Redação Pragmatismo
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Contra o Preconceito 03/Jun/2016 às 15:38
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O dia a dia de uma babá entre a elite do Rio de Janeiro

Como é ser uma babá no clube mais seleto do Rio de Janeiro? Normas do exclusivo Country Clube proíbem as empregadas de usarem os banheiros dos sócios. Gabriela* conta seu dia a dia no meio da elite carioca

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María Martín, do El Pais

Gabriela* é babá de duas crianças de três anos e ainda não sabe como explicar para elas que os pufes onde elas sentam para assistir televisão no clube privado mais exclusivo do Rio de Janeiro não são para que ela se sente. As almofadonas coloridas da sala de brinquedos não ostentam uma placa de proibição, mas as funcionárias sabem e contam que as “normas invisíveis” que garantem a ordem no Country Clube de Ipanema têm uma função fundamental: “manter cada um no seu lugar”.

“O problema para mim não é sentar no chão, não. Para mim é complicado porque as crianças costumam dormir no meu colo enquanto assistem a TV. Aí, como eu não posso sentar, tenho que fazê-las dormir antes em outro lugar, para depois colocá-las no pufe”, descreve Gabriela. Ela, que nunca seria aceita entres os 850 nobres sócios do Country Clube pois nem poderia pagar os 1.200 reais que custa a mensalidade, passa dias inteiros no clube com os meninos há dois anos. Inclusive na última quinta, feriado ensolarado, enquanto seus patrões ficaram em casa.

A rotina invisível das dezenas de babás que frequentam o Country Clube, um lugar inspirado nas aristocráticas agremiações de cavaleiros da Inglaterra, não importaria a ninguém não fosse a expulsão de uma delas no sábado, dia 20, do banheiro local. A babá em questão estava ali ajudando a dar banho nas três filhas (de 5, 7 e 10 anos) de um dos sócios. O caso foi exposto na coluna de Ancelmo Gois, de O Globo, e montou-se uma polêmica monumental. Enquanto o mundo do século XXI discute a criação de banheiros para transexuais, no Rio do século XIX as babás dos herdeiros dos sobrenomes mais nobres da cidade não podem se misturar com suas patroas. É norma da casa, o banheiro é “exclusivo para sócias, que deixam lá seus pertences”, justificou o clube.

Para elas, vestidas de branco de pés à cabeça, está o “banheiro das crianças até 10 anos”, pois não há lugar específico para funcionários. “Não temos muito tempo de estar indo ao banheiro, mas acaba que várias babás, em uma emergência, usam banheiros restritos. Isso não deveria ser um problema”, opina Gabriela. “Eu nunca fui impedida, mas sabemos que não podemos e acabamos respeitando. Há até quem segura [a vontade de ir ao banheiro]”. Alertado, o Ministério Público do Trabalho abriu uma investigação para apurar se o clube pode ser acusado de discriminação.

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Não é a primeira vez que as babás do Country Clube, onde a compra do título de sócio depende de um estrito processo de seleção e o desembolso de cerca 400.000 reais, se sentem discriminadas. “Essa história do banheiro já vem há muito tempo, mas ninguém quis reclamar. A gente trabalha, corremos atrás da criança, damos de comer, damos remédio, brincamos, vestimos, lavamos, dormimos… É triste mas não temos tempo nem de nos sentir ofendidas. Eu tenho conta para pagar”.

Gabriela tem 29 anos e dedica-se aos cuidados das crianças dos outros desde os 15 anos. Ela dorme no apartamento dos patrões e costuma voltar para a sua casa, a duas horas de ônibus dali, de 15 em 15 dias, pois trabalha feriados e alguns finais de semana. Gabriela tem uma filha de sete anos e um filho de três que, diante a ausência da mãe, são criados pela avó. Ela recebe 1.200 reais assinados na sua carteira, mais outros 1.800 que os chefes pagam por fora. Tem 13º salário e férias. Ela gosta dos seus patrões, sente-se bem tratada, mas reclama que muitos dos sócios do clube não dizem nem “bom dia”. “A gente é invisível, sabe? A indiferença com a gente é enorme. A gratidão só sentimos por parte das crianças”, lamenta. A mãe, a tia e a avó de Gabriela, todas babás em famílias ricas, a alertaram depois do episódio do banheiro: “Já foi bem pior. Hoje está ótimo”.

As babás são nossas amigas. A mesma babá que cuidou do meu filho cuida hoje do meu neto”, diz uma veterana sócia do clube que não quer se identificar. “Mas aqui deve ter uma ordem”. Essa ordem parece ser quebrada quando algumas babás fazem “coisas absurdas”. Entre elas, não dar descarga depois de fazer xixi, deixar a tampa do vaso aberta ou dar um grito ao perder a paciência com as crianças. Outras, inclusive, relata a senhora, pedem “a melhor comida” dizendo que é para os meninos, mas são elas que acabam comendo. “A proibição de entrar no banheiro não é para humilhar, é pela ordem para que não vire uma bagunça. Algumas babás não têm educação”, explica a sócia.

Gabriela retruca: “Tá sujo? Olha, eu não estou justificando, mas entre dar uma descarga e ver as crianças correrem e ter que sair às pressas para pegar elas, eu prefiro sair às pressas”. “Se esse for o problema por que ao invés de colocar placas no banheiro dizendo que a babá não pode entrar, não colocam outra placa para dar descarga?, questiona”.

O tom combativo, mas resignado de Gabriela, quebra-se de vez no final da conversa, quando questionada sobre o tempo que ela passa com seus filhos, longe das piscinas e das quadras de tênis. Ela chora. “Perdi o aniversário do meu filho. Era o dia das mães, e eu estava aqui no clube. Trabalhando”.

*O nome foi trocado a pedido da interessada

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Comentários

  1. Guilhermo Postado em 03/Jun/2016 às 17:36

    É complicado. De tudo, o pior me parece ser o fato da babá morar na casa dos patrões. Essa situação me faz recordar daqueles tempos do Brasil Imperial, onde os empregados praticamente não tinham direitos e muitos ainda eram escravos. Claro que, por outro lado, Gabriela pode largar este trabalho quando quiser, correndo o risco de ficar desempregada por um longo tempo. Agora, se tratando do "Country Club", o mesmo deveria, no mínimo, construir um banheiro dedicado às babás, caso as madames se incomodem em dividir o banheiro. Enfim, tá tudo errado nisso aí. TUDO.

    • daniela Postado em 04/Jun/2016 às 17:43

      vdd. ver os filhos de 15 em 15 dias? é muita coisa pra mudar..mentalidade escravocrata, abusos trabalhistas, discriminação, elitismo..complicado demais

    • Dulce Leão Postado em 05/Jun/2016 às 17:41

      O que me chocou mais foi a "naturalidade" de uma senhora, em dizer que a baba do filho, é também do neto. Hoje, ao menos, pode-se ter uma mobilidade social através dos estudos. De resto, é resquício de escravidão mesmo.

  2. João Paulo Postado em 03/Jun/2016 às 19:08

    Interessante é o descaso com a vida. Juro que não consigo assimilar a paternidade e maternidade irresponsáveis. O rico tem filho e "toca" para a babá; a babá "toca" seu filho para os avós. Isso quando não "toca" para a rua mesmo ou para a criança mais velha. Afinal, qual o sentido de ter filhos e delegar para terceiros a criação?

    • Luciana lima Postado em 04/Jun/2016 às 10:56

      Veja o que ela falou os patroes rstavam em CASA enquanto ela tava la com os filhos deles eles poderiam ter dado folga pra coitada ver os filhos. Mas saem da reta e ela deixa os filhos com a mae dela pq tem que trabalhar e pagar as contas

    • daniela Postado em 04/Jun/2016 às 17:40

      no caso da baba é questao de sobrevivencia..sem esse trabalho como ira criar os filhos?..o q esta errado é essa forma abusiva de trabalho (so vai pra casa de 15 em 15 dias). ninguem deveria ser obrigado a dormir no trabalho

  3. Pedro Postado em 04/Jun/2016 às 05:39

    Nada errado em usar os serviços de babas, ou mesmo requerer uso de uniforme. Mas o comportamento segregatorio, e a incapacidade de convivência e aceitação de que uma baba, por exemplo, possa cumprir seu trabalho de ajudar a criança adormecer sentada no sofa destinado as crianças revela o atraso cultural das nossas elites. Possuem mentalidade de segregação e elitismo. A questão dos banheiros é muito brasileira, quase "lusitana". Vivi na Europa por 6 anos, na Alemanha. Todas as infra-estruturas sanitárias sempre foram muito boas. Numa visita a Portugal, em um congresso em Lisboa na câmara de comércio da cidade, o suntuoso prédio tinha banheiros horríveis. E claro, o rapaz em cadeiras de rodas não pôde usar a instalação. Me senti em casa....instalaçoes suntuosas e sem um banheiro decente? Um povo sem c* ?

  4. Lann Postado em 04/Jun/2016 às 16:16

    3 mil reais? Pqp pq nao virei babá.

    • daniela Postado em 04/Jun/2016 às 17:42

      3 mil reais mas sem vida propria

    • Thiago Teixeira Postado em 06/Jun/2016 às 12:46

      Realmente, 3 mi reais ... muito não é mesmo? Deveria ser uns 630,00 fora o desconto do vale transporte e resto de comida dos patrões que virou almoço e janta.

  5. Pedro Postado em 06/Jun/2016 às 04:38

    Nossa, que perdigoto claro e bem definido? Por hipocrisia você se refere a tudo que você faz na sua vida? Eh uma introspecção sua? Blz, pode usar os comentários como seu diário aberto. Comentário ridiculo e inutil.

  6. Pedro Henrique Postado em 08/Jun/2016 às 06:47

    Estas mulheres são livres, e o salário está excelente. O contrato de trabalho foi proposto e as babás aceitaram. Agora, com este valor daria para qualquer uma delas buscar prosperidade, talvez terminar os estudos ou ingressar em uma faculdade. "ahh mas não da tempo pois ela mora na casa dos patrões", desculpe! Dá sim! Eu faço EAD na Uninove e pego R$192,00 por mês e não preciso ter frequência na faculdade, citando apenas um exemplo. Em resumo, elas são livres e o futuro delas independente da "mesquinharia" dos milionários pertencem apenas à elas.