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Educação 29/Jul/2016 às 12:03
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“Escola Sem Partido”: engodo e ensino acrítico

É preciso contextualizar o “Escola Sem Partido”. Em primeiro lugar, o movimento não é isento de partidarismo, uma vez que reúne pessoas que partilham de uma mesma ideia. Em segundo, não há nada de novo no “macarthismo” da proposta: trata-se de uma repetição empobrecida de discursos dos anos 1960 que apenas substituiu a fantasiosa “cubanização” pela “venezuelização” do Brasil

escola sem partido

por André Luiz Rodrigues de Rossi Mattos*

Na última década, as práticas e as temáticas desenvolvidas em sala de aula, bem como os conteúdos dos materiais didáticos brasileiros, se viram paulatinamente envolvidos no centro de uma nova polêmica: a suposta doutrinação ideológica de esquerda, que segundo o movimento “Escola Sem Partido”, fundado em 2004 por um advogado, vem sendo crônica no ensino brasileiro nos últimos 30 anos.

Para esse movimento, o ensino no interior das escolas públicas e particulares estaria sendo instrumentalizado para fins político-partidários e ideológicos que seriam tendenciosamente “esquerdistas”. Já nos últimos dois anos, o combate contra essa suposta doutrinação evoluiu do discurso e da propaganda para uma série de propostas legislativas que, em teoria, visam impor a neutralidade do ensino nas salas de aula e conter um suposto abuso na liberdade de ensinar.

A questão não poderia deixar de ser polêmica e assim, contextualizada na crescente divisão política pela qual passamos, está mobilizando amplos setores favoráveis e contrários à proposta. Amostra disso é que além do amplo debate que está repercutindo na imprensa escrita, uma enquete pública aberta pelo Senado Federal sobre o tema, em seu site, já bateu o recorde de votação desde a criação da ferramenta online Consulta Pública, em 2013.

Frente a isso, é preciso ser crítico, definir que movimento é esse e contextualizar as motivações que norteiam as propostas do “Escola Sem Partido”, que como pesquisador de movimentos similares entre os anos de 1930 e 1960, gostaria de contribuir com uma breve reflexão em três ou quatro tópicos.

Em primeiro lugar, o movimento “Escola Sem Partido” não é exatamente isento de partidarismo, uma vez que reúne um grupo de pessoas que partilham de uma mesma ideia, lutam por um mesmo ideal, possuem uma mesma interpretação do mundo educacional e colaboram com alguma organicidade entre si. Isso, por si, apenas indica um tipo de movimento social, que como todo movimento, independente de ser ou não diretamente filiado a alguma agremiação eleitoral institucionalizada, toma partido da realidade e assim, absolutamente não possui neutralidade.

Além disso, todo movimento sempre está inserido em um leque de relações que demarcam os limites das suas ideias. No caso do movimento “Escola Sem Partido”, seus relacionamentos passam por concepções radicalmente contrárias as posições consideradas de esquerda, o que indica seu campo ideológico, mesmo quando não se pronuncia favorável a nada. Não por menos, os projetos legislativos inspirados e apoiados pelo movimento foram apresentados por legisladores contrários às concepções consideradas de esquerda que, pela divisão clássica utilizada para distinguir os campos na política, são conservadores de direita.

A leitura dos artigos e dos depoimentos inseridos no site do movimento também são fontes importantes para demonstrar que a sua fúria está voltada ao questionamento da realidade, principalmente com relação às disciplinas de História, Geografia e Sociologia, mas somente quando essas críticas aparentam se identificar com ideias do campo da esquerda. O ideal, assim, é que em primeiro lugar o movimento “Escola Sem Partido” abandone o mito da inexistente neutralidade apartidária e assuma a sua identidade no campo de disputa das ideias sociais e políticas: é um movimento que quer por fim ao ensino crítico, é conservador, é identificado com o status quo, que é alvo dos questionamentos nas salas de aula, e que atua politicamente no campo da direita, conforme o seu leque de críticas e relações indica.

Em segundo, não há nada de novo no “macarthismo” do “Escola Sem Partido” que não uma repetição empobrecida de discursos dos anos de 1960 que apenas substituiu a fantasiosa “cubanização” pela “venezuelização” do Brasil. Entre 1950 e 1960, o anticomunismo conservador, contextualizado pela Guerra Fria, criou uma fábrica ilusório de que o país estaria sendo tomado pelos comunistas e inflamou o Brasil com um grande engodo que se voltou com força para o lado da educação.

Segundo o discurso de atores sociais conhecidos na época, como Gustavo Corção, Carlos Lacerda ou a revista anticomunista Ação Democrática, publicada pelo Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), existiria um plano arquitetado por Moscou para doutrinar os jovens brasileiros. Segundo esse plano, professores marxistas estariam supostamente convertendo os(as) estudantes brasileiros, pois, após tornarem-se comunistas, se colocariam a serviço da capital soviética para subjugar o Brasil.

Nesse contexto, a literatura crítica e alguns livros didáticos também se tornaram alvos da censura anticomunista, como o chamado “Livro Único” de Nelson Werneck Sodré, o que fez com que a marcha da família paranaense, que apoiou o Golpe Civil-Militar de 1964, fosse rebatizada para uma lustrosa e contraditória “Marcha em Favor do Ensino Livre”. O mais perigoso do anticomunismo no campo da educação no contexto do Golpe de 1964, é que assim como o “Escola Sem Partido” faz hoje, o professor crítico foi confundido com um suposto doutrinador marxista ou esquerdista, tornando-se objeto de análise criminal que, na Ditadura Militar, foi particularmente perseguido por ser considerado um subversivo perigoso à Segurança Nacional.

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Hoje, o movimento “Escola Sem Partido” está construindo bases ideológicas que lembram esse mesmo contexto: um engodo que propositalmente confunde questionamento com doutrinação e que criminaliza institucionalmente o pensamento crítico.

Em terceiro, é importante constatar que, na prática, as propostas legislativas inspiradas no movimento “Escola Sem Partido” não valem para as escolas privadas, que segundo seu Anteprojeto Federal de Lei, teriam apenas que ter o consentimento dos pais de seus alunos para que ministrassem conteúdos supostamente doutrinadores. Isso quer dizer que as escolas particulares continuarão formando estudantes críticos(as) e com capacidade de reflexão para que consigam protagonizar mudanças sociais e políticas em seu tempo. Já os(as) estudantes da rede pública, para quem de fato a proposta dos “sem partido” vale, serão cerceados(as) de uma lista considerável de temas que os defensores da “Escola sem Partido” erroneamente imaginam como doutrinação.

Desse modo, estudantes da rede pública terão um aprendizado acrítico e sem a multiplicidade de opiniões que marca o corpo docente de qualquer instituição, tornando o ensino público qualitativamente ainda mais distante do ensino privado.

Por último, por ter uma visão fragmentada, obscurecida, tendenciosa e partidarizada da realidade das salas de aula, o movimento “Escola sem Partido” comete um grande equívoco por não perceber que o espaço escolar é múltiplo e plural e que o(a) professor(a) também está incluído nessa pluralidade na relação com seus alunos(as). A escola é um lugar de encontros onde estão reunidos diferentes valores, de diferentes famílias, concepções políticas e práticas sociais e religiosas. Além disso, a escola é uma reunião de culturas, anseios, questionamentos, defesas e angústias próprias da juventude que, em contato, fusão ou disputas com preocupações e normas de outras gerações (funcionários, professores, diretores, etc) formam um corpo social multifacetado.

A relação entre o corpo discente e docente também acontece de modo plural e dinâmico, envolvendo tensões e entendimentos. Assim, não existe um único discurso que emana do corpo docente, mas muitos! Alunos e alunas tem aulas ministradas por professores progressistas, conservadores, religiosos, ateus, questionadores, conteudistas, etc., e, como ninguém é um recipiente vazio, os(as) estudantes questionam o discurso de um(a) professor(a), concordam com outro(a) ou discordam de ambos(as).

O mais importante, no entanto, é que nessa dinâmica, alunos(as) e professores precisam lidar com problemas e novidades todos os dias, se confrontar ou concordar a cada conteúdo, debater, se entender ou desentender. Não existe público passivo em sala de aula, pois alunos e alunas confrontam os conteúdos sociais e políticos que absorveram nos seus mais diversos meios com os questionamentos próprios do ambiente escolar. Isso é parte do aprender, o que só acontece em espaços plurais, críticos e multifacetados que, infelizmente, não são compreendidos por profissionais que não foram formados(as) com esse intuito, assim como o(a) professor(a) pode não dominar os procedimentos médicos ou entender o funcionamento de um tribunal.

*André Luiz Rodrigues de Rossi Mattos é formado em Ciências Sociais, Mestre em História, professor e autor do Livro “Uma História da UNE (1945-1964)” — colaborou para Pragmatismo Político.

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Comentários

  1. Eduardo Ribeiro Postado em 29/Jul/2016 às 14:38

    ESP é uma das melhores réguas de carater já inventadas na história da humanidade. É uma certeza factual, certeza matemática, uma lei da física: quem apóia ESP não é uma pessoa de bem. É safado vagabundo sem nenhum princípio de ética regendo a própria vida.

    • José Ferreira Postado em 29/Jul/2016 às 17:05

      E quem diz que os apoiadores desse projeto são "safado vagabundo sem nenhum princípio de ética regendo a própria vida", possuem viés totalitário e intolerante.

      • Eduardo Ribeiro Postado em 29/Jul/2016 às 22:36

        Estou tratando de fatos. Ninguem honesto, ninguém com carater, nenhum brasileiro de bem é a favor dessa merda, a começar por quem está por trás dessa patifaria. Falando com a mais extrema clareza : ESP é coisa de filho da puta e lançará o Brasil nas mais profundas trevas.

  2. José Ferreira Postado em 29/Jul/2016 às 16:07

    Quem tem medo do "Escola Sem Partido"? Eu respondo: São justamente aqueles que cometem o crime de prevaricação ao usar o espaço estudantil para fazer propaganda de um partido político. Os colaboradores desse sítio estão com medo de não ter mais o seu espaço para formar militantes (de esquerda, é claro). Para eles doutrinação só não tem problema se for de esquerda,

  3. Roberto Pedroso Postado em 31/Jul/2016 às 10:31

    Em tempo: os professores convivem com a violência no ambiente escolar, com a desvalorização da profissão, com o descaso gerado pelos vários governos que sucatearam a educação publica e ainda existem pessoas que em sã consciência acreditam que os professores tem tempo de doutrinar ou influenciar alguém? os professores não conseguem nem mesmo dar aulas! oras façam-me o favor! vamos tratar daquilo que realmente importa como a valorização da escola publica,plano de carreira para os professores e o principal tratar de forma seria o problema da falta de recursos atrelado ao descaso criminoso do governo e sociedade que prejudica o ensino publico em nosso Pais, situação esta que decorre desde governos passados.Aqueles que vem a publico falar de doutrinação de esquerda no ensino pouco sabem sobre pedagogia, isto é mais um fantasma criado pelo pensamento reacionário tão presente em nosso pais atualmente com o intuito de desviar o foco e a atenção dos problemas reais que assolam a educação publica no Brasil .

  4. Eduardo Ribeiro Postado em 29/Jul/2016 às 22:33

    Na prática o projeto visa : negação da luta de classes, proibir discussão sobre homossexualidade e transsexualidade, ensino enviesado pela religião, vedar a "aplicação dos postulados da teoria ou ideologia de gênero", embasamento para perseguição política, reconhecer a criança/adolescente como uma tábula rasa, estimular a bundamolice, a aceitação acrítica do status quo e extermínio da vontade de sublevação, vilanizar tudo que remete a esquerda, truncar o ensino de humanas para deixar caminho livre pra barbaridades como "nazismo é de esquerda ". Nem quero entrar com profundidade ainda na DESONESTIDADE dessa porra toda: a educação na conformação atual é completamente unidimensional, uma das principais instâncias de REPRODUÇÃO IDEOLOGICA DO CAPITAL.

  5. Eduardo Ribeiro Postado em 30/Jul/2016 às 08:52

    Mas nós já tivemos essa figura nefasta em sala. Pra ressuscita-la é dois palitos. Mas pense meio segundo: precisa de um bedel pra inibir o professor? Em tempos de "todo aluno possui um smartphone", que professor vai se arriscar a abordar luta de classes, ser filmado e denunciado e as porras todas? Nem precisa isso tambem. Basta UM aluno se dizer "ofendido em sua crença/moral/ideologia" e abrir uma queixa pra esmerdear o lado do professor. Pense de novo: como se aborda luta de classes "com neutralidade"? Porra bicho, arrego digo eu....eu não dependo da vida de professor, então se me perguntarem eu meto o pé mesmo e digo o que é...mas o coitado do professor que depende do trabalho vai pisar em ovos e dizer essas bostas que voces amam ouvir, "não existe nós e eles, somos todos um Brasil só". Então, NA PRÁTICA, luta de classes ou não será abordado ou será abordado toscamente. Isso é um em cerca de 70 mil temas "espinhosos".

  6. Eduardo Ribeiro Postado em 30/Jul/2016 às 09:40

    É a praga do pensamento relativista, que gera o conceito fantasioso e infantil da imparcialidade, a suposta neutralização do ponto de vista de quem fala em favor das coisas "abertas a interpretações". Não existe falácia maior do que essa, porra de "neutralidade", a história é uma só, a verdade é uma só. A independência do professor e a linha pedagógica definida pelo mesmo, corpo de docentes e a secretaria de educação vai ser jogada no lixo baseado nisso. NA PRÁTICA, até o ensino de literatura está ameaçado. Impossível abordar a plenitude de obras de Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Raquel de Queiroz dentro dessa proposta bisonha e bandida de "neutralidade". NA PRÁTICA, as obras destes autores seriam proibidas antes mesmo de entrarem em sala de aula - dispensando novamente a figura do bedel - por "apologia ao comunismo" - e comunismo, como sabemos, é coisa do capeta - , e cairão no ostracismo em meros 12/15 anos. Teremos uma geração que falará de Capitães de Areia e Vidas Secas como a geração atual fala de disco de vinil. ESP = coisa de filho da puta que lançará o país nas trevas.

  7. Thiago Postado em 01/Aug/2016 às 08:54

    Vejamos: I - quantos de vocês, durante o período escolar de vocês foram "influenciados" pelos professores para promoverem os interesses, opiniões, concepções, preferências ideológicas dele? No meu tempo, meus professores se preocupavam em dar aulas. II - Quem já foi prejudicado por um professor por conta das convicções políticas, ideológicas, partidárias dele? Meus professores sempre preferiram dar aula ao invés de ficar de conversa mole. III - Quantos professores vocês tiveram em suas vidas que fizeram propaganda político-partidária? Mais uma vez, meus professores sempre se preocuparam em dar aula. IV - Quantos professores de história apresentaram deixaram de apresentar os principais fatos históricos e suas versões, teorias e todo o resto que foi citado? Meus professores sempre se alinharam com o que era apresentado no livro e em outras fontes. V - Algum professor de vocês já disse que não daria aulas à você pela sua religião não permitir?! Meus professores sempre trataram os alunos de maneira igual. VI - Algum professor já deixou algum baderneiro interferir na aula dele por livre e espontânea vontade?? Ou seja, é tudo balela de quem não consegue tolerar pessoas com pontos de vista diferentes e nem querem que estes tenham voz. Acham que só porque aplicaram um golpe travestido em legalidade, podem fazer o mesmo com o sistema educacional e querem formar não cidadãos, mas massa de manobra para que possam manipular como bem entenderem.

  8. Eduardo Ribeiro Postado em 01/Aug/2016 às 11:10

    Muito blablabla e pouca prática. Vou ser específico: eu gostaria de uma aula, mas uma aula NA PRÁTICA, sobre "O Quinze" de Raquel de Queiroz, que tratasse do contexto da obra e que a abordasse em toda sua amplitude e complexidade sem dar brecha pra um gordinho tetudo mijado fã de Bolsonaro chamar a mamãe chorando porque se sentiu ofendidinho em sua ideologia com base nessa PUTARIA desse projeto BANDIDO. Detalhe que nem estou falando das disciplinas que a plutocracia odeia abertamente - História, Filosofia, Sociologia, porra nenhuma disso - , estou falando de um estudo simples de Literatura, e apenas de um livro, não um período, não um movimento, não de vida e obras de um autor, estou falando apenas de UM livro. Outro detalhe: se é que esse livro seria permitido. Talvez recebesse uma tarja preta, talvez entraria na "lista negra de livros pró-comunismo e pró-satanismo", portanto estritamente proibido de ser trabalhado em sala de aula. Afirmo sem medo de errar: não tem UM FILHO DA PUTA neste país inteiro que me dá essa aula.