Redação Pragmatismo
Compartilhar
Política 03/Jun/2016 às 15:54
19
Comentários

Dicas para debater política sem baixar o nível

Em tempos de ânimos aflorados e intensa polarização, é possível discutir política sem descer o nível? Confira algumas dicas para debater com elegância e preservar as amizades

debate política amigos mesa bar
(Imagem/Reprodução/O Dia)

Camilo Rocha, Jornal Nexo

Com um país marcado pela polarização, discussões sobre política e visões de sociedade se espalharam por inúmeras esferas de nossas vidas. Navegar pelas conversas do Facebook mostra o quão obsoleto ficou o antigo dito popular de que “futebol, religião e política não se discute”. Nas reuniões em família e encontros entre amigos, então, fala-se de política como nunca. E muitas vezes laços afetivos de anos se desgastam por conta das divergências.

O problema é que parte considerável dos embates entre ideias diferentes se caracteriza quase sempre por dois monólogos andando em paralelo, com o reconhecimento da outra parte ocorrendo apenas através de ofensas ou sarcasmo. Muito se fala, e pouco se ouve. Muito se prega, pouco se debate. E quando há troca, esta acontece menos como debate e mais como disputa, sempre com cada lado buscando ter a última palavra e “vencer”.

Ao contrário do que muitos imaginam, bons debates servem para construir conhecimento e não disputar. São oportunidades para que fatos e ideias circulem e sejam colocadas à prova. O filósofo grego Aristóteles descreveu a prática como “encontros dialéticos entre pessoas que participam de argumentos não com o propósito de competir, mas para testes e investigação”.

“Em todos os debates, deixe a verdade ser seu objetivo, não a vitória ou um interesse injusto”, disse com otimismo o filósofo e colono norte-americano William Penn.

É fácil encontrar por aí aconselhamento de como “vencer” um debate (incluindo aí o clássico e sarcástico “Como vencer um debate sem precisar ter razão”, do filósofo Arthur Schopenhauer), mas não é o que propomos aqui. Em vez disso, apresentamos dicas para encarar um debate em que o aspecto competitivo é menos importante do que a circulação de ideias. Convencer o outro lado de que há razão em seus pontos pode ser uma das consequências. Assim como a preservação de amizades e relações familiares.

Avalie a situação. Você quer debater com essa pessoa?

Aquela frase que “deu raiva” pode provocar uma resposta inconsequente e quando você se dá conta lá se foram 20 minutos perdidos em uma conversa que não resulta em nada. O autor americano Grenville Kleiser, que escreveu dezenas de livros sobre sucesso pessoal e oratória no começo do século 20, listou tipos com quem não se deve perder tempo debatendo em “How to argue and win”. Estes incluem o “dogmático” (“que resiste a prova mais evidente da verdade”), o “imperioso” (“que gosta de impor seus sentimentos sobre os outros”), o “egoísta” (“que se deleita em ouvir a si mesmo falar”) e o “rabugento” (“que se ressente da contradição, e rapidamente se ofende”).

Você entende desse assunto o suficiente?

Óbvio, mas frequentemente ignorado. Existem dois cenários possíveis no caso de você entrar em uma conversa sem entender muito sobre seu objeto. No primeiro, o “outro lado” é também desinformado e vocês dois correrão então o risco de ficar trocando pontos superficiais (quando não equivocados) sobre o tema. No seu segundo cenário, o outro debatedor é bem informado sobre o tema, ou pelo menos mais bem informado do que você. Perigo de vexame à vista. E, se o debate for online, não pense que “googlar” rapidamente em outra aba enquanto responde é uma maneira aceitável de participar. O risco de ser desmascarado permanece.

Prefira fatos, não opiniões

O que é mais fácil? Convencer alguém dizendo “a economia do país vai mal” ou mostrar índices de desemprego ou retração econômica? Seu interlocutor tende a acreditar mais em você ou no IBGE? De certa forma, viramos todos pequenos órgãos de mídia na rede social, selecionando e divulgando informações. Vale então reproduzir as boas práticas do jornalismo, que usa dados, números, estudos e pesquisas para embasar seu conteúdo. Para além dos números, seus pontos devem ser baseados em fatos e não achismos. Dito tudo isso, há que se lembrar das armadilhas dos “fatos duros”, pois números e estatísticas também se prestam a interpretações. Um exemplo simples: se o PIB sobe 2% isto pode ser uma boa notícia. Mas se no ano anterior, ele tinha caído 4%, a perspectiva muda. E pode mudar outra vez se o país vizinho registrou uma alta de 5% em seu PIB.

Cheque seus fatos

A procedência das informações compartilhadas tem que ser um ponto sagrado. A profusão de notícias falsas é um fenômeno gigantesco e real. Segundo pesquisa do American Press Institute, notícias falsas costumam circular três vezes mais que as verdadeiras na internet. Fique atento ao veículo que está publicando e a detalhes como erros de grafia, uso de CAIXA ALTA no meio do texto, local e data do fato citados e confiabilidade das fontes. Compartilhar notícias inverídicas como “argumento” sabota sua credibilidade como debatedor, dentro e fora da rede.

Não recorra a falácias ou sofismas

Além das informações falsas, existem também as falácias e os sofismas, que são argumentos falsos com aparência de verdade. Um exemplo comum é quando se diz que um artista é de boa qualidade porque vende muito, equivalendo êxito comercial com qualidade artística. Uma falácia conhecida de quem acompanha debates eleitorais é quando um participante desqualifica o autor em vez do conteúdo: “Como podemos levar a sério a proposta de um homem que deixou o Estado endividado?”. Esta falácia é chamada de “argumentum ad hominem”.

Fuja das generalizações

Todos conhecem bem esse tipo de frase: “todo político é corrupto”, “todo esquerdista defende o comunismo” ou “São Paulo, terra de coxinhas”. Ao se utilizar de um expediente assim, seu discurso fica com cara de superficial e perde força. Por outro lado, se um debatedor se utilizar de uma generalização assim, abre espaço para que você o rebata com sucesso. Em “Como vencer um debate sem precisar ter razão”, Schopenhauer aconselha, “encontre uma instância que demonstre o contrário”. “Basta uma contradição válida para derrubar a proposição do seu oponente”, escreveu.

Pesquise melhor sobre “o outro lado”

É comum imaginar a argumentação alheia dentro de um conjunto de clichês baseado na percepção que se tem de como o “outro lado” pensa. Se você tem um pensamento político do centro para a esquerda, pode ter ideias pré-concebidas sobre como pensam as pessoas que habitam o lado oposto do seu espectro político. E vice-versa. É um erro estratégico. O blogueiro de política americano Kevin Drum recentemente criticou artigos que dão dicas de como falar sobre política na família pois partem de estereótipos irreais. Drum, que se intitula “liberal” (o que nos Estados Unidos significa “mais à esquerda”), sugere ir mais longe e se colocar no lugar do outro para “pensar em respostas que podem realmente persuadir alguém que é conservador”. Entre a “lição de casa” para este caso, Drum sugere assistir ao [canal conservador] Fox News por um tempo, ouvir comentaristas de rádio e ler algumas correntes de email.

Seja gentil, seja educado

Pode haver satisfação em atacar com agressividade um interlocutor que acaba de dizer uma grande bobagem contra ou a favor do Bolsa-Família. Deixar a emoção teclar no lugar da razão talvez seja catártico por alguns segundos, mas não constrói nada e geralmente leva a conversa para uma direção indesejada. Então, deixe de lado o sarcasmo, a ironia, o deboche, o xingamento, o famigerado CAPS LOCK, e as muitas exclamações e interjeições, se sua intenção é debater em alto nível.

E bom debate!

Leia também:
Antiantipetismo
Discutir política é diferente de discutir futebol
Vamos quebrar o tabu e discutir eleições para o Judiciário?
Política não se discute?
Facebook é a melhor rede social para discutir política, afirmam internautas

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook

Recomendados para você

Comentários

  1. Dirceu Postado em 03/Jun/2016 às 17:50

    Acho que a melhor dica para debater política sem rebaixar o nível é: NÃO DEBATA. Não por medo ou covardia ou omissão. Mas por economia de recursos e estresse. Só tem dois tipos de pessoas nas redes sociais. As que tem a mesma visão que você, e portanto não precisam ouvir o que você sabe, e as que discordam totalmente de você e vão se apegar às suas crenças até o fim, por mais que você tente argumentar racionalmente usando fatos. E não só política. O mesmo se aplica a qualquer tema polêmico: religião, aborto, maioridade penal, etc.. Então em vez de perder tempo discutindo, o melhor a fazer é aproveitar esse tempo que você economizou e fazer uma pipoca e ficar só olhando os mais acalorados discutirem.

  2. Pedro Postado em 04/Jun/2016 às 03:17

    Cara, você é troll do site. De todas as pessoas, você é a pior figura que comenta aqui, frequentemente e compulsivamente, junto com o "troll jurídico". No seu caso, (1)Você entende desse assunto o suficiente? - não. (2) Prefira fatos, não opiniões - você se limita a opiniões sensacionalistas para efeito de choque. Sua intenção é ofender. Fatos? Jamais. (3) Cheque seus fatos - você nunca apresenta fatos. (4) Não recorra a falácias ou sofismas - você se limita a xingar e ofender. (5) Fuja das generalizações - sem comentários. E finalmente (6) Seja gentil, seja educado - você é rude, visa "causar" e trollar de forma aberta. Sua intenção é ferir, de forma infantil e pouco inteligente. Como o troll jurídico, não ha qualquer traço de respeito pelo outro ser humano no outro teclado. E você ver dizer que os outros usuários precisam refletir a noite? Eh mais uma trollagem sua, uma provocação barata e imatura.

    • Edson Jr Postado em 04/Jun/2016 às 11:54

      É notável a falta de intelectuais da direita brasileira, ai quando os seus adeptos tentam argumentar algo já esperamos aquela cartilha básica: Notícias falsas de sites de direita(Como por exemplo essas do lula ter 200 bilhões no exterior, barco de 100 milhões, etc), Manipulação de Notícias (Como, por exemplo, a entrevista do Tico Santa Cruz, que foi editada e foram cortadas palavras do entrevistado fazendo que sua frase mudasse de sentido, entrevista completa pode ser vista no youtube), Xingamentos (Os melhores argumentos, tanto da nossa direita, quanto da esquerda, pois sempre me envergonho quando alguém pública algum tipo de argumento em página de esquerda e é recebido com xingamentos), e por último, o supremo, o melhor, o mais utilizado pelos pseudo intelectuais, a ironia, que tenta desqualificar o argumento de alguém sem argumentar, simplesmente dando uma "risadinha" no final(Exemplo, o "argumento" do nosso querido leitor Naro Solbo)

    • Pedro Postado em 04/Jun/2016 às 19:27

      Sério que sua resposta é essa? "Então, deixe de lado o sarcasmo, a ironia, o deboche, o xingamento, o famigerado CAPS LOCK, e as muitas exclamações e interjeições, se sua intenção é debater em alto nível." o seu interesse é o que afinal? O seu interesse é expressar sua indigência intelectual e existencial. Eh "trollar", pura e simplesmente. Impressiona como você é absolutamente incapaz de se ater ao tema de uma discussão. Xinga, esperneia e fala bobagem. Não tem fa não criatura atroz: sua participação aqui é prejudicial, e você sabe disso.

    • Pedro Postado em 05/Jun/2016 às 04:16

      Troll.

    • Pedro Postado em 06/Jun/2016 às 04:36

      Eu nao te "stalqueio". Você não merece respostas para suas perguntas, mas vamos la. Você sempre desrespeita os frequentadores dessas paginas, usa ironia, ofensas pessoais, mentiras e descamba para a franca burrice caótica que pode apenas ser interpretada como "trollagem". Você realmente espera ser uma pessoa bem-vinda, alguém a ser tratado com respeito? Porque você acha que suas mentiras e ataques podem ficar soltas no ar, sem que as pessoas, quem quer que seja, as exponha? Pior, sua evidente truculência e limitação intelectual e existencial, por exemplo, recorrendo a este chucro recurso de me mandar capinar ou lavar roupa, apenas o afundam mais na sua própria lama. Seu comportamento é tipificado, repetitivo: você escreve uma mentira, ela é facilmente derrubada. Você muda de assunto e apela para xingamentos e hipóteses de vidas pessoais que você sequer conhece. Quem quiser pode sempre colocar seus pobres comentários no devido lugar e pouco importa como ou a quem isso incomode. Resumindo: você não faz o menor sentido, não oferece uma voz discordante construtiva, e prejudica intencionalmente os debates no site. Quem quiser, facilmente, coloca-lo no devido lugar de uma figura pouco educada, de pouca instrução formal e inteligência e cultura limitada, pode fazê-lo a vontade. Quem esta colocando o material na internet é você: ninguém esta indo "busca-lo", esta aqui para todo mundo ver. Você é o arquetipico babaca.

    • Pedro Postado em 06/Jun/2016 às 18:52

      Nao tem nada de "senta la e fica quieta", nem de ridículos "beijo fofa". Que artificio infantil, ridiculo e tacanho de me tratar no feminino para "me ofender". Isso ofende apenas a você que por problemas pessoais seus, enxerga nisso algum problema. Como sempre sua resposta foi vazia, sem conteúdo e resumiu-se a um xingamento: sequer inteligente ou bem utilizado. Um perdigoto infantilizado.

  3. marcos Postado em 04/Jun/2016 às 10:33

    Eu apenas me concentro em mostrar que as opinioes sao quase totalmente baseadas no que a midia te informa. E mostro quem sao os donos, o monopolio e os interesses desses veiculos. Sem entender isso, qualquer discusão politica nao leva a lugar nenhum, nem adianta muito perder tempo.

  4. Vinicius Postado em 04/Jun/2016 às 19:41

    Primeiramente Fora Temer! Em segundo, eu evito discutir política a qualquer custo , porque diante de alguns discursos advindos de Jornal Nacional, MBL, Revoltados Online, Vem Pra Rua, Veja e afins é impossível ficar calado e manter a educação. *Outro Vinicius

    • Mauro Pinto Postado em 06/Jun/2016 às 11:11

      Segundamente, Globo, vá para Miami!

  5. C.Pimenta Postado em 04/Jun/2016 às 21:48

    Perante a lei, Serra estaria impedido de ser chanceler: http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/helena/2016/06/inaptidao-de-serra-para-as-relacoes-exteriores-contraria-ate-a-lei-brasileira-2430.html

  6. Sérgio Carneiro Postado em 05/Jun/2016 às 15:44

    Em outras palavras o PP defende: "Faça o que eu digo, não faça o que eu faço."

  7. Pedro Accioli Postado em 06/Jun/2016 às 08:24

    Primeiramente, quando há briga por futebol ou diferenças de gosto musical até dá para reconciliar! Agora, quando a briga for por política não tem volta, isso eu percebi muito bem desde quando a discussão política foi a fundo a partir das eleições de 2014! Eu respeito a opinião de todo mundo, seja esquerdista, quanto direitista! Mas quando vejo quem gosta do Boçalnaro, Feliciano ou quero os militares de volta ao poder, na boa, não merece respeito nenhum e muito menos a minha amizade!

  8. Thiago Teixeira Postado em 06/Jun/2016 às 12:26

    Um dia eu contei numa mesa de restaurante 12 pessoas descendo a lenha na Dilma, uma queria que ela morresse, outros queriam porque queriam Lula na cadeia, fim do Bolsa família, Serra é o melhor político do Brasil, Bolsonaro é o único honesto, não podemos comparar Lula com FHC (FHC é o cara, um grande homem, eles diziam) ... me limitei a ficar em silêncio e tentar engolir o filé a parmegiana que a empresa proporcionou aos "engenheiros" naqueles almoços de confraternização. Tem vezes que é melhor não entrar em debate, é perda de tempo e energia.

  9. Thiago Teixeira Postado em 06/Jun/2016 às 12:27

    Melhor ainda pra você.

  10. Rodrigo Postado em 06/Jun/2016 às 14:38

    (Outro Rodrigo) Parabéns pela postagem!

  11. Denisbaldo Postado em 06/Jun/2016 às 17:20

    Impossivel baixar mais o nivel do que a nossa grande midia. Depois da votacao da Camara a favor do impeachment, desativei meu facebook. Nao ha mais nada a ser dito. Soh comemto por aqui de vez em quando.

  12. Ricardo Postado em 07/Jun/2016 às 12:01

    Bela leitura pra vc. Não se discute com fascista: é um dever de consciência enxotá-lo. Não se pode ser tolerante com o intolerante.

  13. Ricardo Postado em 07/Jun/2016 às 12:03

    Boa leitura pra vc, seu filho da puta. A cada agressão de um fascita ordinário, como vc, cabe a reação à altura. Corre, fascista!