Redação Pragmatismo
Compartilhar
Política 03/Jun/2016 às 16:11
5
Comentários

O Sertão nordestino ameaçado

O golpe derrotará o Sertão nordestino? Fome, sede, migração e mortalidade infantil foram superadas com mobilização social, Bolsa Família, cisternas e infra-estrutura. Mas retrocessos ameaçam reconduzir ao ponto de miséria

sertão nordeste cisterna água para todos políticas públicas

Roberto Malvezzi (Gogó), Outras Palavras

Vários retrocessos vieram junto com o governo interino desde o primeiro dia. Um ministério do tempo do Brasil Império – só homens de bens e brancos, sem negros, mulheres e indígenas –, o anúncio do corte na saúde, na educação, encolhimento do SUS, desvinculação do salário dos aposentados em relação ao salário mínimo, eliminação do MinC, daí prá frente.

Dentre esses retrocessos os que mais impactam o Semiárido estão o da educação, saúde e a desvinculação do salário mínimo, do qual dependem aproximadamente 100 milhões de brasileiros.

Porém, há retrocessos que o Brasil em geral não vê, a não ser nós que moramos por aqui, na busca de vida melhor para a população nordestina que sempre esteve à margem dos avanços brasileiros.

O paradigma da “convivência com o Semiárido” ganhou carne com o programa “Um Milhão de Cisternas” (P1MC) e o “Programa Uma Terra e Duas Águas” (P1+2), da ASA (Articulação do Semiárido). O primeiro visando a captação da água de chuva para beber e o segundo, para produzir.

Em aproximadamente 15 anos, um milhão de famílias receberam a cisterna para beber e cerca de 160 mil famílias, uma segunda tecnologia para produzir. É lindo, até emocionante, quando em plena seca vemos espaços tomados de verde com hortaliças ao redor de uma cisterna de produção. Essas tecnologias ainda teriam que ser replicadas ao milhões para garantir a água para beber e produzir, ofertada gratuitamente pelo ciclo das chuvas.

Junto com esses programas, veio a expansão da infraestrutura social da energia, adutoras simples, telefonia, internet, melhoria nas habitações rurais, estradas etc.

A valorização do salário mínimo e o Bolsa Família injetaram dinheiro vivo nos pequenos municípios, movimentando o comércio local, o maior beneficiário desses programas.

Houve também contradições profundas, como a opção pela mega obra da Transposição de Águas do São Francisco, ao contrário de adutoras simples, e a implantação das cisternas de plástico por Dilma no seu último governo. Além do mais, ela estava encerrando o programa de cisternas para beber, alegando que já tinha atingido o número de famílias necessitadas.

Detalhe: o ministro para o qual ela liberou as cisternas de plástico orientou o filho a votar pelo impeachment na Câmara dos Deputados e é agora o ministro das Minas e Energia.

Leia também:
Michel Temer cria mais de 14 mil novos cargos com o apoio da Câmara
Aprovação de pauta-bomba de R$ 58 bi é comemorada por Michel Temer
Michel Temer assina o mais duro pacote antissocial deste século

Mas esse avanço pressupôs a organização da sociedade civil articulada na ASA e a chegada ao poder de governos estaduais menos coronelísticos e corruptos. Sobretudo, supôs o apoio do governo federal a esses programas da sociedade civil.

Acabou. Se perguntarem ao atual presidente onde fica o Semiárido Brasileiro, é provável que ele diga que fica no Marrocos. Como não tem base na região, vai entrar pelas mãos dos velhos coronéis ou de seus descendentes.

Não é possível destruir a infraestrutura construída. Ela tornou o Semiárido melhor, sem fome, sem sede, sem migrações, sem mortalidade infantil. Mas, há muito ainda a ser construído para não haver mais retorno ao ponto da miséria. Uma das ações é a geração de energia solar de forma descentralizada, a partir das casas. Dilma não quis dar esse passo.

Os velhos problemas poderão voltar? No que depender das políticas públicas federais, sem dúvida nenhuma. Quem está no poder não enxerga o Semiárido.

Tempos estranhos, quando setores da sociedade brasileira preferem retroceder aos tempos da miséria total e parte da população se alegra com esses retrocessos.

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook

Recomendados para você

Comentários

  1. Sérgio Carneiro Postado em 05/Jun/2016 às 15:26

    Acabei de perder 2 minutos da minha vida lendo esse texto, mais 30 segundos para escrever esse cometário.

  2. Pedro Accioli Postado em 06/Jun/2016 às 08:15

    Os coxinhas é que são ridiculos, o povo será mandado novamente para a fome e a miséria lá no sertão, vai lá para ver como é uma podridão descarada! A fome só acabou lá graças aos programas sociais do governo!

  3. Eduardo Ribeiro Postado em 06/Jun/2016 às 11:30

    Pouxa....quanto iletrado e elitista, quanto brasileiro de merda, revoltadinhos porque está se expondo o mal que o governo do Presidente Zero Votos NECESSARIAMENTE vai causar aos brasileiros mais humildes. Vocês podiam ao menos fingir que se preocupam com seus irmãos que serão NECESSARIAMENTE prejudicados e atingidos em sua dignidade humana. Finjam, por favor.

  4. Rodrigo Postado em 06/Jun/2016 às 12:16

    (Outro Rodrigo) Em Vitória da Conquista-BA, desde 1997 administrada pelo PT (uma boa administração, ressalto, mas que já passa do tempo de receber um candidato ou projeto renovado - com o mesmo "gás" que Guilherme Menezes teve nos seus primeiros mandatos) vamos para mais um racionamento. Racionamentos de água que se repetem, ano após ano. E, então, em um dos grupos de whatsapp recebo um vídeo da campanha a Prefeito no período do primeiro mandato de Dilma (desde 1997 o PT elege ou reelege candidato) em que o então Governador Jaques Wagner pedia votos e prometia novas adutoras e barragens (como os demais candidatos derrotados também prometiam mundos e fundos para serem eleitos). As promessas foram se renovando nos anos e eleições seguintes e nada ou muito pouco foi feito; no mesmo sentido, agora também sofrem com falta d´água até Itabuna e Ilhéus (cidades vizinhas e com rios), por falta de obras e excesso de "empurrar com a barriga" (dos governos municipal, estadual e federal - ressaltando que Itabuna tem empresa municipal de abastecimento e saneamento). A situação permaneceu inalterada e, em razão do recorrente desabastecimento, indústria cervejeira deixou de montar fábrica em Vitória da Conquista, preferindo a também baiana cidade de Alagoinhas; é configurado um círculo vicioso, em que sofre a população com o desabastecimento, sofre o comércio e indústria e sofre o município pela perda de arrecadação e até mesmo a região (geração de empregos, circulação de dinheiro na cidade, aumento do volume de negócios e atração de empresas fornecedoras). Foi assim com o PT nas três esferas (Federal, Estadual e Municipal - mais que uma "casadinha", novamente ressaltando que o governo municipal petista fez um bom trabalho, mas hoje está estagnando e caberia renovação até mesmo com nova aposta do partido ou coligação) e agora veremos como será com o PT em duas esferas e (interinamente) o PMDB na federal. Essa, pois, é uma reflexão que cabe ser feita, analisando se realmente houve pontos em que se deixou a desejar ou não, mesmo quanto a bem essencial como a água e diversos prejuízos decorrentes de sua falta - criticar o outro é bom, mas devemos lembrar também do "nosso" grupo, sendo uma crítica que fiz a todos os amigos que tão bem fiscalizaram o Cantareira, mas não fiscalizam as adutoras e barragens que abastecem a própria cidade. Já quanto aos demais programas e cortes anunciados, claro que cabe averiguar se o corte decorre de desatenção, desprezo, ou se abarca as diversas fraudes atualmente noticiadas - mortos e até mesmo políticos e familiares de políticos recebendo bolsas que deveriam atender aos realmente necessitados. Então, que tenha lugar a crítica que até então era tímida ou até mesmo inexistente, no sentido da melhor alocação de recursos públicos e melhor gestão dos programas sociais. Averiguar ainda quais cortes já estavam programados (a exemplo da Farmácia Popular, que foi definido pelo Governo afastado). E que se entenda que crítica à má gestão, à fraude, sempre que seja pertinente, jamais se confundirá com desejo de extinção de um programa.

  5. Thiago Teixeira Postado em 06/Jun/2016 às 12:50

    É muito triste por um lado mas eu acho é bem feito. O "povo" não foi as ruas pedir fora Dilma? O "povo" não escolheu deputados e senadores de direita? Tem mais é que passar sede, fome, humilhação e todo tipo de segregação (saúde e educação) desse governo golpista. E tem mais patifaria e revanchismo barato por vir.