Redação Pragmatismo
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Racismo não 14/Jul/2016 às 16:36
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Globo usa sofrimento de crianças para abordar racismo e causa polêmica

Uma mulher negra que não abre a boca; um homem branco bonzinho; crianças negras desavisadas chorando no confronto com o racismo diante de um cenário manipulado pela maior emissora de TV do Brasil

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Silvia Nascimento, Mundo Negro

A Rede Globo produziu um vídeo (assista abaixo) para o projeto Criança Esperança, onde crianças teriam que ler frases racistas para uma atriz negra, cara a cara, olho no olho. Nada de muito original, porque um projeto semelhante foi feito nos EUA. A diferença é que lá homens adultos diziam textos de conteúdo misógino e obsceno para mulheres também adultas.

Como na experiência americana, muitas dessas crianças não conseguiram dizer as frases e foram tomadas pela tristeza, vergonha e revolta. Algumas delas, inclusive, citaram outras frases racistas que ouviram de outras crianças, o que definiram como ‘bullying’, que é diferente de racismo. Cabia à Globo fazer essa correção, ou alerta, mas o objetivo era ‘emocionar’.

“Eu não gosto da sua cor”; “Seu cabelo é horrível”.

Essas foram as frases que as crianças, em sua maioria negras, tiveram que dizer a uma atriz de cabelo crespo e pele bem escura, que também demonstrou estar emocionada em alguns momentos do vídeo.

Será que a mesma Globo usaria crianças brancas para reproduzir discursos de violência, de frases de pedófilos, por exemplo, para conscientizar sobre abusos na infância? Ou fazer algum menor de idade recitar frases de funks proibidos para falar sobre sexualização das crianças?

Por isso é chocante fazer com que essas crianças negras que passaram e passarão por situações de racismo ao longo da vida tenham suas emoções expostas em rede nacional, nesse “simulado”.

Ficou claro pelas lágrimas, pausas e suspiros, que o cérebro delas leu o experimento como uma experiência real. Elas foram expostas ao racismo e não sairão mais fortes por isso.

Rede Globo, que tal falarmos de racismo expondo o agressor? Questionado a justiça e a Constituição que lê racismo como injúria racial e não manda ninguém para cadeia? Fazer programas que deem visibilidade a projetos de combate ao racismo, fora da campanha Criança Esperança? Ter mais negros na programação, talvez?

A exposição Exhibit-B – repleta de reproduções do zoológico humano, onde negros eram expostos como animais – foi proibida em vários países, inclusive no Brasil, por querer falar sobre racismo expondo as dores dos negros escravizados por meio de atores negros que ficavam expostos dentro de jaulas ou usando correntes, “ao vivo”.

Foi ponto pacífico em muitos lugares que o fardo dos atores do projeto estava além da arte. É o produtor branco mais uma vez transformando a nossa dor em espetáculo.

Eu acho que até há uma boa fé e sinceridade em ações como essas, mas se os envolvidos chamassem a comunidade negra para participar do processo de criação de projetos assim, seria diferente.

Até quando temos que expor as nossas feridas (e das nossas crianças) para ensinar racismo para brancos? Quais as mudanças concretas que essa exposição toda nos traz, além de traumatizar ainda mais nossos pequenos?

VÍDEO:

A seguir, leia o texto de Marcos Romão, ativista negro, publicado no Mamapress:

Uma mulher negra que não abre a boca. Um homem branco bonzinho. Crianças negras chorando no confronto com o racismo.

Um perverso método de se ensinar o que é racismo a uma criança, que ainda tem que se explicar e se desculpar para um homem branco com olhar de pena, porque que ela, a criança, não gosta de ser discriminada.

Só quero saber se no contrato profissional feito com os pais destas crianças existe a cláusula de indenização e reparação de danos psicológicos futuros; para o momento em que cair a ficha de que elas foram usadas por uma rede de televisão, mantenedora e estimuladora do racismo durante 52 anos, e, desavisadas, caíram em uma armadilha, em que toda a encenação foi uma exposição e demonstração de que quando um homem branco fala, as mulheres negras ficam caladas.

Vão amar a mulher negra calada, ou vão passar o resto de suas vidas sentindo pena dela e chorando como adultos que não sabem reagir diante do racismo?

PS.: Nada contra o ator branco, mas o papel que lhe deram e que talvez ele pense ser o de um pedagogo, transmite mais uma vez o papel dos senhores das novelas de época, que sentem pena dos escravos e os abraçam depois deles serem chicoteados.

Positivo é que uma ou duas crianças reagem com indignação, coisa que provavelmente não estava no script — o que me dá uma certa esperança que já tenham crianças que sabem que, desde criancinha, são discriminadas e não vivem no mundo cor de rosa que a Globo quer vender para os brancos e para os negros desavisados.

Realmente não existe criança que nasça racista, mas tanto a menina negra, quanto o menino negro, um dia vão saber que são discriminados e sofrem as ações do sistema racista, desde a barriga da mãe. E enquanto não souberem isto, vão chorar e abraçar como se fossem tábuas de salvação os homens brancos que lhes tratem bem.

É a escravização da mente para a eternidade. Escola dos agradecidos por serem aceitos pelo menos em algum momento.

Enganos platinados.

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Comentários

  1. marc Postado em 14/Jul/2016 às 17:02

    A globo, q veio encontrar uma Maria Júlia Coutinho, q finge dar algum espaço, na segunda década do século XXI q coopera pra manter a tv brasileira com uma das mais racistas, com menos negros em posição de destaques nos programas q países nórdicos e europeus, é muita hipocrisia desta rede q deveria ter alguns de seus programas totalmente banidos. Globogolpista !

  2. Sergio Carneiro Postado em 15/Jul/2016 às 07:17

    A admiração, por essas bandas, pela Rede Globo é grande, pois volta e meia ela é citada.

    • DANIEL Postado em 15/Jul/2016 às 16:46

      é o contrario ela é uma das mais odiadas, ela é o carro chefe das injustiças, do racismo, do elitismo, dos preconceitos e da baixa auto-estima do nosso povo.