Redação Pragmatismo
Compartilhar
Educação 08/Apr/2016 às 11:55
6
Comentários

"Não há meritocracia sem igualdade de oportunidade", destaca professor

Economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper afirma que discutir meritocracia em um país tão desigual como o Brasil não faz sentido. “Sem resolver a desigualdade de oportunidades, ficar falando em meritocracia é piada. Como discutir o mérito de quem chegou em primeiro lugar em uma corrida onde as pessoas saíram em tempos diferentes e a distâncias diferentes?”

meritocracia igualdade educação oportunidade rico pobre

Para Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor no Insper, discutir meritocracia em um país tão desigual em oportunidades como o Brasil não faz sentido. “Sem resolver a desigualdade de oportunidades, ficar falando em meritocracia é piada. Como discutir o mérito de quem chegou em primeiro lugar em uma corrida onde as pessoas saíram em tempos diferentes e a distâncias diferentes?”, questiona Paes de Barros, um dos principais especialistas em desigualdade social.

Não faz nenhum sentido discutir o mérito em uma regata na qual os barcos não são iguais, ou em uma corrida de Fórmula 1 em que não se está sujeito ao mesmo regulamento.” Para ele, o país já avançou ao reduzir a discriminação, que ocorria até nas escolas, contra alunos menos favorecidos.

No passado havia ações, tradições e procedimentos que reforçavam a desigualdade que vinha da família. Porque uma coisa é eu pegar uma criança de família desestruturada e não conseguir ensinar. Outra coisa é dizer: não vou nem ensinar esse aí, porque não aprende mesmo. O professor ia para escola em um bairro pobre e nem se esforçava muito em ensinar. Era discriminação”, afirma Paes de Barros, que acredita que o que falta agora é discriminar os alunos positivamente, dedicando a eles toda a atenção extra necessária.

Hoje, diz, a sociedade considera natural a existência de “educação de pobre e educação de rico”. Essa postura precisa ser combatida. “Você está naturalizando o fato de que uma criança pobre pode aprender menos, e uma criança rica tem que aprender mais. É o conformismo, o naturalismo”, afirma.

Temos que sair de ações que discriminavam negativamente, não para ser neutro, mas para discriminar positivamente”, diz Paes de Barros. “A escola tem que ser um lugar onde a gente reduz desigualdade e trata de maneira diferente pessoas que precisam mais. Pegar os que entram em desvantagem e tentar eliminar essa desvantagem, porque o objetivo final da escola não é lavar as mãos e deixar que a desigualdade seja reproduzida. O objetivo da escola é eliminar essa desigualdade inicial e fazer com que todo mundo saia igual, e aí sim ser meritocrático”, explica.

Valor Econômico

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook

Recomendados para você

Comentários

  1. gustavo0 Postado em 08/Apr/2016 às 16:58

    Trata-se de uma questão semântica, daí o impasse filosófico em torno da famigerada meritocracia, tão evidenciada atualmente. É preciso, antes de mais nada, definir o que é de fato a tal meritocracia. Na meu entendimento a meritocracia não existe e nem nunca existirá, penso que existe uma falha lógica, tendo em vista que a igualdade absoluta de condições jamais será alcançada, por mais homogênea que uma nação possa conseguir se tornar.

  2. Ricardo Postado em 08/Apr/2016 às 18:07

    "Meritocracia" é um conceito ultrapassado, como ponta o professor Michel Sandel: afora a questão da historicidade de cada um, que não pode, de forma alguma, ser ignorada em um sistema de justiça, tem a questão do que cada sociedade aleatoriamente (ou nem tanto) valoriza em cada época. Ter a graça de uma determinada habilidade (como chutar uma bola) no lugar certo e no momento certo não transparece muito mérito, mas loteria. Ademais, mérito envolve a ideia de esforço, e aqui há outra incongruência da "meritocracia": o sujeito que é filho de pedreiro e consegue uma formação e um trabalho de nível universitário se esforçou mais que seu colega oriundo de família abastada, mas ninguém que defende a "meritocracia" vai ter a coragem de dizer que o primeiro deve receber mais que o segundo - portanto, na verdade, o critério adotado é o resultado, e não o mérito!

    • Pedro Postado em 10/Apr/2016 às 04:14

      Ricardo, fico muito feliz de me deparar com alguém que enxerga a realidade do acaso genético. Mesmo com condições de igualdade, nascemos diferentes: precisamos condenar os "menos dotados" a vidas miseráveis? A meritocracia so faz sentido para discutir a ferramenta madura, não o processor criação dela. A ferramenta é o ser humano no contexto profissional. Nesse sentido, a meritocracia chinesa, de Confúcio, faz absoluto sentido: os pilotos de avião, os cirurgiões e os governantes mais capazes devem exercer essas funções, e assim por diante. Mas essa perversão de transportar essa idéia, que chega a ser puro bom-senso, ao processo de aquisição de habilidades e capacidades, e por consequente, as dificuldades e marginalizaçao de indivíduos "que não merecem" é de uma perversidade acéfala ininteligível. Eu não consigo entender exatamente o que defendem os promotores da 'meritocracia' no Brasil. Todo mundo é a favor da meritocraria de fato, na alocação de tarefas: mas esse conceito não faz o menor sentido na analise do bem-estar social e da nossa construção social. Como você disse bem: se nascer com o dom de chutar bem uma bola, na hora e local certo, venceu a loteria da vida, mas não "mereceu" nada. A palavra 'merecimento' precisa ser substituída por 'adequação', ou outra que explique melhor a meritocracia de Confúcio em nosso tempo.

  3. Vinis Postado em 08/Apr/2016 às 20:14

    Não existe meritocracia numa sociedade capitalista.

  4. Leonardo Postado em 08/Apr/2016 às 23:42

    Os funcionários públicos deveriam ser escolhidos por mérito (concurso), ou por sorteio ou indicação política?

  5. Line Postado em 09/Apr/2016 às 22:05

    O rodrigo constantino que o diga