André Falcão
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Impeachment 09/Jun/2016 às 10:00
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O golpe não é surreal

O país, sob esse governo interino, é uma afronta à dignidade e à cidadania. Beira o surreal. Mas é real. Porque o golpe é real.

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Presidente interino Michel Temer junto aos parceiros do PMDB (reprodução)

André Falcão*

1983-1984. O país saía da ditadura militar e o povo, na generalidade de suas classes sociais, clamava nas ruas por eleições diretas. Parecíamos, então, todos democratas (ou quase todos, claro). A Emenda das Diretas Já (Emenda Dante de OIiveira), porém, foi rejeitada pelo Congresso.

Assim, as primeiras eleições diretas para presidente, após o regime ditatorial, somente se dariam no ano de 1989, sob a vigência da nova Constituição do país, promulgada em 1988.

Três eleições se sucederam. As esquerdas foram derrotadas em todas. Até que em 2002, Lula vence. E novamente a de 2006. E elege a sua sucessora, Dilma Rousseff, na eleição de 2010, que por sua vez reelege-se em 2014.

Desde quando eleitos (Lula até desde antes), são diuturnamente atacados pela grande mídia nacional. Tiveram a oportunidade de democratizar e regulamentar os meios de comunicação, a exemplo dos EUA e a própria Grã-Bretanha. Não o fizeram. Mal tentaram. Ou foram muito ingênuos, de pensar que esse pessoal algum dia lhes daria trégua, ou se acovardaram. Seu maior erro. Subestimaram a força de uma imprensa milionária, que mente e manipula para salvaguardar seus interesses. Há uma só voz. Não há democracia na mídia brasileira.

Em seus governos (2002-2015), o PIB saltou de R$ 1,48 trilhão para R$ 5,90 trilhões; o PIB per capita, de R$ 7,6 mil, para R$ 28,8 mil; a dívida líquida do setor público, de 60% do PIB, para 33,6% do PIB; o lucro do BNDES, de R$ 550 milhões, para R$ 6,20 bilhões; o do BB, de R$ 2 bilhões, para R$ 14,40 bilhões… Todas as classes sociais ganharam com esses governos. A mais pobre mais. Natural.

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A liberdade de expressão e manifestação foi garantida. Os principais instrumentos de combate a corrupção foram nesses governos criados. E junto com as instituições já existentes (MPF e PF), puderam atuar livremente pela primeira vez em suas histórias. Entretanto, ignorantes ou mal intencionados usaram essa liberdade para ir às ruas exigir sua saída. Não são democratas. Não respeitam a democracia, embora decerto os mais velhos lá estivessem pedindo Diretas Já em 1984.

À cínica alegação de prática de crime de responsabilidade, a presidenta eleita pelo povo foi apeada do poder por uma maioria prenhe de cabras de peia. Toda sorte de injustiças e ilegalidades lhe têm sido impingidas, inclusive pelo próprio judiciário. O país, sob esse governo interino, é uma afronta à dignidade e à cidadania. Beira o surreal. Mas é real. Porque o golpe é real.

*André Falcão é advogado e autor do Blog do André Falcão. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político

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