Redação Pragmatismo
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Racismo não 03/Jun/2016 às 17:02
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"Me chamavam de macaco. Tive depressão profunda", diz ex-globeleza

Ex-globeleza fala de depressão que sofreu após ser vítima de sucessivos ataques racistas e diz que se sentiu usada pela TV Globo

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Nayara Justino, ex-globeleza (reprodução)

A escolha de Nayara Justino como Globeleza, no final de 2013, e sua retirada do posto meses formam um dos episódios mais emblemáticos de racismo velado e declarado na história recente da TV brasileira.

Racismo declarado porque Nayara foi considerada “negra demais” para ocupar o posto de musa do Carnaval da TV Globo. Assim que foi eleita, recebeu uma enxurrada de ataques racistas pela internet. Já o racismo velado mora na dispensa da atriz de seu posto sem uma justificativa da emissora.

Nayara, que fez uma participação especial no primeiro capítulo de Escrava Mãe, nova novela da Record, deu uma entrevista ao Programa do Gugu – exibido nesta quarta (1º) – e revelou detalhes de como o episódio a afetou profissional e psicologicamente.

Eu me senti usada. Quando eu apareci, eu meio que dei uma levantada no título [de Globoleza], e depois me tiraram do posto. Não tenho revolta por terem me tirado, mas o problema é que eu não pude me defender das ofensas que recebi.”

E não foram poucos as ofensas racistas que a atriz recebeu assim que passou a estrelar famosa vinheta da Globo.

Eu sofri muitos ataques pela internet. Muita gente fazia comparações com personagens que não eram legais. Me chamavam de macaco, Zé Pequeno, e por aí vai. Eu já tinha sofrido isso, mas não nessa proporção. Eu não tinha como me defender.”

Durante a entrevista, ela não demonstrou arrependimento de ter ocupado o posto de musa do Carnaval na TV – título que a tornou conhecida pelo grande público. No entanto, revelou que os ataques gratuitos deste mesmo público afetaram sua saúde mental.

Eu não queria sair, não queria falar com as pessoas, chorava muito. Até hoje eu choro. Foi uma coisa que me marcou muito.”

Além de um quadro que a atriz define como depressão profunda, o episódio resultou também em problemas em sua carreira profissional.

Antes de a minha vinheta ir ao ar, eu recebia muitos telefonemas de empresários. Depois, todos sumiram. As pessoas ouviam o que os outros diziam, mas não procuravam saber da verdade. A Nayara da Globeleza ficou um pouco diferente do que eu era. Não parecia a Nayara ali (na vinheta). Até hoje eu sinto que perdi muitos trabalhos por isso.”

Na conversa, a atriz disse ainda não ter ficado chateada por não recebido apoio ou ter sido tema de uma mobilização virtual, como ocorreu nos casos de ataques racistas com Maju e Taís Araújo.

Teve o movimento “Somos todos Maju”, “Somos todos Taís Araújo”, mas não teve o movimento “Somos todos Nayara”. Mas isso aí não tem nada a ver com elas, eu admiro a coragem delas de expor o problema e lutar pelo racismo.”

Colorismo

O caso de Nayara, considerada “negra demais” para ser uma Globeleza, é exemplo de um tipo de discriminação que vai além do racismo. Baseada na rejeição de uma pessoa basicamente pelo tom da pele dela, essa discriminação é chamada de Colorismo (ou Pigmentocracia).

De forma direta, o termo carrega consigo a definição de que, quanto mais escura for a pele da pessoa negra, mais exclusão e discriminação ela irá sofrer em sua trajetória.

No vídeo abaixo (do canal Preta Pariu) e neste texto de Aline Djokic você confere mais detalhes sobre o que é o Colorismo e como ele se manifesta na sociedade brasileira.



Repercussão internacional

Em fevereiro deste ano, esse capítulo da vida de Nayara Justino ganhou repercussão internacional após uma reportagem especial em vídeo feita pelo jornal The Guardian, que você acompanha no player abaixo:

Leia também:
A reação de mulheres em New Orleans ao conhecerem a ‘Globeleza’
“Seus pelos pubianos devem ser duros como os da sua cabeça”

A reportagem chegou ao conhecimento da atriz vencedora do Oscar, Lupita Nyong’o, que tem sido um ícone de representatividade negra em Hollywood. A atriz fez uma homenagem à brasileira em seu Instagram.

Além de divulgar a reportagem acompanhada de uma foto da ex-Globeleza, Lupita publicou um poema de Edgar Albert Guest, que tem uma mensagem de incentivo para que as pessoas sigam em frente apesar dos desafios do percurso.

My #wcw is Brazil’s @nayarajustinooficial. Her pearl-clutching story here: https://goo.gl/tjo0FT And a poem for posterity on the subject: IT COULDN’T BE DONE: Somebody said that it couldn’t be done But he with a chuckle replied That “maybe it couldn’t,” but he would be one Who wouldn’t say so till he’d tried. So he buckled right in with the trace of a grin On his face. If he worried he hid it. He started to sing as he tackled the thing That couldn’t be done, and he did it! Somebody scoffed: “Oh, you’ll never do that; At least no one ever has done it;” But he took off his coat and he took off his hat And the first thing we knew he’d begun it. With a lift of his chin and a bit of a grin, Without any doubting or quiddit, He started to sing as he tackled the thing That couldn’t be done, and he did it. There are thousands to tell you it cannot be done, There are thousands to prophesy failure, There are thousands to point out to you one by one, The dangers that wait to assail you. But just buckle in with a bit of a grin, Just take off your coat and go to it; Just start in to sing as you tackle the thing That “cannot be done,” and you’ll do it. — Edgar Albert Guest

Uma foto publicada por Lupita Nyong’o (@lupitanyongo) em

A seguir, você lê uma tradução do poema:

Isso não podia ser feito:
Alguém disse que não poderia ser feito, mas ele respondeu com uma risada.
Que ‘talvez ele não poderia’, mas ele seria aquele que não diria isso até que ele tivesse tentado.
Assim, ele se dobrou à direita com o traço de um sorriso no rosto. Ele se preocupava que ele escondeu.
Começou a cantar, como se fosse a única coisa que não poderia ser feito, e ele fez isso!
Alguém zombou: ‘Oh, você nunca vai fazer isso;
Pelo menos ninguém nunca fez isso’;
Mas ele tirou o casaco e tirou o chapéu e a primeira coisa que sabia que ele tinha começado.
Com um elevador de seu queixo e um pouco de um sorriso, Sem qualquer dúvida,
Ele começou a cantar como ele abordou a única coisa que não poderia ser feito, e ele fez isso.
Há milhares de pessoas a dizer-lhe que não pode ser feito, há milhares que profetizam o fracasso,
Há milhares de recordar-lhe um por um, os perigos que esperam para atacar você.
Mas só com um pouco de um sorriso, apenas tire o casaco e vá para ela;
Basta começar a cantar como você pode lidar com a única coisa que ‘não pode ser feito’, e você vai fazê-lo
.”

Amauri Terto, HuffPost Brasil

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Comentários

  1. José Ferreira Postado em 04/Jun/2016 às 15:35

    Ela diz que foi usada como Globeleza, mas está a ser usada de novo, desta vez pela Record, para atacar a Globo.

    • marc Postado em 05/Jun/2016 às 22:55

      e vc sugere q ela pare de ir as tvs ? temos tvs ou meios q nao usam as pessoas neste mundo ? acho q n

      • José Ferreira Postado em 08/Jun/2016 às 09:44

        É verdade. Eu comento em outros textos. É só procurar.

    • poliana Postado em 06/Jun/2016 às 15:12

      vc é um cretino, jose ferreira!!! sempre dando mil voltas e mudando de assunto pra n reconhecer os episódios de racismo! não me interessa o q a globo ou a record fazem, eu quero saber se vc não tem nenhum comentário acerca do RACISMO desumano (com o perdão da redundância) sofrido pela nayara! por favor, n seja hipócrita!! até a lupita que nem conhece a nossa realidade, se sensibilizou com a história da menina...

      • José Ferreira Postado em 07/Jun/2016 às 10:26

        Vocês falam da "manipulação da Globo", mas, quando as emissoras realmente manipulam, não há revolta por parte desses.

      • poliana Postado em 07/Jun/2016 às 13:50

        mais uma vez, jose ferreira, O QUE VC TEM A DIZER SOBRE O RACISMO SOFRIDO PELA MOÇA?! ou vai dizer q o problema tb é a falta de franja? nenhum comentário sobre isso? ou não é racismo, foi apenas injúria racial??? o q a globo ou a record fazem, pouco importa nesse caso...quero saber o q vc tem a dizer sobre o q essa moça sofreu!

      • Eduardo Ribeiro Postado em 07/Jun/2016 às 15:31

        Sempre falei isso. Zé Istoriador Ferreira é o maior colecionador de comentários lamentáveis no que tange o racismo. Tem uma sirene instalada na casa dele, que toca toda vez que um texto sobre racismo é colocado aqui. Aí ele entra em síncope e não se recupera enquanto não vem até aqui pra relativizar, com milhões de voltas, malabarismos e tudo que se pode imaginar.

      • José Ferreira Postado em 07/Jun/2016 às 17:17

        Eu comento em outros textos, relacionados a assuntos diversos, mas ninguém fala nada.

      • poliana Postado em 07/Jun/2016 às 22:24

        não, jose ferreira...vc SEMPRE dá um jeito de fugir do assunto pra não reconhecer q houve racismo nos casos apresentados. vc já teve o descaro de inclusive, dizer q uma criança n sofreu racismo, q o problema era o tamanho da testa dela e q a mãe poderia ter evitado o episódio fazendo uma franja na menina. essa sua "participação" aqui foi inesquecível. e, MAIS UMA VEZ, vc segue n reconhecendo o racismo evidente e tenta desviar o assunto pra rixa q existe entre globo e record. não importa se a record está querendo atingir a globo, ambas sempre se "atacam" em nome da audiência. todo mundo sabe disso. a questão colocada aqui é o racismo sofrido pela nayara justino, q inclusive repercutiu INTERNACIONALMENTE!. porém, vc, mais uma vez, foge do assunto. finge q o mesmo n existe, afinal, n somos um país racista. ok! entendi seu ponto de vista. o problema agora é a globo x record. o resto é mimimi. boa noite.

  2. pedro Postado em 04/Jun/2016 às 15:59

    Nayara,meu anjo esqueça essa midia toda, voce nasceu linda maravilhosa,a globo a tornou mais linda ainda como globeleza,as ofensas que voce recebeu é pura inveja, voce é linda demais menina e deve ser uma pessoa muito doce da pra ver no seu jeitinho meigo, no seu olhar sincero que voce é especial, olhe no espelho,mergulhe dentro de voce e vera que eu falo a verdade. Não se esqueça, a Jaboticaba é talvez a fruta mais Preta que a natureza fez, porem é a mais Doce de todas, Pense nisso. um grande Beijo.

  3. Emerson Postado em 05/Jun/2016 às 20:03

    Ela disse que é descendente de escravos vindos da África, e o certo é dizer que é descendente de negros sequestrados e trazidos para ser escravizados.

    • marc Postado em 05/Jun/2016 às 22:57

      Isto mesmo, pq não dizer q descende de grandes faraós, q tb eram negros e africanos, acho q pq a cultura branca filha da puta repete essa merda de q negros são descendentes de escravos mesmo sabendo q a maioria dos brancos aqui sao de familias mestiças, é muita hipocrisia neste brasil de fdp

      • José Ferreira Postado em 06/Jun/2016 às 10:47

        Os faraós, em sua maioria, não eram negros e nem caucasianos, e eram racialmente próximos dos atuais egípcios. Realmente existiram alguns faraós negros, pois o Antigo Egito também compreendia a região da Núbia, hoje o Sudão e Sudão do Sul.

  4. Thiago Teixeira Postado em 06/Jun/2016 às 12:43

    "Negra de mais" ... existe isso? Quanta frescura, a Nayara é linda, tem um sorriso cativante, samba muito bem, e esses produtores mentalidade Globo a acham "negra de mais"???? Que lixo.

  5. Fran Oliveira Postado em 06/Jun/2016 às 20:29

    Nayara! Vc é daqui da minha região, me lembro das pessoas comentando sobre vc, eu mesma não te vi na Rede Globo, pois há muitos anos que eu não a sintonizo, na verdade, não assisto TV, por falta de tempo também... O racismo, o preconceito que vivemos, muitas vezes é de forma velada, tem o poder de nos "levar ao chão", nos faz caminhar como se estivéssemos num nevoeiro. Somente nos fortalecendo com o auto conhecimento, amadurecendo emocionalmente é que conseguimos reagir e começamos a parar de nos importar com a opinião alheia. Lembre-se, o que os outros dizem e pensam não estão sob o seu controle. A beleza física é efêmera, mas a beleza da alma é eterna. Enriqueça a sua alma, "pois quando os holofotes mirarem para outro porto" vc terá com quem contar, vc mesma. Muita luz para ti garota...

  6. ejedelmal Postado em 07/Jun/2016 às 09:28

    Mas Nayara, está certo: você é macaca, eu sou macaco, somos todos macacos. Pergunte a um biólogo. O que não não somos é PALMITO, como alguns querem ser -- acho que é porque vem em conserva. Tem de haver é um racismo reverso: a PALMITOFOBIA, já que todos os preconceitos vem da SUPREMACIA DO MACHO BRANCO. Além do mais você é linda. Linda nua, linda vestida, linda sambando, linda estudando, linda com seus traços negros, seu cabelo que não nega, e seu tom de pele que branco só consegue assando na praia no verão (mentira, fica tudo vermelho, ardendo e descamando).

  7. Eduardo Ribeiro Postado em 08/Jun/2016 às 15:43

    Mais uma bostejada épica. Esse rapaz é uma metralhadora de fezes com munição infinita.