Redação Pragmatismo
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Contra o Preconceito 10/Jun/2016 às 16:18
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Jornalista faz autocrítica e dá lição sobre preconceito

"Me descobri preconceituosa. Eu, que defendo tanto a igualdade de gêneros, de cor, de religião, que tenho amigos gays, nordestinos, evangélicos, jovens, velhos, com dinheiro e sem, até coxinhas e petralhas". Em desabafo que já conta com mais de 330 mil curtidas, jornalista Beatriz Franco dá lição sobre preconceito. Confira a íntegra

jornalista Beatriz Franco preconceito
(Imagem: A jornalista Beatriz Franco)

Alto Astral

A jornalista Beatriz Franco fez uma postagem em seu perfil no Facebook que já acumula incríveis 338 mil curtidas e mais de 45 mil compartilhamentos.

Na publicação, Beatriz conta que, por falta de emprego na área de comunicação, começou a trabalhar como atendente de um ateliê de doces.

No texto, a jornalista relata como foi sair de uma posição de “jornalista, que fala três idiomas, e tem currículo em comunicação” para “trabalhar de touquinha atendendo os outros”.

Ela afirmou que sentia um pouco de vergonha após assumir a função de atendente, mas percebeu logo o quanto isso era ruim.

“Dá pra entender como isso é errado? Era com essa inferioridade que eu via os outros atendentes, balconistas e nunca tinha percebido! Sentia vergonha por estar em um trabalho honesto, justo, que traz alegria para as pessoas, que auxilia os outros? Eu deveria é ter vergonha de mim por pensar assim, por tanta falta de humildade e empatia”, desabafa Beatriz.

Confira a íntegra:

Me descobri preconceituosa. Eu, que defendo tanto a igualdade de gêneros, de cor, de religião, que tenho amigos gays, nordestinos, evangélicos, jovens, velhos, com dinheiro e sem, até coxinhas e petralhas! Vários tipos de rótulos.

Explico: Nos últimos meses, minha área de trabalho – como muitas – está muito ruim. Em quatro meses não consegui quase nada. Então, depois de meses me enterrando num sofá perdendo tempo, vida e dinheiro, surgiu a oportunidade de ajudar uma amiga atendendo clientes em sua loja de doces. Quatro vezes por semana, período da tarde, remunerado. Uma boa forma de ocupar a cabeça, sair de casa e ter algum dinheiro. Foi aí que veio o primeiro julgamento: Eu, balconista? Jornalista, três idiomas, currículo em comunicação, trabalhando de touquinha na cabeça servindo os outros? Foi difícil tomar essa decisão, mas aceitei, estou precisando.

Dias depois, a cena durante a tarde, limpando uma das mesas, ouvi dois clientes conversando: “Coloco acento em ‘tem’? Mudou com a nova ortografia?” “Não sei. Não entendo.” E eu ali me remoendo pra dizer “eu sei, eu sei!!!”. Mas, eu era só uma atendente e eles não iriam acreditar que eu sabia. Depois a barreira seguinte: conhecidos e colegas antigos entrarem na loja e me verem nessa função. “O que eles vão pensar? Eles não sabem como cheguei até aqui, que a dona é minha amiga, vão pensar que não dei certo na vida.”

Dá pra entender como isso é errado??? Era com essa inferioridade que eu via os outros atendentes, balconistas e nunca tinha percebido! Sentia vergonha por estar em um trabalho honesto, justo, que traz alegria para as pessoas, que auxilia os outros? Eu deveria é ter vergonha de mim por pensar assim, por tanta falta de humildade e empatia.

Por um preconceito idiota eu ia perder a chance de conhecer tanta gente nova como nas últimas três semanas, de ouvir tantas histórias de vida como sempre gostei de fazer, de aprender um novo trabalho, de ajudar uma amiga, de ter dinheiro pra comprar uma nova bicicleta, pra ir no casamento de uma amiga em outra cidade, de viver! Em tão pouco tempo, esse trabalho que eu achava tão inferior já me ajudou a estar mais feliz, disposta, a ter novas ideias, entender como uma pequena empresa funciona, a buscar cursos para aprender mais.

Como dizia meu avô: A vida não é como a gente quer, é como ela se apresenta! Então, estou aqui aceitando com muito amor e gratidão o que me foi apresentado. Aceitando novas formas de crescer e evoluir com, por enquanto, um preconceito a menos. Hoje, estou aqui, jornalista, tradutora, professora de idiomas, aprendiz de gestora e sim, atendente de um ateliê de doces. E o que mais precisar, a gente aprende a fazer também! E, modéstia à parte, eu tbm fico linda de touquinha!

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Comentários

  1. Sergio Carneiro Postado em 11/Jun/2016 às 03:02

    Um relato de como a situação de emprego esta difícil. É apenas mais uma dentre os mais de onze milhões de desempregados no Brasil. Claro que tudo isso é culpa do Temer.

    • poliana Postado em 11/Jun/2016 às 11:24

      vc não entendeu o desabafo dela, filho. a mensagem q ela quis passar. tenta de novo.

      • Plínio Postado em 11/Jun/2016 às 16:48

        kkkk, esse aí deve ter sido o cliente do acento circunflexo...

      • Vinicius Postado em 11/Jun/2016 às 19:30

        Nem adianta Poliana, é muita exigência para uma pessoa que só assiste Jornal Nacional e segue Revoltados Online. * Outro Vinicius

    • Thiago Teixeira Postado em 13/Jun/2016 às 16:28

      Coxinha (atuais trouxinhas) sempre coxinhas. O cara brocha no motel caro e coloca a culpa no Lula.

  2. Rodrigo Postado em 11/Jun/2016 às 21:40

    (Outro Rodrigo) Ontem só lembrei desse texto. Depois de um dia cansativo um amigo chamou pra tomar uma com outro amigo que convidou e saí no meu traje bermuda+havaiana+camisa do Baêêêêêa (Bahia - time) - o amigo que me ligou (Policial Civil) tava no mesmo estilo largado, mas com a camisa do "curíntia". Estávamos achando que era em um dos "butiquins" perto do parque de exposições da cidade, mas era em um bar mais enjoadinho e chique. Resultado: chegamos na porta e o segurança nos perguntou o que queríamos, dissemos que era entrar e ele nos disse que "não vão, hoje é um evento privado" (até que se saiu bem o segurança, pois nem nos chamou de "lisos" pela roupa). O ponto em que o segurança se saiu mal fois nos olhar com cara de "nojo". E aí eu me lembrei de Paulo Freire, quando falou que a educação não libertadora leva o oprimido a querer ser opressor. Essa foi a mentalidade do segurança, que talvez se viu em nós (eu e meu amigo, de bermuda, chinelo e camiseta de time, querendo entrar em um bar qualquer) e talvez não pensou que cada um normalmente entra aonde pode pagar - talvez ele se projetou em nós e pensou que duas pessoas assim trajadas não poderiam arcar com o preço cobrado, fazendo cara de "nojo" e nos "barrando". Bom, ligamos para o amigo (ele, a esposa e o outro casal da mesa estavam "trajados adequadamente") e ele veio nos buscar na porta, o segurança fez cara de mais "nojo" ainda, entramos e nos divertimos até fechar o bar. Ri muito do ocorrigo e mandei áudio nos grupos, ao mesmo tempo em que lamentava a mentalidade do segurança não por nos barrar (poderia ser mero cumprimento de ordem por um funcionário), mas pela cara de "nojo" e desprezo que dirigiu a nós e, quiçá, pela projeção de si próprio que fez em mim e meu amigo, ambos "mau trajados". É realmente uma pena que sigamos com prejulgamentos, com preconceitos comuns a todos e que nos levam às piores opções possíveis.

  3. Jords Postado em 13/Jun/2016 às 10:42

    Ótima reflexão! Sigamos em evolução!

  4. Thiago Teixeira Postado em 13/Jun/2016 às 16:27

    Conheço muitos profissionais da construção civil que preferem passar fome, colocar todas as antigas empresas na justiça (por razões pífias) para conseguir algum dinheiro do que aceitar uma vaga "inferior" aquela em que exerciam. Pura ignorância, arrogância e burrice.

  5. Diego Nicacio Postado em 15/Jun/2016 às 13:16

    Parabéns pela publicação. Ler sua mensagem me levou a uma alto-avaliação. Sem culpar e sem julgar os outros, e sim melhorar nós mesmos!