recente foi essa marmelada dos governos do PT. Mas também há os bravos que muitas vezes sacrificam suas vidas em prol de um coletivo e são a esses que devemos sempre honrá-los. Antes da criação da CLT em 1943, o regime imposto aos trabalhadores no Brasil assemelhava-se muito ao que foi dito nesse texto. A CLT não foi uma panaceia, mas melhorou muito as condições do trabalhador. Agora, o que é triste é saber que tem gente que dá todos os méritos dessa conquista ao ditador Getúlio Vargas, considerando-o como o "pai dos pobres", tal como Princesa Izabel "a mãe dos negros" (sic!). Vejam só, foram as organizações compostas principalmente por trabalhadores imigrantes, partidos como o Partido Comunista do Brasil e alguns movimentos sindicais que lutaram ferozmente por elas. Fora do Brasil acontecia o mesmo e os governos burgueses receavam por uma nova revolução de trabalhadores como ocorrera em 1917 na Rússia. Então, aqui no Brasil e em outras partes do mundo, os governos resolveram ceder para evitar uma insurreição mundial. Puro paternalismo! Essas conquistas também servem para esfregar na cara daqueles que dizem o pensamento socialista é medíocre e utópico, que nunca vai dar certo. Se você pensa assim, olha só, foi através de gente que empunhava bandeiras vermelhas que você hoje tem seu descanso semanal remunerado, suas férias uma vez por ano, um direito a aposentaria e outros benefícios. São poucos? São falhos? Sim e sim. Mas imaginem, se não fossem as lutas dos trabalhadores, talvez ainda vivêssemos na escravidão. E por falar nela, deixem esse governo esdrúxulo fazer as tais "flexibilizações na CLT" para que vejam onde iremos parar. Creio que será no pelourinho.

  4. Renan Pantojo Postado em 11/Aug/2016 às 11:39

    Para algumas pessoas, reconhecer a legitimidade das conquistas dos trabalhadores é sinônimo de simpatia ao comunismo... E ao mesmo tempo, se beneficiam dessas conquistas para terem tempo de pensar idiotices como essa. Se isso não é hipocrisia, é o quê então?